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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A AMIZADE E A SEMÂNTICA

amizade1GOSTAR MAIS DE MENOS GENTE

Texto postado por Rogério Cação na sua página de Facebook

 

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem – Millôr Fernandes

Posto que viver me é excelente, cada vez gosto mais de menos gente. A frase não é minha mas desse grande pensador das simplicidades que foi Agostinho da Silva. E dá que pensar. De facto, são muitas as pessoa que vamos conhecendo ao longo da vida, mas não são assim tantas as que se tornam indispensáveis. Não quer dizer que não se possa gostar de muita gente, mas apenas que apenas alguns cabem no lugar especial que cabe na ideia de “menos gente”. Mais do que uma escolha, o afeto pressupõe um merecimento, reciproco e incondicional e, deste ponto de vista, apenas nos “merecemos” quando somos quando se verifica essa dupla condição da indispensabilidade e incondicionalidade. E à medida que avançamos na idade, tornamo-nos mais exigentes nos afetos, porventura porque não temos tempo a perder. Com o passar dos anos, todos nós vamos gostando mais de menos gente. Porque uns quantos partiram. Porque outros tantos nos desiludiram ou dececionaram. Porque alguns não quiseram ou não souberam merecer-nos. Porque outros não apareceram quando precisávamos deles. São muitos os que passam pela nossa vida e que, sendo embora importantes num determinado momento, vamos deixando algures pelo caminho, às vezes sem sabermos muito bem porquê. É por isso que sentimos necessidade de, quando damos conta que nos falta gente, dar um saltinho ao passado e/ou arranhar a consciência, à cata de explicações para a ausência de gente que nos é indispensável. Talvez acrescentasse uma outra ideia ao pensamento de Agostinho da Silva: porque a vida não me é indiferente, cada vez gosto mais de menos gente. Mas quando gosto, gosto mesmo, acreditem.

Os meus comentários:

Ontem (02FEV), comentei na página do Rogério: “Gostei e de imediato pensei no lado calmo, idiossincrático e pessoal da vida que nem sempre se dá quando em demasia se submete o afeto à superfície dispersiva do número. Não se trata de uma vulgar misantropia nem de um qualquer outro refúgio egoísta. Apenas a descoberta de uma brecha de vida numa outra escala de possibilidades; a da reciprocidade que nos surpreende no íntimo da nossa própria condição”.

Hoje (03FEV), acrescento aqui: “Gostei de ler o teu texto não na perspetiva do número mas da semântica que acompanha a significação que se tem (ou pode ter) da amizade. Não é novidade para ninguém que, no plano histórico, a ideia de amizade aparece demasiado grudada aos ideais catequéticos de igualdade e de fraternidade sujeitando-a, assim, a uma forte envolvência de proximidade modelada no privilégio da autoridade de consciências vizinhas como as de intimidade e de familiaridade, entre outras. No entanto, todos nós também sabemos que esta proximidade (feita de intimidade e familiaridade) atrai, com uma frequência que nos surpreende, dinâmicas relacionais de imposições homogeneizadoras que enfermam a relação com o Outro através de práticas autoritárias que, longe de humanizar, sobretudo não integralizam. Tendo por eixo esta linha de pensamento, desviei o meu olhar para um outro horizonte, que o teu texto parece sugerir, da amizade enquanto relação intersubjetiva considerada num registo de qualidade diferente, ou seja, naquele que se desdobra na imprevisibilidade da alteridade e dos seus vínculos, designadamente tendo em conta os tempos de hoje marcados pela fragilidade e superficialidade das sociabilidades relacionais e comunicacionais. Independentemente do número de amigos - e como é bom os ter - é importante que estes nos preencham, nos façam crescer e nos ajudem a realizar esse projeto de sermos pessoas. E estes não são muitos e os outros não deixam, apesar disso, de continuar amigos. Embora, admitamo-lo, amigos certamente diferentes”.

