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quinta-feira, 23 de junho de 2011

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Educação e Formação de Adultos pouco escolarizados e a Iniciativa Novas Oportunidades

 

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À minha amiga Dina Bernardo

Estabelecer uma relação entre a Educação e Formação de Adultos (EFA) e a Iniciativa Novas Oportunidades (INO) é trazer para um debate exigente e espinhoso, sobretudo pela sua natureza ideológica e axiológica, a importância da capacidade individual e colectiva das aprendizagens, designadamente dos adultos menos escolarizados, tendo bem presente os atrasos estruturais nos planos da educação e da formação que se verificam na sociedade portuguesa, com as consequências sociais, culturais e económicas que se conhecem. Não sendo possível nesta breve reflexão inscrever tal aprofundamento, passo a expressar apenas algumas notas que considero relevantes na relação em análise.

 

Em primeiro lugar, importa referir os números expressivos de adesão aos processos de Reconhecimento e Validação de Competências (RVCC) e às novas ofertas de EFA que, pela sua ordem de grandeza, merecem um exame exigente e desapaixonado. Inevitavelmente estamos em presença de impactos, ganhos e perdas nas esferas do individual, do social e do económico que interessa avaliar e elencar. Neste panorama impressivo, será naturalmente pertinente questionar se a EFA é hoje já um sistema ou, ainda e tão-só, um conjunto generalizado e diversificado de práticas mais ou menos localizadas?

Uma ilação, no entanto, é-me permitida pelo contacto intensamente vivido com os adultos que têm respondido positivamente à INO; o Estado é visto por estes com simpatia e a ocorrência desta subjectivação, designadamente junto de uma população menos escolarizada, não é algo que se possa depreciar política e socialmente enquanto condição valiosa em termos da evolução próxima da educação e da formação dos adultos.

Valendo as percepções o que valem, neste contexto disputado de subjectividades e de racionalidades, designadamente no âmbito do RVCC, interessa apurar se estamos em presença de um mecanismo que reproduz e revalida desigualdades ou, pelo contrário, promove mudanças de natureza social intencionalmente comprometidas com processos mais amplos e desejáveis de democratização. A EFA constitui, como se sabe, um campo de múltiplas dimensões (do cultural ao económico, passando pelo educativo e que nestas não se esgotam) que interagem entre si de uma forma nem sempre harmoniosa e congruente, fazendo com que o critério decisivo não possa deixar de ser colocado na emancipação (pessoal e social) dos cidadãos, designadamente dos que não foram favorecidos pelas suas circunstâncias sociais e históricas.

É neste quadro, onde as políticas se constituem, que importa perceber a escala que se pretende dar à EFA e como esta acolherá (ou não) todo um património cultural e educativo de experiências significativas anteriores e das filosofias que lhes estiveram (e estão) subjacentes. As questões de proximidade, de emancipação pessoal e colectiva e de natureza e amplitude das mudanças não podem deixar de constituir referências fundamentais na valorização sistémica deste domínio socioeducativo enquanto modalidade institucional que se deseja com a mesma dignidade das restantes. Estas são algumas das questões que podem e devem orientar o debate que urge continuar, incentivar e aprofundar no domínio da EFA.

Uma outra face da temática relativa à EFA, que importa igualmente problematizar, tem a ver com o processo RVCC na sua relação com as aprendizagens no quadro mais amplo da Educação e Formação ao Longo da Vida. Nesta perspectiva, desde já, impõe-se uma nota inicial; o RVCC não pode ou deve ser considerado um simples ponto de chegada. O RVCC tem de ser promovido e, como tal, instituído seguramente como um ponto de partida ou de passagem para um processo educacional mais amplo e permanente capaz de (trans)formar as pessoas e as suas condições de existência. Neste contexto, torna-se, deste modo, desejável trabalhar e valorizar o processo RVCC optimizando a sua função formativa, nele inscrita, de um eficiente balanço realizado de saberes e de competências, tendo em vista o desenvolvimento viável e futuro de projectos pessoais e colectivos.

Acrescente-se à nota anterior, uma outra consideração sobre as evidências requeridas ao longo do processo de reconhecimento e validação e a natureza (colectiva ou individual) da sua focagem. A diferença na tomada de foco pode favorecer (ou não) o debate de problemas comuns e apadrinhar (ou não) abordagens partilhadas de possibilidades de acção. O terreno e a natureza das evidências orientarão (ou não) novas formas de perceber e perspectivar o meio e o mundo e, como tal, modos de acção distintos de operar sobre eles, reclamando naturalmente saberes e competências diferentes para responder a necessidades, também elas, logicamente diversas.

Por último, o factor tempo. Este constitui-se num elemento decisivo porque dele depende a qualidade de realização de um trabalho metodológico, formativo e organizativo capaz, tendo em conta, com rigor e realismo, as dificuldades de natureza educativa e cultural inerente a percursos escolares reduzidos da grande maioria dos adultos. A ocorrência e o desenvolvimento de autonomias de modo a alterar as relações, por vezes fundas, de desigualdades no plano dos múltiplos recursos associados à capacidade de aprender permanentemente, não podem continuar a ser pensadas como eternas inevitabilidades. Assim sendo, uma das questões pertinentes que se coloca é esta; será possível aos Centros de Novas Oportunidades, nas condições actuais e no âmbito global da INO, trabalhar os referenciais de competências-chave neste sentido crítico e transformador das pessoas e dos seus contextos de existência?

Imagem retirada DAQUI

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

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DO EU SOLITÁRIO AO NÓS SOLIDÁRIO

 

Frei Fernando

Acabo de ouvir uma estimulante entrevista de FREI FERNANDO VENTURA na SIC NOTÍCIAS, com o jornalista MÁRIO CRESPO. Diria que aprovo, no essencial, o que o Fransciscano da Ordem dos Capuchinhos exprimiu, embora como ateu prescinda, e aguardo que dessa desobrigação ninguém me leve a mal, as suas referências a Deus e à Fé.