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

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ATENÇÃO 2014 - O CAGAÇO CORROMPE

8396525_fNabaO poder político torna-se mais burilado quanto menos democrático e tanto menos democrático quanto mais o medo enlaça a liberdade das gentes. Esculpida assim a sociedade, por um medo sabiamente exortado e candidamente desvelado pela dúvida nela asilada, o apetite totalitário agita a bafienta e exaurida recompensa histórica. O povo abre mão da liberdade e aquele arbítrio feito poder, atento e ciente da inevitabilidade da sua progressiva ilicitude, garante em troca a sua experimentada e obscena segurança. Os sinais vão-se hoje empilhando, e por essa razão densificada, convém espertar as gentes para a natureza não separativa mas dialética da relação. Sim, o povo quer segurança mas uma Segurança estribada no exercício da Liberdade e no respeito pela Democracia e pela Constituição que a regula. Acagaçados, nem de joelhos e de mãos em prece nos sobrará a dignidade de existir.

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

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A ALMA DAS RUAS SÓ É INTEIRAMENTE SENSÍVEL A HORAS TARDIAS

(O título é uma citação da autoria de João do Rio)

 

NoitesBrancas-3Uma cultura faz-se enlaçando significados, atitudes e valores e consolida-se através de simbolismos próprios, de acordo com as gentes, os lugares e as suas singularidades. Porém, a compreensão dos subentendidos, constituindo uma forma privilegiada de nela adentrar, apela a olhares atentos e distendidos, ao mesmo tempo que nos aproxima de diversas e inusitadas reciprocidades. Deste modo, o Bairro Alto, esculpido no meu imaginário pela ideia de uma certa boémia, feita de vizinhança entre fado, prostituição e marginalidade e enobrecida pela tertuliana convivência de jornalistas e intelectuais, apresentou-se-me, ao tempo, como um espesso lugar envolvente, marcado por uma estranha e sibilina comunicação. A riqueza dos seus signos e a diversidade dos seus usos, nesta paisagem matizada, explicam porventura essa misteriosa vinculação que em mim se instalou entre realidade e fantasia, em que uma e outra, conflituando, mútua e cumplicemente se deixaram arrastar. O 25 de Abril, entre outras essencialidades, libertou-nos dos rigores espirituais da moralidade cristã e complicou-nos a vida educada e disciplinada do lazer. A liberdade de recriar novas representações da noite, distante da conceção do pecado e do maniqueísmo da tradição católica, tem necessariamente o seu preço, a que esse tempo privilegiado de busca de novas ordens públicas e morais – felizmente – não escapou.

Lembrar o Bairro Alto é, por tudo isto, dar vida às memórias, é reviver experiências que me ajudaram a crescer. Que, sobretudo, me ajudaram a ser. À noite, devaneei pelas suas estreitas ruas, tocando existências que, até ao momento, me ficavam bem distantes. Intuindo, com estranheza mas com agilizada liberdade, vivi esse tempo inventando sentidos, seduzido pela escuta arrebatada do sentir humano que na noite descobre o lado autêntico da sua alma. Com redobrado contentamento, descortinei que o Bairro Alto era uma realidade feita de raias incertas e animada por múltiplas e diferentes representações que, dando-lhe vida, prosseguiam a sua imaginária e sedutora identidade. Todavia, o seu denso espaço público não passou de uma vernácula superfície onde me ocupei a rabiscar textos, alguns bem necessários, de valiosa significação pessoal. As errâncias por caminhos não previstos alargaram-me o campo das apreensões e deram uma outra solidez aos valores que me são caros. Com a vantagem de ter sentido o latejar de vidas silenciadas, estes valores floresceram no chão íntimo da compreensão próxima do outro, do diferente e do socialmente diverso. Um tempo de andarilho que me proporcionou fazer do conflito entranhado uma poderosa razão para vencer, pela inteligência e pela sensibilidade, agitações impróprias provocadas por estranhas e insuportáveis ordens. Foi neste seu desafio dialético que a transparência da materialidade dos valores se insurgiu contra essa distante arte de bem persuadir a que se chama retórica, uma espécie, afinal, de oração que rarefaz a seu jeito a realidade – humana, social e cultural – que diz cuidar. Isso mesmo, um cuidar a seu jeito.

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sábado, 23 de novembro de 2013

NOVOS TEMPOS

À Guilhermina, ao João Fernandes e ao Mário Rui que comigo viajam nesta incursão ao mundo novo do remanso …

Encontro_Aposentados_LogoO tempo do calendário não anuvia a dimensão humana do tempo. À regularidade de um opõe-se o descompasso do outro. O primeiro mede-se, o segundo faz-se consciência sem tempo. Aquele regista as datas das nossas estórias, este refaz as nossas memórias e propicia a invenção de diferentes tempos. No essencial, vale este que se torna o tempo que (para nós) realmente conta. A despeito do sobressalto do agora, este tempo que conta cria no presente as possíveis rotas naquele outro que lhe advirá. Agraciemos então a vida com a energia do vivido, recusando o rumor monótono da clausura do tempo ritmado pelo tiquetaquear do relógio.

O presente não tem começo nem termo precisos malgrado a finitude de um agora que acontece. Mas o presente, no desalinho do horizonte do tempo imediato, permanece sempre inteiro, embora caprichoso. No seu gesto contínuo de (re)viver e de (re)significar, espera-se dele que faça do futuro um amável tempo presente. Com esperança mas sem resignadas esperas que nos tornem cativos do que vai acontecendo. Há sempre algo a desejar e a esperar da vida e do futuro. Ambicionando, nutre-se energia e desta extrai-se vitalidade. Na intimidade da esperança e dos desejos saberemos, com certeza, desvendar e reavivar estimulantes extensões das nossas vidas. Com a alegria de viver será tudo mais fácil. Não obstante a inurbanidade de muitos, o tempo futuro também nos pertence.

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segunda-feira, 18 de março de 2013

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SE DEUS NÃO EXISTE, EXISTEM OS MERCADOS

25-abril-cravoSe Deus não existe, a ordem sem deus abre-se a outros poderes e superioridades. Os humanos, sem engenho e querer próprios, não podem ser abandonados aos seus medos. Novos e bondosos protetores despertam. Vão-se os sacerdotes e, nos seus púlpitos, afloram os prelados de um outro templo. Do sagrado lugar dos mercados. Contudo, para estes, os números traçam fronteiras evangélicas demasiado estreitas. Como tal, não as observam. Vão e querem ir mais longe na pregação. Dizem como deve ser, incriminam os que mal agiram e forçam os crentes do costume a fazer bem e já. Desentulham o lixo da política e medram pelos roteiros da ética. Nós, receosos de desacertar, tornamos os nossos medos ainda mais fundos. Saciamos encolhidos a nossa dependência e, sobretudo, a necessidade certa de a ela nos sujeitarmos. Sem inteligência e vontade. À espera do milagre. Como sempre, assentados na laje execrável da conformação.

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domingo, 10 de março de 2013

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FALAS BEM MAS NÃO ME ENFEITIÇAS

coutinhoAdmito a minha incomplacência mas João Pereira Coutinho causa-me enfado ideológico e, por epidérmica irritação, põe-me em constante pele de galinha. Porém, como não há lugar público onde não se esbarre, logo de manhã, com o afamado jornaleco correio-das-desgraças, acabo por tomar o meu café matinal na companhia do maldizente que aparenta ser menino bem, talvez queque ou simplesmente um betinho petulante de aspeto indomesticável. Lembrando-me do texto “Fidalgos, Queques e Betinhos” de Miguel Esteves Cardoso, a insolência do colunista faz-me ver nele uma espécie de betinho douto que tudo faz para ocultar a sua proximidade genealógica ao vulgacho, tratando mal aqueles que considera inferiores (demasiado mal) e bem aqueles que considera superiores (demasiado bem). Provavelmente estou errado mas, com toda a franqueza, em tempo algum me darei à canseira de o colocar na gaveta certa. Mais do que me certificar da circunstância da descendência ou do seu meritório percurso interessa-me, aqui e agora, reagir à sua frenética sobranceria.

Decidiu Coutinho escrevinhar, insurgindo-se, sobre o pornográfico cortejo de elogios ao caudilho a quem mima de Santo Chavez. O que ele acha sobre o Santo - as esmolas ao indigenato, a sua indocilidade bolivariana e o seu autoritarismo desqualificante – é o contrário do que muitos outros pensam de Chavez. Assim, onde Coutinho enxerga um santo malfeitor, outros reconhecem um virtuoso revolucionário. No entanto, o que me parece singularmente estrábico é o seu sábio desfecho. O santo malfeitor, afinal, constitui o típico exemplo de alguém que usa a democracia para subverter a democracia e que, por essa razão, convém não transformar em santo quem de santo tinha nada. Para quem não sabe, Coutinho habita um paraíso imune às pervertidas traficâncias do capital financeiro. Resfolga numa edénica democracia inabordável às devassas negociatas de ganhos a qualquer preço. Feliz, estima os seus governantes que prezam o prometido e enobrecem a democracia. No fundo, Coutinho vive remansado num lugar aprazível onde os recursos públicos não resgatam bancos, os responsáveis pelo colapso estão presos e o jogo sujo das hipotecas e dos incumprimentos é fortemente reprimido. O Coutinho é um menino afortunado. Goza de uma excelsa e sublime democracia. ORA VEJAM...