As suas palavras foram por mim tomadas na sua dimensão filosófica, ética e, sobretudo, política no seu apelo à coragem de experimentar práticas de solidariedade (e de liberdade) face ao OUTRO no sentido de consertar a ESPERANÇA destruída pela decepção, desfeita pela ruína da credulidade e arrasada pelo depauperamento da ideia entusiasmante de progresso.

Regenerar esse histórico laço prometedor entre os defensores do progresso e da justiça social a favor do OUTRO e da SOLIDARIEDADE que a inscreve constitui, hoje mais do que nunca, uma urgência que não pode esperar. O FUTURO, pese embora a desconfiança instalada, não pode vacilar entre a esperança frouxa e o desespero que suspende a ação. A confiança impõe-se porque, só ela, pode animar a vontade de mudar e de (trans)formar.

 VER E OUVIR a entrevista; vale apena …

A designação do post é o título do seu último livro.

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quarta-feira, 8 de junho de 2011

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OS INTELECTUAIS - SILÊNCIO IMPOSTO OU PROSTITUIÇÃO DE LUXO?

 

corpoadentro

Imagem retirada do BLOG AS LEITURAS DO CORVO

 

CORPO ADENTRO de Bernardo Coelho

A primeira grande investigação sobre a prostituição de luxo em Portugal.

Corpo Adentro é um olhar que desvenda o denso e oculto quotidiano destas mulheres, prostitutas e acompanhantes. Uma intensa e rigorosa pesquisa que permite compreender como as acompanhantes dão corpo a uma identidade sexualizada.

 

A analogia não é, de todo, despropositada …

Os tempos de hoje exibem, aos olhos de qualquer moral de reputação merecida, para além de um desprezo indecoroso pelo FUTURO, perplexidades inaceitáveis feitas de múltiplas iniquidades ofensivas ao respeito pelas pessoas e insuportáveis nos planos das exigências mais elementares de justiça social. Embora submersa em bens materiais de toda a casta, a sociedade no seu conjunto oferece-nos, com efeito, uma triste e inquietante QUALIDADE tendo presente os valores da DIGNIDADE HUMANA e da JUSTIÇA SOCIAL que, pela sua centralidade, determinam e autorizam o julgamento de mal-estar e apoquentação.

 

É neste quadro, tendo em atenção a constatação do evoluir histórico, que os INTELECTUAIS parecem ter perdido lentamente e sem recuo patente, a militância forjada na sua autonomia de afirmação de pensamento e de crítica e o desperdício do seu poder mobilizador, acima dos interesses egoístas de grupos e das intolerâncias preconceituosas dos partidos. Estas características, cívicas e morais, associadas ao reconhecimento social das suas competências, profissionais e académicas, aceites como excepcionais, são as que lhes conferem (ou concediam) a legitimidade e o enorme respeito público para fazer valer não só o direito mas, sobretudo, o dever de intervir em questões de interesse e de preocupação de ordem geral, em nome de uma “consciência colectiva” que importa(va), permanentemente, promover e atualizar.

Desgraçadamente, hoje, apesar da expansão das escolaridades, presencia-se o fenómeno intrigante do progressivo distanciamento entre as chamadas elites ditas cultas e a generalidade das pessoas comuns através de um movimento perverso de sobrevalorização daqueles em desfavor da acintosa vulgarização e empobrecimento crítico destas, numa lógica de reforço da dominação política, económica e social, que acrescenta a esta subjugação, o necessário e conveniente projeto de hegemonia cultural e ideológico, adaptado às suas particulares exigências e prementes necessidades dos tempos. Este fenómeno enredador, para além de questionar o papel da ESCOLA que temos e da ORDEM que esta serve, torna-se evidente a formação de uma nova classe de “pregadores mediáticos” que tem a função serventuária e missionária de esclarecer o “povo”, esse corpo ignorante e bruto, no intuito de o trazer à boa razão e de lhe indicar o caminho correto e prometedor da paz social que a “todos” interessa.

Quanto a mim, a VIDA, através das pessoas concretas que nela habitam e das suas histórias, tem-me ensinado a resistir e mesmo a rejeitar o assédio das melodias do individualismo abstracto e rarefeito do ser humano decorrente dos diversos liberalismos que, hoje e a todo o momento, nos sitiam. Continuo a pensar que o homem, no seu essencial, se faz no quadro objectivo das suas relações sociais e, como tal, não alinho numa concepção metafísica da pessoa que trata com reverência a multiplicidade do bem individual em relação ao bem comum e a separação das pessoas em detrimento da sua interdependência.

É neste quadro de interação social e contextualizada que julgo ser possível o RECONHECIMENTO DO OUTRO como uma necessidade humana fundamental e se (re)estabelece a dignidade das pessoas como formas necessárias e igualitárias de aceitação, ao contrário de honras espúrias e de honorários suspeitos que fazem dos canalhas mediáticos gente respeitável, desinteressada e qualificada. Que saudade da nobreza e da dignidade dos INTELECTUAIS de outrora que, ao contrário de nos convocarem para um sentido duvidoso de responsabilidade nos apelavam para a uma outra e diferente OBRIGAÇÃO; a de lutar pela DIGNIDADE e pela JUSTIÇA, humana e social …

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domingo, 5 de junho de 2011

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5 DE JUNHO - ENTRE A ESPERANÇA E O DESESPERO

 

Li o que não pude deixar de ler, escrevi apenas e-mails improrrogáveis e nada fiz que importe aludir ao longo desta última semana. Não obstante, andei muito atarefado, ou melhor, alegremente azafamado com convívios, afectos e memórias de stupidfamiliares e amigos que me fizeram viver e reviver. Ainda bem. Não dei por mim, nesta feliz circunstância, acareado com aquela vontade indeterminada, e de arriscada auto-compreensão, em ir de companhia com esse folguedo eleitoral feito de um vazio político penoso e desesperante. Mormente, descansei da perversa comunicação social que presta aquele submisso, comovente e patológico papel de perversão democrática.