 

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Vídeo sugerido por CORRENTES


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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

UM SILÊNCIO MALSOFRIDO

u136-Manos_dibujandoNeste período de solicitações desusuais, a liberdade desconjuntou-se por entre missões próprias da época e algumas escritas para outros endereços. Daí, este silêncio malsofrido para com este meu parceiro do grito argumentado. No entanto, duas daquelas escritas, colocá-las-ei aqui depois de publicadas na “ESCOLA/informação”, revista do SPGL (Sindicato dos Professores da Grande Lisboa).

A primeira das escritas termina assim; “ …O politicamente conveniente não é, nem poderia ser, um lugar rumoroso. Ele nada anuncia e a discrição é o seu poderoso disfarce. Habita (por isso), na excelência do silêncio, os lugarejos onde se engenha o domínio e a acomodação das verdades e dos saberes úteis. Verdades e saberes que obedecem a vontades de poderes combinados, embora nem sempre amigáveis, que dão forma e traçam os roteiros, beatos e amáveis, donde irrompe o dizível. A insurgência tem uma outra vontade, provavelmente avessa, não desconhecendo que os poderes renascem sempre e que sempre reagem onde a liberdade espreita. Assim sendo, a militância da insurgência regressa, igualmente sempre, ao prólogo de um texto que o legitima acreditando que o texto que sucede seja distinto, naturalmente para melhor”.

A segunda, num outro registo; “Finalizando, estou certo que aqueles adultos apreenderam que a identidade é uma invenção contínua que se tece com material não inventado. Por isso, compreenderam também que a identidade não é um dado mas um processo pelo qual as bases da socialização são trabalhadas e ativadas, incluindo as mais sólidas. Se assim é, como admito que seja, pensar a educação e a formação, nomeadamente de adultos com menor escolarização (mas não só), não pode nem deve dispensar este delicado mas necessário trabalho identitário. Ao menos, uma maior atenção e uma mais eficiente consideração por ele, uma vez que (a sugerida e enaltecida) educação permanente e emancipadora não deixa de por aqui passar. Na verdade, nascimento não é destino mas tão só um começo”.

Assim sendo, e depois desta justificativa, um “até breve” e – já agora – façam (o que está ao vosso alcance) por merecer um tempo mais respeitoso em 2013.

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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

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O MELHOR POVO DO MUNDO OU O DESAZO SONSO DO MINISTRO

 

Passos_Vitor - CópiaO melhor povo do mundo, de facto, aguenta o insustentável. Não só a pobreza, os escassos proventos, a míngua presente ou o horizonte iminente do irremissível desespero. Suporta - e isso é dor infinda - a combinada agiotagem na sua labuta diária sem outro resultado que o de dar serventia ao mando dos poderosos. Nesta cruciante narrativa, esmola-se um necessitado e serviçal trabalho onde a vida se desaprende na sua iniludível devassidão. Amarga-se prolongadamente, no recato da privança, as arengas farsantes forjadas na mesmidade sempre atualizada da perfídia política descabelada. Desses sicários poderes enclausurados na sua arrogância obstinada em durar, imperando.

Sem a robustez de uma expressão em comum partilhada, as palavras desamparadas do sofrimento, mesmo que zangadas, não concedem a essencial rijeza aos caboucos necessários mas provavelmente ainda inensaiados de outros possíveis coletivos. Não chega fazer diferente, importa escavar e laborar a qualidade da diferença. Interessa revolucionar (não para ser o melhor povo do mundo, mas) para ser apenas e tão-só gente responsável, dialogante e imaginativa. No essencial, gente que saiba fazer da humanidade de que é mensageira, um povo cultivador de uma outra destinação, um povo que saiba fundar um outro devir aonde a iniquidade incomode verdadeiramente e de modo consequente.

Não quero, por isso, fazer parte da ficção “vitoriana” dos melhores. Chega-me estar ao lado da vigilância crítica, do fundamento sério e do esclarecimento exato dos problemas. Na busca ativa de outros caminhos e percursos onde a emancipação autêntica, humana e social, não se deixe submeter ao jugo da inanidade. Nesta linha de pensamento político, o sentido de responsabilidade é claramente constitutivo e definidor, designadamente no que às competências de quem nos governa diz respeito. Assim sendo, reitero e acresço; o sonso do Ministro abusou de idiotice e a resposta unissonante e conveniente das divergências …vai (re)tardando.

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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

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OS DEUSES JÁ SE FORAM

 

auguste-rodin-iris-e28093-mensageira-dos-deuses-1895Nos momentos em que sentimos a necessidade de alcançar o passado predispomo-nos natural e candidamente à cultura misteriosa do sensível. A descoberta de impressões, que se protegem atrás das memórias desencarnadas pela persistência das narrativas repisadas, funda uma singular devassa ao mundo dos segredos guardados que silenciosamente em nós repousam. Revolver o íntimo sem receio do que se resguarda nas profundezas dos nossos corações é recriar um melancólico regresso ao tempo em que os nossos pais eram deuses e as suas verdades nos davam em absoluto um sentido protegido do mundo.

Era o tempo que pouco se desvendava em dissentimento ao muito que se amestrava graças às certezas altivas dos pais e dos avós, bem escoltados pela férula temerosa dos professores e pelas reprimendas celestiais dos padres e dos seus indiferenciados mas indefetíveis embaixadores. Família, Escola e Igreja conluiavam e acertavam através de uma moral comum uma invenção severa do Bem e do Mal. Deste modo, na intimidade desta ordem estabelecida, a singularidade possível diferia-se para mais tarde, para um outro tempo de maturação e de fúria que em harmonia educavam o orgulho e a liberdade da sua rebeldia.

Inevitavelmente crescemos, por vezes revoltos sem saber bem com quem e por quê. Apenas nos fomos (e vamos) apercebendo que os pais parecem cada vez mais pequenos até se tornarem iguais a tantos outros pais. Os professores tornaram-se (ou tornam-se aos nossos olhos e à medida que o tempo passa) simples e dóceis pessoas e os padres – esses - figuras vulgares ou até protagonistas injustificados. Começou (ou começa então) a viagem das aventuras e das peripécias que fizeram (ou fazem) a experiência incomum e indefinida da nossa liberdade e responsabilidade. Voltando muito atrás ou mesmo recomeçando quase de novo, perto do nada e, seguramente, na companhia da nossa forçosa mas vital solidão.

Os argumentos frios e precisos da razão disputaram (ou disputam) assim com as imagens e as emoções a construção de nós mesmos no manente juízo do apreço em que nos tínhamos (ou temos). O tempo mudou e não pára de mudar e com ele todos nós vamos mudando. De lugares, do sentido que atribuímos a esses lugares e, sobretudo, das emoções que acompanham esses movimentos de mudança. Entregues a nós próprios e à nossa liberdade sentimo-nos sempre na necessidade de encontrar uma ciência particular para moderar as emoções libertadoras que nos incitam a ser nesses cursos de transformação. No entanto, sem pressas de identificações favoráveis a subordinações acomodadas de superfície. A reinvenção de nós próprios, seja ela qual for, não dispensa uma bússola feita de uma engenharia capaz de congraçar as lógicas da reflexão e da identidade. No essencial, tendo por projeto de assim podermos humanamente evitar delegar nos outros o completo encargo de esclarecer a nossa própria existência.

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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O FUTURO E OS SEUS ABRIGOS

 

artisticas-4O sentimento de um mundo frenético faz com que o tempo escasseie na tarefa demasiada humana de o entender. No desconhecimento sentido intolerável, reconhecemo-nos ameaçados mesmo sabendo que o tempo, esse tempo que parece faltar, é uma criação que nos transcende. Daí, o desamparo narcísico que nos enrola na demorada busca de calmas representações ou (ao invés) na angústia temerosa e bacenta das culpas indeclináveis.