Sou um, entre muitos, que entende que a democracia é tanto mais democrática quanto mais esclarecidos forem os cidadãos. Assistir, assim, à degeneração mórbida das inteligências estimulada por múltiplos figurantes, nos quais incluo, julgo que com toda a propriedade, os supostos doutos “politiqueiros” que se travestem de imparcialidade, constitui, para mim, o clímax do masoquismo moral e intelectual da farsa eleitoral. O PS recusa os privilégios de Marcelo mas não tem a vontade, e por isso dispensa a coragem, de fazer alinhar a prática com o discurso que a ocasião madrasta solicita no seu despudorado significado oportunístico. Mais do que discrepância, estamos na presença da eficácia de uma produção procurada da dita degeneração que serve aquela alternância que cria a verdadeira gordura do sistema; o sebo e banha dos seus gulosos.

Nesta pantomina trágico-cómica, os gulosos insaciáveis na voragem da sua avidez, tudo fazem para tornar os cidadãos em esqueléticos eleitores, mendigos de um direito que virou dever de poder escolher apenas os pratos do dia de um cardápio que exala o fedor da burocracia acomodada pelo mundo das negociatas, ambos com a reputação em baixa, atravessando desavergonhados as ruas da amargura ética. Como o passado recente tem vindo a acusar, os compromissos assumidos valem até ver e os direitos com facilidade são engolidos na sua historicidade pelas bocarras desses chulos glutões. Entre a esperança e o desespero, resta-me ainda a dignidade da história e a referência daqueles que serviram sem nada pedirem em troca. Todavia, até quando esta memória me dará energia para acreditar?

Imagem retirada daqui

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sábado, 28 de maio de 2011

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A VISIBILIDADE QUE DÁ EXISTÊNCIA À INSUFICIÊNCIA DA DEMOCRACIA

 

Transgénicos

Lamenta-se não ter conhecimento suficiente da sociedade que está perto apesar de outros, sem rebuço, se permitirem mostrar o mundo que se sente e se percebe mais afastado. A encenação ganha aí o seu espaço e desproporciona-se perante a descuidada dispersão. Lasciva e com intenção, trabalham-se os palcos que importam. De modo matreiro, o visível e o invisível oferecem, nesse tempo, percepções, sentimentos e representações numa desapercebida economia da atenção. A ficção mediática esquissa, então, as realidades necessárias feitas de coisas cinicamente simples, no entanto, fixadas pela estranheza e pela opacidade. A transparência, o suposto cabouco fundamental da democracia, transforma-se docemente no seu mais previsível buraco tóxico.

Devorados pela impudica sedução do consumo, pelo desassossego de um quotidiano agitado, pelo trabalho inumano e desregrado ou, ao invés, pelas preocupações da sua escassez, mais surrados se fica pelo desmando torpe da (des)informação. Acresce, que a ignomínia insatisfeita ou insegura, reanima-se em permanência com as técnicas subliminares e eficazes de invocação da atenção que importa e interessa às proeminências sociais discutíveis. É assim que a encenação ocupa, nesta candonga bastarda, o lugar das ideologias e, deste jeito, procura a fulanização de uma suposta credibilidade que justifica o abastardamento.

 

Nesta campanha eleitoral, este fenómeno é de mais evidente. Para que tudo fique na mesma joga-se na personalização política centrada em dois rostos, encenam-se conflitualidades grupais e pessoais, teatraliza-se seduções de toda a espécie mas evita-se apresentar o que nos bastidores já se decidiu e o que na ação política concreta se pensa fazer. A promiscuidade da generalidade da comunicação social com estas teses da manipulação faz do teatro político um instrumento de poder que deprecia a democracia e desqualifica a inteligência crítica da cidadania.

Assim sendo, pior do que as marionetes centrais, na minha modesta mas enraivada opinião, confesso, são os energúmenos marginais e serventuários que desfilam nas pantalhas da televisão. Estes não fazem mais do que regurgitar, com ares aparvoados e insolentes, imitações contrafeitas demasiado previsíveis, acrescidas de trivialidades idiotas e burlescas. A esfera do mercado, e o corporativismo jornalístico a ela associada, é abusivamente invasiva perante um poder político inabilitado que tenta ocultar a sua penosa condição de gente vencida e tristemente colonizada. E assim se vai iludindo os pacóvios exibindo um tosco folclore, ao mesmo tempo que se sonegam as verdadeiras intenções e o alcance das suas duras consequências. E são estas que convêm serem esclarecidas …

Imagem obtida aqui

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quinta-feira, 19 de maio de 2011

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O DESAMPARO E AS ILUSÕES ELEITORAIS

 

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Nós, os humanos, procuramos os laços sociais para nos defender dos nossos múltiplos e diferentes desamparos, sentidos, vividos ou imaginados. É a natural necessidade de proteção que nos leva ao alimento, ao afecto e ao amor. Ao longo do tempo, a natureza dessa dependência vai mudando, evoluindo do fisiológico vital para o alimento que dele transcorre para o universo complexo e humano do psicológico.

Logo, procuram-se as fontes que os desejos insatisfeitos reclamam, sejam elas religiões, mestres ou verdades, na ilusão de um qualquer acolhimento que nos transmita conforto e tranquilidade. Neste devir natural, surge então de modo dramático, um tempo cinzento em que descobrimos a insuficiência dos que nos são próximos e, em resposta a um forte apelo de sobrevivência, somos atraídos pela comodidade da oferta intrusiva de outros ideados poderes, dos deuses às teorias, na busca humana das ilusões necessárias à proteção sentida, pela sua carência, como angustiante e inconsolável.

Com o passar do tempo, a autonomia que descobrimos e desejamos passa a conflituar com as ilusões que a vida entretanto nos denuncia e, igualmente, embora de modo paradoxal, com a atração por nostalgias que nos fazem reavivar memórias em busca de um reencontro com um passado infelizmente perdido. É neste quadro de angústias que, através de construções imaginárias e simbólicas, internas ou voltadas para o exterior, os humanos procuram respostas de razoabilidade e de esperança histórica. O cinismo e a hipocrisia da argumentação política, densamente presente nesta campanha eleitoral, não eliminam – bem pelo contrário – este sentimento generalizado de desamparo em que todos nós, ou quase todos, vivemos.

Para memória futura MEMORANDO DA TROIKA

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sábado, 30 de abril de 2011

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A RESIGNAÇÃO LEVA-TE PARA ONDE OS OUTROS TE QUEREM LEVAR

 

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Ter a coragem de procurar e construir a liberdade, a nossa liberdade pessoal, supõe atender-se à aprendizagem dolorosa da independência, não temer apostar nos desafios das diferenças e aproveitar, com inteligência, a fecundidade, mesmo que circunstancial, das nossas histórias, paixões e energias. O julgamento normalizador, normalmente cínico, de feição vigilante e paternalista, oriundo de poderes múltiplos de duvidosa legitimidade, constitui a ameaça que importa saber nomear, desaprovar e, com força moral, travar com ele o combate necessário.

Para a compreensão das suas origens, importa lembrar que a definição do aceitável foi, ao longo de tempos mais recuados, direito quase exclusivo das minorias dominantes, da religião e do Estado. Regulava-se a vida de todos e de cada um de nós a pretexto da coesão moral e social que convinha respeitar e manter. Eles e as suas pretensões, umas confessáveis outras nem tanto, ditavam as normas do admissível e traçavam os limites toleráveis dos desvios. Assim se arquitetavam as referências morais a serem observadas e os comportamentos que as enalteciam.

 

Mais tarde, a ciência vem-nos prometer a objectividade como coisa certa e, nessa circunstância, o saber laico ousou, arrastado pela firmeza da convicção, perturbar as verdades eternas do divino. A partir daí, os deliberantes passaram a competir entre si a definição e convocação axiológica da norma e a condenação moralista do desvio nem sempre coincidentes ou mesmo divergentes. O legítimo, ao balançar entre o domínio do teológico e o terreiro profano da racionalidade, abre uma nova época em que o saber, o poder e a manipulação crescentes, numa intimidade promíscua, conduzem à atual desconfiança das verdades prometidas e das respostas ansiadas.

Deste modo, as verdades captam, na perplexidade do seu percurso evolutivo, a prerrogativa da invenção, da ocorrência e da substituição em função das interpretações dos momentos e das forças que as podem infundir. O futuro, o presente e o passado confrontam-se, assim, no campo turbulento das representações que se atrapalham no diálogo inevitável que o simbólico insiste em manter com o imaginário, permanentemente vigiadas por quem procura, na suposta distinção social, a sobrevivência dos privilégios em risco. É neste contexto que o passado, que sempre arrastou consigo um estranho apelo a velhas e superadas ordens, perante um futuro improvável e pungente, se torna chamada potencialmente dissoluta e traiçoeira.

Como é sabido, cada tempo tem os seus poderes que se servem de todos os seus expedientes e artimanhas para arrostar as inquietações de todos nós. É assim que, com toda a naturalidade, se vai assistindo ao cortejo mediático de sumidades ditas respeitáveis e sabedoras, gente silenciosamente acolhida quando não subsidiada por aqueles difusos poderes, propondo e justificando as medidas a serem tomadas para a desejada salvação de todos nós. A vigilância política e a ação colectiva não dispensam, antes exigem, a firmeza de tomar sobre nós a nossa própria coragem e vontade. Sem esta consciência feita de razão, liberdade, coragem e vontade, parecemos aqueles rafeiros obedientes que muito ladram mas … não assustam a canalhice dos que sabem aproveitar as “oportunidades” sem qualquer tipo de preocupações éticas e sociais.

Imagem obtida em HORTA DO ZORATE

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quinta-feira, 21 de abril de 2011

NAS CRISES, A ARROGÂNCIA TEM POR DESPREZÍVEL O SOFRIMENTO

 

O tema da dissolução da Assembleia, dos seus motivos e consequências, leva a “comunicação social sem contraditório”, nas suas relações de interesses sempre inconfessáveis, a agendar para o debate mediático o VALOR DA RESPONSABILIDADE ao associar a CRISE – eterna para uns, supostamente conjuntural para outros e inexistente para uns quantos – à atual crise política, de modo a que esta dobre a primeira, tornando aquela de segunda ordem.

 

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Imagem obtida em Sara Alves – Escritos

Neste ardil ideológico e político de esperteza duvidosa, ao qual se acrescenta deliberadas e diversas fulanizações para compor as encenações de magia que interessam, pretende-se, tão-só, persuadir os incautos de quem merece ou não a confiança, no futuro próximo e urgente, de governar. E com esta prestidigitação parteja-se a noção de “arco de governação” tartucificando quem merece ou não aceder à governação, contrafazendo as exigências e as condições dessa mesma governabilidade.

 

E quais são essas contrafeitas exigências e condições de governabilidade? São todas aquelas que, sem exceção, convocam, favorecem e proporcionam as políticas de austeridade feitas de regressão social e de exploração laboral, a favor naturalmente da financeirização das economias e da fragilização e dependência políticas dos Estados, com a compreensão subserviente e bajuladora da generalidade da comunicação social no estreitamento intencional de perspectivas e renovados horizontes.

A arrogância do(s) poder(es) e dos seus serventuários, entremeada de “convincente” hipocrisia e “engenhosas” perfídias habilmente elaboradas, alimenta-se deste vampirismo inumano, toscamente disfarçado de retóricas de bem servir as pessoas e as suas comunidades. A democracia não pode, neste contexto de palco reduzido, esgotar-se nos espaços interditos à indignação pública e à sua expressão social e cívica. Daí, a relevância cada vez mais sentida da importância da ocupação viva e dinâmica desses terrenos abertos e livres, sejam eles avenidas, praças ou bairros, para o protesto necessário e urgente que o “institucionalismo” vigente e estreito procura, pateticamente, com ares respeitáveis, silenciar ou mesmo calar, desqualificando os legítimos clamores do sofrimento.