Insatisfeitos e nostálgicos, despontamos o passado que se transfigura num confortável mas ilusório porto de abrigo. As memórias amigáveis de encantamentos experienciados (ou supostamente vividos) despertam assim, não futuros sabidamente improváveis, mas apenas movimentos ondulados e errantes de fugas e procuras que indefinidamente se equivocam. Desse desacerto, germinam as múltiplas e diversas especulações que buscam as leituras de uma realidade que teimosamente nos escapa.

Disputam-se assim racionalidades, propõem-se outros olhares e produzem-se diferentes realidades. Do mítico ao científico, do religioso ao político, as teorias veiculam distintas possibilidades e sugerem ordens que melhor prometem confortar as nossas angústias e acudir às nossas perplexidades. Aliciam-nos aquelas que nos parecem oferecer as representações mais tranquilizadoras, esquecendo-nos que a transferência é um investimento imaginário tornado mecanismo de defesa na procura apressada do conforto para o nosso desamparo.

Digo bem, uma procura apressada e, rigorosamente por isso, precipitada. É mais cómodo aceder a uma ordem supostamente universal e imutável, quiçá sagrada, do que acolher a possibilidade da realidade ser uma construção social e histórica, incontornável e intrinsecamente conflitual. É nesta conflitualidade (e numa perspetiva que admite a natureza fundadora da divergência) que o valor da transgressão se afirma, não só desafiando o saber e o poder instituídos como também construindo as vias para outras verdades eticamente necessárias que nos carreiam a diferentes mas necessários e mais solidários abrigos.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012

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A PORRA DA VELHICE

 

Um elogio a Helena Sacadura Cabral

transferirA “velhice” pode ser uma chateação possível mas as representações sociais que a escoltam fazem dela uma “porra certa” feita de irritações numerosas, algumas delas verdadeiramente sórdidas. O paternalismo desleal e falsamente protetor que a segue (a velhice), como tal, inspira as ditas representações, enjeita nos chamados “idosos” ou “idosas” (por antecipação) potencialidades de natureza diversa e, ao mesmo tempo, reforça o seu poder insistindo (por excesso e sem tino) no peso dos seus limites, das suas doenças ou da sua morte vaticinada.

O percurso lógico começa pelo invento de traços físicos identificadores capazes de marcar as gentes, de fundamentar as diferenças e de fixar os territórios. Deste jeito, geram-se abandonos e favorecem-se exclusões ou inventam-se negócios e criam-se acolhimentos. Em comum, oferecem-se não-lugares, uns formados de perdas inteiras, outros de privações essenciais. Anula-se a importância, golpeia-se a estima e ironiza-se a sexualidade. Propõe-se, no fundamental, em lume brando, uma morte ainda em vida.

Todavia, há sempre quem resista e, neste universo de oponentes, alguns ditos “velhos” ou “velhas” desviantes feitos(as) de tremendas descrenças e enérgicas teimosias. Ao longo da vida, estes(as) instruíram-se (naturalmente) na deserção a muitas normas instituídas e às bondades das categorias em que aquelas sempre os(as) aliciaram e hoje, caprichosamente, julgam ter chegado o tempo certo de os(as) capturar. No entanto, os(as) resistentes aprenderam, como sempre, por manha, habilidade ou inteligência, a navegar em contracorrente nas enxurradas dos binários da simplificação e da classificação com que se formatam as vidas e as existências de muitos(as) e azarados(as) imprevidentes.

Fora assim do enxurro, os(as) desviantes avistam o excêntrico de margens imprecisas e tropeçam em horizontes provavelmente mais salubres e reavivados de possibilidades. Para eles(as), as evidências deixam de o ser na perplexidade que alcançam e no pensamento que os(as) inquieta no estímulo dos progressivos e contínuos achados. Descobrem então que a vida que buscam não está do outro lado da norma mas sim numa reinvenção que rejeita a facilidade da mera e simples oposição à norma. Eles(as) sabem, melhor que ninguém, que envelhecer … lá terá que ser. Contudo, não pelas categorias sociais que eles(as) percebem estranhas e que, pela sua estranheza, mais espontaneamente podem entranhar. Decidem, assim, não murchar antes do tempo, de um tempo que a cada um deles(as) pertence e que a cada um(a) definitivamente cumpre viver.

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quinta-feira, 26 de abril de 2012

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A NEUROSE DA (IR)RESPONSABILIDADE

 

Miguel-Velasco-NeurosisA convocação constante e pomposa do sentido de responsabilidade merece-me uma incessante vigilância crítica que, com o amealhar dos anos e a senescência por longe (felizmente), se desenvolveu ao extremo da teimosia e não, é pena, no seu refinamento apetecível. No entanto, confesso que saber de onde irrompe esse deslizante apelo, desde logo, desperta em mim o interesse (adormecido e preguiçado pela impreparação) de compreender o fenómeno. Saber quem é o responsável, aplicado e generoso, motivado pelo meu comportamento ou desempenho responsável faz-me (talvez) mais esperto e, sobretudo, por que dependente da minha vontade, obstinadamente diligente nesse intento solitário de espiagem.

Saber se esse responsável é um mero serviçal de um osco poder ou vive em concubinagem com uma qualquer estranha moral, não é obviamente um saber despiciendo. Neste particular, a experiência sovada pouco me ensinou pois a vida (por si) nada ensina. No entanto, à força de tanta sovadura eu tive que aprender com ela e não aguardar que ela se prestasse a ensinar-me alguma coisa. Deste modo, aprendi a aprender (passe o modismo), fazendo das tareias o conteúdo necessário deste meu saber vivencial. Aprendi que me tornava (aos meus próprios olhos), ao anuir a esses poderes embuçados e ao acatar os desvarios dos dispersos concubinários, um responsável lerdaço e inútil, desconfortado em crescendo com as lisonjas de todos aqueles outros.

Há responsabilidades que se acolhem por que se celebram comprometimentos e dependências, supostamente no exercício de uma liberdade essencial e de uma consciência sentida como plena. Responsabilidade e liberdade fazem-se (assim) relação de inteligibilidade potenciadora de valor nesta fatal disputa de ajuizar condutas e audácias. Atente-se (porém) que liberdade essencial não significa, por uma qualquer vontade conveniente, fácil repudiação ou remoção de embaraços, como também não se mostra em meras espontaneidades de quereres que se bastam a si próprios. Igualmente ainda, em abono da provocação, diga-se que a liberdade de que falo como essencial não é essa liberdade dirigida que por aí perambula e que gentil e generosamente oferece escolhas não-determinadas por quem as elege.

Liberdade essencial significa estar livre para a acareação consigo (fundamentalmente), com o mundo (desejavelmente) e com as suas múltiplas e diversas exigências (necessariamente), reconhecendo em si (como sujeito individual ou coletivo) os poderes de constituir e de destinar e (assim) inventar as soluções necessárias aos desafios, próprios e dos outros, que o enredo da vida vai inevitavelmente entrelaçando. A responsabilização (como ato que se sucede no tempo) apela a um sentido de responsabilidade que, pela sua natureza educável e pela sua função de orientação e de rumo, apresenta como referente e essência o sentido forte, influente e decisivo do que é humano e se presta à humanidade. A responsabilidade de avançar nesta aventura nossa, que é de todos, dispensa disfunções que esvaziam essa referência e a sua essencialidade.

IMAGEM RETIRADA DAQUI

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terça-feira, 24 de abril de 2012

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A POBREZA ENVERGONHADA

 

feminis_lang_migr_mothr_lg[1]A vergonha anuncia-se nos temores da desonra, nas incertezas do ridículo, na apercepção do comportamento inconveniente, na sensação da perda da dignidade, na consciência da humilhação ou na convicção do aviltamento. Na pluralidade de interpretações, uma qualquer nota da pobreza refreada inspira (assim) a prova da significação que cuide do sentido que a vergonha cala.

O que reprime afinal o encobrimento da vergonha? O que tem em mente aquele que faz do fingimento necessidade? Que racionalidade íntima funda essa escolha que à experiência sofrida junta a sequidão do isolamento? O que nos clama aquele (fingido) silêncio impassível na sua forte presença e viva coexistência? Que acessibilidades descobrimos para nos escoltar e levar à crível compreensão desse grito que mima suplicando calado?

Tematizar a vergonha que na pobreza radica, torna-se (no desenho destas interrogações) uma sondagem muito singular e delicada mas irremediavelmente condenada à inquietação da imperfeição do que é inconcluso. A obscureza da sua razão (no entanto, fundante e orientadora) coloca, como condição ao seu entendimento, o conhecimento das totalidades e das circunstâncias em que o humano se inscreve e nas quais ele se determina.