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terça-feira, 19 de abril de 2011

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A DESAGREGAÇÃO DA EUROPA E A CAMPANHA DO FIXE MÁRIO

 

ANTES CLONE DO QUE COLONO

O Fixe Mário é europeísta convicto e, sobretudo teve a arte e o engenho, quem diria, em ser dos primeiros a denunciar os perigos da desagregação europeia em virtude desse desditoso neoliberalismo que, segundo ele, está na origem da crise global e está longe de ter passado. Profetiza o Fixe Mário, com aquele ar de avô bonacheirão com que, vezes sem conta, diverte os simplórios mais desatentos.

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Imagem obtida em A Especiaria: A ESTRANHA LUCIDEZ

Apesar de tudo, o Fixe Mário não deixa de se exibir um entusiasta do projeto europeu porque, para além de outras bondades, o projeto prometia e comprometia-se a respeitar em absoluto a justiça social com direito aos cuidados de saúde, tendencialmente gratuitos, ao ensino, para todos, e à segurança social, na doença e na velhice, criando assim verdadeiras sociedades de bem-estar, como nunca tinha havido, em parte alguma.

Mas os portugueses, como sempre abusadores, convenceram-se de que pertenciam, definitivamente, ao chamado primeiro mundo e começaram a viver acima das suas posses, como se alguém lhes tivesse, alguma vez, segredado tamanhos benefícios. Mas o mundo evoluiu e atraiçoou o Fixe Mário desacautelado. Não se sabe bem se chorou ou chora e porquê, o colapso do universo comunista, que reputa de um colossal embuste que instou, não se sabe se bem ou mal, os regimes do Leste europeu a converteram-se em democracias e, atrevidamente, a quererem integrar-se na entusiasmante e prometedora União Europeia.

Mas o Fixe Mário surpreende e dá-nos a aperceber o que ainda não tínhamos enxergado. É que derrubados o Muro de Berlim e a Cortina de Ferro, a América do Norte transformou-se em hiperpotência mundial, verteu-se finalmente em "dona do mundo" e dado o seu imenso poderio militar e económico, quiseram impor à Europa a sua ideologia neoliberal, que em 2008, conduziu à crise global e, em vésperas de eleições, tanto preocupa o Fixe Mário.

A tudo isto acresce um problema, que só a pertinácia política do Fixe Mário permite aclarar; a colonização dos partidos socialistas e democratas cristãos pelo neoliberalismo. E porquê? Pela simples mas infeliz circunstância de, entre os 27 Governos europeus, 24 serem hoje ultraconservadores, completamente indiferentes aos valores do projeto europeu. E é esta a única, simples e infeliz circunstância que está a corroer a União Europeia e a encaminhá-la, tristemente, para a sua desagregação. Este dado esclarece e justifica, finalmente, a resistência de Sócrates; antes clone do que colono.

Ora, o Mário é mesmo fixe e, neste horizonte cinzento, anuncia a esperança de que os povos europeus despertem e reajam, não contra as políticas, mas contra a falta de solidariedade dos Estados mais fortes da União, destilando uma venenosidade particular para os finlandeses que estão convencidos de que são os mercados especulativos e as criminosas agências de rating que podem destruir nações, com quase nove séculos de história independente, como Portugal... Que ilusão tremenda, sossega-nos o Fixe Mário, quando todos nós pensávamos ter perdido já … a nossa soberania.

Mas, na semana passada é que foi horrível quando, lembra entristecido o Fixe Mário, à beira do abismo, Portugal foi obrigado a pedir um apoio de 80 mil milhões de euros, sendo incrível como a Europa e os Estados Unidos se deixem guiar pela ganância dos mercados especulativos, esses malandros que estão na origem da crise que nos afecta. Bem pior, no entanto, verifica o Fixe Mário é que o ataque dos mercados contra Portugal surgiu num mau momento, com o conluio dos partidos da oposição, que se uniram à direita e à esquerda do PS, todos, sem exceção, para derrubar o Governo do clone Sócrates, o tal que rejeita ser colono. As oposições revelaram, assim e perante o País, profetiza descrente o sábio Fixe, uma demonstração de irresponsabilidade e de insensatez que lhes irá custar caro.

Neste sentido, o Fixe Mário não desiste e combate a sua própria descrença, a favor não se sabe de quem …,  fazendo votos que as negociações que o Governo vai liderar corram bem. Para tal, aconselha os dois principais partidos - o PS e o PSD – ao entendimento, abandonando, como convém a favor não se sabe de quem …, as querelas eleitorais. Sem recorrer a subtilezas, o adulador e sempre fixe Mário, afaga o eleitorado português que sempre deu mostras de sensatez, sentenciando que quem mais propaganda eleitoral quiser fazer, neste período, mais perde. Ou seja, o Fixe Mário, em termos pedagógicos, adverte que não estamos em tempo de críticas ou de denúncias mas da clonagem necessária e, sobretudo, responsável.

Paternal, o Fixe Mário, ao mesmo tempo que elogia o PP que tem estado, sabiamente, calado, envia as alfinetadas que esvaziam o balão do aplauso. O PP, para o Fixe Mário, ainda não percebeu, com razão, de que lado correm os ventos do poder. E como quer um pouco do poder, não sabe ainda com qual dos dois deve iniciar o negócio. Quanto aos restantes, nem vale a pena pensar porque, esses, já se auto-excluíram do jogo do poder e nunca apreciaram o projeto europeu, o tal projeto que, pelos vistos, caminha a passos largos para a catástrofe, segundo o Fixe Mário.

No entanto, a essa ideia originária mas pouco original, importa acrescentar mais argumentos e embrulhar os partidos de mero protesto nos fantasmas do raquitismo ideológico. Com a simplicidade que o caracteriza, o Fixe Mário premonitório sabe o que o eleitorado não percebe o que querem os que não contam. Voltar ao PREC? No atual momento europeu e mundial? Não lhes basta o exemplo de Cuba, que tanto apreciaram sempre, o país mais triste e empobrecido da Ibero-América? Sublime e imprevisível, este Fixe Mário.

Depois, mais alguns beijos e abraços, sem imposturas, aos parceiros sociais, que são extremamente importantes e à sociedade civil, que se tem manifestado em favor do entendimento dos partidos (os incluídos) para superar a crise em que estamos. O Fixe Mário descobre, finalmente e ao fim destes 37 anos de democracia, que é importante que os parceiros sociais e a sociedade civil ensinem os partidos a dialogar uns com os outros e a pôr fim às agressões mútuas em que se comprazem neste triste e persistente deleite do exercício do poder e das suas benesses.

Numa situação tão crítica, que a comunicação social infelizmente, nem sempre bem comportada, tem empolado de todas as maneiras, é preciso piscar o olho ao povo confiando nele e prometendo-lhe, como sempre o PS tem feito e fará,esperança no futuro. E como pudéssemos ser injustos para quem tão bem nos tem governado, o Fixe Mário convence-nos de que o que conta são as pessoas. E estas vão reagir e vencer os desafios que se lhes põem. Como a União Europeia, no seu conjunto. É uma questão de tempo. O Fixe Mário já se meteu à estrada a mendigar votos, não vá o diabo … do POVO … tecê-las.

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terça-feira, 12 de abril de 2011

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O “COMITÌU” DO ZÉ

 

Um Zé arrebatado e na sua melhor das retóricas, sobretudo aceitável na abertura de uma campanha onde as múltiplas sortes se jogam, para ele essencial, embora para outros, azares provavelmente pungentes se aproximam, o Zé eufórico e orgulhoso vocifera em pleno “comitìu”; este momento foi uma lição para muita gente. E, sem rodeios, pergunta que Partido Socialista é este que os portugueses puderam ver aqui, reunido em Congresso? 

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Foto do Zé em pleno “comitìu”

Antes que algum sócio petulante se atrevesse à elucidação, o Zé esclarece os cépticos e inoportunos cinzentões do costume. Diz ele; o que os portugueses puderam ver aqui, em primeiro lugar, (foi) um Partido unido. Sim, um Partido unido. Porque este Congresso foi uma grande lição de unidade. A unidade de todo o Partido na afirmação dos seus princípios e dos seus valores; a unidade de todo o Partido na defesa do seu trabalho no Governo, ao serviço do País e na defesa do seu projeto para o futuro de Portugal. Ficamos, finalmente, a saber, que as conflitualidades de outrora não passaram de caprichosos arrufos de galos e que os PEC.s sucessivos (que a partir de agora outros se associam), faziam e fazem parte desse insondável e apetecível futuro que os socialistas veementemente desejam.

Com a autoridade que todos, mesmo todos lhe reconhecem, o Zé faz ver que este Congresso mostrou também aos Portugueses que o PS é um partido com ideias conhecidas e claras. A nossa agenda não é uma caixinha de surpresas, feita de ideias vagas e de palavras vazias. Os portugueses sabem onde nos podem encontrar. Notável. Para além da insigne e incontestável verdade anunciada, que nenhum cidadão ousará, por certo, pôr em causa, o Zé metamorfoseia e verte a desfaçatez em inteligência política, requisito aliás indispensável ao reconhecimento publico do Zé como um animal da polis.

Caros concidadãos, podemos confiar no Zé. Ele promete e sempre mostrou que cumpre o que promete. Aos portugueses não faltam provas dessa honradez e probidade. Ele promete, insiste e persiste defender a promoção do investimento económico, de modo a gerar mais emprego e riqueza nacional e compromete-se, melhor do que ninguém, em tomar a defesa inequívoca da proteção social do Estado, com serviços públicos fortes, eficientes, acessíveis a todos e a todos garantindo igualdade de oportunidades. E se alguém ousa duvidar, o Zé mostra que está à altura, avisando que Portugal hoje precisa, (de) responsabilidade, maturidade política e ideias claras. Hoje. Sim hoje, porque a oposição trouxe o FMI para nossa casa…

Como se pode descortinar, os inimigos são muitos mas todos eles de identidade provada. Portugal foi arrastado para uma crise política que era totalmente evitável. Mas, o pior de tudo, os tratantes decidiram provocá-la no pior momento possível. E quem são eles, pergunta o Zé ao Zé e o Zé responde;  foram todos os partidos da Oposição – extrema-esquerda e direita - unidos numa aliança contranatura. Eles juntaram-se não para construir fosse o que fosse mas apenas por ambição de poder a qualquer custo. Toda a gente sabe que o Zé é firme e não hesita. Com a honestidade que o define e melhor o caracteriza, o Zé revela  que poucos momentos haverá em que a leviandade política e o calculismo partidário provocaram danos tão graves e tão profundos no interesse nacional. Poucos momentos haverá em que são tão evidentes as consequências devastadoras para a vida das pessoas, da irresponsabilidade e da sofreguidão pelo poder. Genial. Ainda ninguém havia dado por isso.

E o Zé não descansa e, nessa estafadela de aconselhar, acentua a importância, neste momento difícil, de uma liderança capaz no Estado e na sociedade. E liderar quer dizer ter responsabilidade, demonstrar elevação, saber propor e saber agir, apelando, preocupado com o nosso futuro colectivo, à não dispersão dos votos em partidos que vivem apenas do protesto, que se auto-excluem de qualquer entendimento e que nunca, nem no passado, nem no presente, estão disponíveis para construir seja o que for. Para espanto dos descrentes e distraídos, desta magna reunião sai, de facto, diz o Zé, um Partido Socialista novo, com ideias claras e vontade firme. Um Partido à altura deste tempo. Um Partido para servir o País.