Assim sendo, a razão que aqui se submete ao entendimento não decorre do domínio da lógica mas sim (e sobretudo) do contexto vivencial no qual ela – essa razão – se plasma e alcança sentido. A dignidade, sendo um valor que a linguagem (por insuficiência) não permite esclarecer em absoluto, traz consigo uma pessoalidade que a devolve irredutível aos seus exercícios de compreensão. A pobreza não é, no essencial, o que se vê e está próximo. Está em outro lugar, alguns bem distantes, naturalmente escondido na transcendência do indizível que a cada um pertence.

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terça-feira, 17 de abril de 2012

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UNIDADE E SENTIDO DE RESPONSABILIDADE – AS ELEIÇÕES NO SPGL

 

spgl_2[7]

A 31 de Maio vamos ter eleições no SPGL. Alguns anos afastado de responsabilidades sindicais, as memórias despontam e o desassossego que daí advém convoca a historicidade de uma reflexão própria que (ao avivar conflitos) se torna necessariamente dolorosa. Uma narrativa que atinja a vida, sobretudo a pretérita, não deixa de ser uma produção permanentemente atualizada de uma construção progressiva de si. Memória e reflexividade, na sua relação penetrante e movente, arrastam consigo a inevitabilidade do (des)conforto das fidelidades, das recusas e das reconciliações.

É neste quadro que tem importância acrescida sublinhar o papel do sindicalismo no seu caminhar social e histórico, designadamente tendo presente o atual contexto de desmarcadas preponderâncias dos poderes económicos e financeiros no gozo de uma usurpação bastarda do político. Mais do que o papel, diria que a missão do sindicalismo deve prosseguir declarando-se ainda mais exigente, firme e robusta. Assim sendo, não posso deixar de concluir que importa unir forças, vontades e, sobretudo, responsabilidades neste tempo de dramática asseveração de um neoliberalismo impassível, que consigo roja modos de socialização e de contradições múltiplas com expressão em profundas desigualdades e em manifestos desequilíbrios.

Ao mundo laboral (pela centralidade humana e social que o trabalho toma sobre si) os sindicatos não podem igualmente deixar, neste momento histórico, de alargar intervenções e participações encorpando movimentos sociais mais amplos (fazendo deles parte) e com eles partilhar o aprofundamento da democracia e da sua verdade. Mobilizar e implicar para ganhar a vida não é (de todo) tarefa fácil. No entanto, bem mais complexo será, com toda a certeza, envolver e comprometer as pessoas na transformação social que consinta mudar de vida. Sem esta referência, diria que o chamado sindicalismo propositivo navega em águas turvas (por outros) agitadas. A experiência adverte, com alguma ironia amarga, que a unidade transita por aqui e não por meras lógicas e operações aritméticas de arranjos circunstanciais de lugares ou de poderes.

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sábado, 14 de abril de 2012

segunda-feira, 9 de abril de 2012

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UM DESABAFO

 

(8 de Abril de 2012)

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A possibilidade de nos confrontarmos com desconcertos de significação nas nossas vidas é naturalmente elevada. Para uns ainda bem, para outros nem por isso. Os primeiros encontram nela oportunidades, os segundos ameaças e inseguranças. Para estes, essas dissonâncias revelam-se estranhas, por vezes enigmáticas quando não hostis. A urgência de defesa convoca de imediato o enquistamento de posições. A abertura dá lugar ao autismo e este ao divórcio com a realidade e com a reflexividade que nela nos faz situar. A irritação germina então no vazio criado e os diabos à volta florescem (como por bruxaria) neste caldo emocional. A vida sobrevive assim por meio de uma repetição de imagens iguais que se desdobram sem fim. Em nome de uma liberdade celebrada dela arrepiamos caminho incapazes de nos reinventarmos. Insensatamente.

 

Imagem retirada DAQUI

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quarta-feira, 4 de abril de 2012

A ÁGUA É DE TODOS

 

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Como diria, Mário de Carvalho, aí estão os "filhos-família, patos-bravos e videirinhos que (no regresso traziam já) a reserva mental de dar cabo da revolução logo que possível", a soldo da coronhada de Merkel e Sarkozy e outros quejandos.

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