O Zé não perde pitada e denuncia energicamente os que se escondem atrás dos arbustos, sem apresentarem as suas ideias, sem apresentarem as suas medidas e sem apresentarem as suas propostas. É  muito simples e demasiado evidente, diz o Zé: eles fogem a comprometer-se não porque estejam a pensar no País mas porque estão a pensar apenas nas eleições! Sim, agora sim. As coisas começam a ficar mais claras e a nobreza de carácter do Zé definitivamente convence. Pois bem: chega de aventuras, chega de jogar às escondidas, chega de irresponsabilidades. O momento exige elevação política e sentido de Estado. E para o pasmo de alguns, os menos avisados, o Zé repete: o momento o exige elevação política e sentido de Estado.

O Zé está aí e os portugueses podem estar seguros. Encontrarão o PS, sem olhar a outros interesses que não o interesse nacional. Mas o Zé mostra-se, como sempre, compreensivo com as inquietações das gentes legitimamente preocupadas. Partilho inteiramente esse vosso sentimento, reconhece, mostrando-se irritadissimo com a crise internacional que atingiu duramente a economia portuguesa e fez subir o desemprego e tornou a vida mais difícil para muitas empresas e para muitas famílias e que a sede de poder de uns quantos acrescentou à crise económica esta irresponsável crise política.

Mas o povo, previne paternalmente o Zé, deve perceber que não é tempo para ideias perigosas, nem para desvios por caminhos arriscados. O tempo não é de rupturas nem de cartilhas ideológicas radicais. O tempo é de garantir o essencial: garantir segurança às pessoas, garantir segurança às famílias. O FMI, gente que o Zé diz não tolerar, tem de ser combatido porque o País não se pode dar ao luxo de interromper o caminho que está a ser percorrido. Nos três primeiros meses deste ano, a despesa pública baixou, como nunca tinha acontecido e a receita aumentou. O défice, por isso, caiu.

Se dúvidas houvesse, a mensagem do Zé tranquiliza-nos. Estamos a caminhar bem e o Zé, responsavelmente, apela à nossa confiança porque é tempo, agora, de enfrentar mais esta dificuldade, este cenário de uma ajuda externa que os Portugueses não mereciam e que o PS tentou evitar a todo o custo. Mas os Portugueses contarão mais uma vez com o PS e o seu Governo. Mas, de repente, uma dúvida me sobressalta; como entender que para levantar o Partido Socialista tenha havido necessidade de uma oposição irresponsável ter feito cair o Governo? Por muito que não queira, tenho que reconhecer que esta declaração será provavelmente a única contradição que suspeito existir no discurso brilhante e sincero do Zé …

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domingo, 3 de abril de 2011

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DESCULPEM … MAS A CRISE NÃO É NOTÍCIA

 

A atual crise apenas se junta a outras normalmente caladas. A diferença essencial está nas vozes inabituais que se acrescentam aos protestos. A dualização social no seu movimento perverso apenas desordena as fronteiras da geografia das desigualdades e das exclusões. As redes de solidariedade debilitam-se a cada dia que passa ao mesmo tempo que se vão estrangulando as sociabilidades e as convivialidades. À acerbidade do triunfo do individualismo associa-se a pretensa bondade das desregulações sociais e a estas, alia-se a sentença das militâncias que as contestam. Aos territórios tradicionais das classes alarga-se os guetos das gentes perigosas - feitos de gente rica, de criminosos farsantes e de pobres sobreviventes - que avolumam a realidade das inseguranças e dos medos que angustiam.

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A atual crise, afinal de contas, não é tanto atual como se supõe. As crises do emprego, das relações sociais e de sentido são factos há muito anunciados mas que apenas alguns tinham dado por isso e agido em conformidade. Ou seja, por aqueles que estão atentos às iniquidades e às desigualdades e as denunciam e, sobretudo, pelos que vivem seriamente injustiçados e desapossados. Hoje, o sonho virou pesadelo e alguns mais vão despertando. O mundo prometido dobrou sociedade irracional e manipuladora. Os mundos imaginários de refúgio, está visto, não são solução. Mas, evitem-se a invenção de utopias que aceitam delongas. O tempo não admite esperas. Um forte sentido mobilizador de oposição sólida às perversidades a que nos conduziram estes tratantes é o lugar da utopia necessária. E a ação urgente um critério da sua vontade …

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

EM VÉSPERAS DE ELEIÇÕES, UMA RUPTURA PELA DEMOCRACIA


Consumo-me e desgasto-me a “indagar” políticas, políticos, comentadores e outras redondezas que, não podendo dar ouvidos à política, não se fartam de dizer mal dela, das suas figuras e, por vezes, ajustadamente, dos seus figurões. A política e as culturas que a enformam impõem-se em todos os lugares e a todo o tempo e raiam-nos, na sua habitualidade, como um dado inevitável tanto quanto incontornável é a permanência dos fenómenos do Poder e dos poderes na sua combinação com a conflitualidade que se deduz de perspectivas sociais e existenciais diferentes, quando não claramente contrárias.

polvo

A atual distância dos que fazem política dos cidadãos que pretendem representar, mas que deles se descasam, constitui um sinal dos tempos cuja explicação não é simples nem tão pouco de alcance fácil, designadamente perante as múltiplas complexidades e perplexidades do espesso e quase ilegível mundo de hoje. Algumas percepções, no entanto, vão-se esboçando em consensos cada vez mais alargados e, em simultâneo, trazendo à controvérsia novos problemas e acrescentadas preocupações. Sinalizemos, sob a forma de interrogações, apenas alguns desses problemas e dessas preocupações.

  • Estamos ou não a assistir a uma apropriação indevida e perigosa, por parte dos nossos eleitos, da representação que lhes conferimos através dos nossos votos? O que os faz desprezar a sua condição de representantes? Quais os factores essenciais que os levam a esse assenhoreamento obsceno?
  • Os votos ao significarem, para uma imensidão de cidadãos, frustrações feitas de expectativas e projetos de vida permanentemente atraiçoadas, não se tornarão causa de uma energia que se liberta e favorece um forte e expressivo distanciamento dos cidadãos face à política?
  • Será que a democracia ainda se reduz ao exercício do político e este mantém a centralidade em que aquela se fundamenta? Então, como se explica o sentimento de uma prevalência técnica e tecnocrática no exercício da política? Ou pior, como se pode justificar a progressiva, e hoje acentuada e quase pornográfica, demissão do político a favor do económico e do financeiro?

O exercício político não pode simplificar-se apenas à administração das pessoas e das coisas. Tornar os cidadãos meros consumidores é adormecê-los face às suas exigências fundamentais, exigências intrinsecamente humanas que não dispensam um olhar crítico e uma ação concertada pela criação de condições de existência que favoreçam e promovam a dignidade e a humanidade a esta associada. Ser democrata, verdadeiramente democrata, é ser por uma democracia que saiba dar respostas claras e coerentes, entre outras, aos problemas e preocupações atrás colocadas. Impõe-se AGIR em conformidade. Não se trata de um dever-ser. Trata-se, tão-só, de SER MAIS … exigente e solidário.

Nota: Imagem obtida em http://opuma.blogspot.com

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sexta-feira, 18 de março de 2011

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AS ABORDAGENS NECESSÁRIAS OU … SIMPLESMENTE “IRRESPONSÁVEIS”?

 

Mais vale tarde do que nunca recusar os alicerces teóricos que procuram confirmar a validade e, com esta, a legitimidade das políticas económicas que insistem estar na ordem do dia. A atual crise, pico de um ataque há muito anunciado, põe a nu não só o carácter tristemente dogmático dos princípios apresentados como as consequências profundamente desumanas e injustas da sua aceitação. A sua eficiência e racionalidade são cada vez mais sentidas e entendidas como patranhas descaradas mesmo que travestidas de expressões supostamente generosas e persuasivas como “corte das despesas” ou “pactos de estabilidade”. Outras opções são possíveis e desejáveis em matéria de política económica. Urge que nos libertemos, o mais rapidamente possível, do garrote estabelecido pelos poderes financeiros às políticas públicas. Vale pena ouvir …

 

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quarta-feira, 16 de março de 2011

O ELOGIO DA URBANIDADE

 

No dia 12 de Março assistiu-se a uma manifestação de dimensões incomuns que, apesar das múltiplas e diferentes motivações dos presentes, tiveram como base consensual do agastamento político, a indignação e o protesto perante o desemprego e a precariedade. Cerca de 300 mil cidadãos, jovens, famílias e outros acompanhantes contestatários deram corpo e visibilidade à iniquidade social enodoada pela escassez do trabalho, sua instabilidade e irreprimível insegurança, ao qual se associa ainda o desalento de um tempo em que as dificuldades acrescidas derretem os justificados horizontes de uma vida decente.

No entanto, sublinhe-se que o povo que esteve presente nesta recusa não é um povo qualquer. Trata-se de gente distintamente escolarizada que tem sentido a necessidade – e a legítima possibilidade – de acompanhar a exigência social de não se deixar inabilitar perante a tendencial desqualificação dos diplomas escolares. Fortemente arreigada em sectores sociais onde os recursos de um modo geral não escasseiam, esta crença, se por um lado alimenta e reforça o sentimento de injustiça dos vitimizados, convoca a natural e espontânea solidariedade e reconhecimento públicos.

img_37331No entanto, convenhamos, que muitos outros jovens e famílias, em situações bem mais desfavoráveis, não estiveram provavelmente presentes na manifestação de 12 de Março. Se esta inferência fizer algum sentido e, sobretudo, encerrar alguma verdade essencial, a ilação daí decorrente coloca um problema de análise que importa considerar e sobre ele refletir. Nesta linha de pensamento, é bom lembrar, que os processos de identificação, sendo processos naturalmente subjetivos, as suas modalidades de expressão não estão, por sua vez, sujeitas às incertezas do acaso na justa medida em que aqueles processos acontecem em contextos precisos feitos de representações, imagens e emoções, fortemente partilhadas e significantes.

Nesta perspectiva, julgo não ser novidade para ninguém que a marginalização conjugada com a penúria de recursos, designadamente económicos, sociais e culturais, introduz no espaço saturado de desigualdades novas desigualdades que fomentam estigmas sérios e múltiplos, cuja reversão pode, em circunstâncias muito especiais, apelar à libertação de uma energia emocional compensatória necessária à sentida, embora confusa, reparação de uma estima persistentemente desrespeitada, quando não violentada. Ou seja, penso que passa por este registo explicativo os fenómenos de identificação colectiva que se vão gerando nalguns subúrbios das grandes cidades europeias, onde os défices de reconhecimento se traduzem na formação, por vezes explosiva, de dinâmicas visíveis e ostensivas de oposição e conflito. O elogio da civilidade tem, naturalmente, limites. É bom ter disso consciência …

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domingo, 13 de março de 2011

IMPORTA UNIR E ORGANIZAR AS IMPACIÊNCIAS E CORRER COM OS BANDALHOS




image001A vida social vai-se corroendo porque aos políticos medíocres se junta uma gentalha técnica prostituída e a estes se associa uma comunicação social conspurcada pela sordidez da bajulação e da submissão. São medíocres os primeiros porque abdicam da nobreza moral do exercício político que são os fins e prostituem-se os segundos, aos quais se juntam os serventuários do ofício jornalístico transmudados em detentores de opinião, na justa medida em que todos estes se servem dos arcanos da decisão e do palco da divulgação políticas para favorecimentos particulares de vária ordem. E assim se vai dissolvendo a política a favor de uma economia - a que vamos tendo - que destrói premeditadamente todo e qualquer outro sistema capaz de legitimação que acione renovados sentidos para a vida social e colectiva e que seja igualmente apto de anunciar horizontes que estimulem um claro sentido às nossas obrigações como humanos e cidadãos. A crítica que não rejeita frontalmente esta fétida ordem do “monismo económico” revela, na minha opinião, uma incapacidade em compreender o essencial da “topografia” moral e ideológica que nos vai docemente entorpecendo …
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