terça-feira, 24 de abril de 2012

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A POBREZA ENVERGONHADA

 

feminis_lang_migr_mothr_lg[1]A vergonha anuncia-se nos temores da desonra, nas incertezas do ridículo, na apercepção do comportamento inconveniente, na sensação da perda da dignidade, na consciência da humilhação ou na convicção do aviltamento. Na pluralidade de interpretações, uma qualquer nota da pobreza refreada inspira (assim) a prova da significação que cuide do sentido que a vergonha cala.

O que reprime afinal o encobrimento da vergonha? O que tem em mente aquele que faz do fingimento necessidade? Que racionalidade íntima funda essa escolha que à experiência sofrida junta a sequidão do isolamento? O que nos clama aquele (fingido) silêncio impassível na sua forte presença e viva coexistência? Que acessibilidades descobrimos para nos escoltar e levar à crível compreensão desse grito que mima suplicando calado?

Tematizar a vergonha que na pobreza radica, torna-se (no desenho destas interrogações) uma sondagem muito singular e delicada mas irremediavelmente condenada à inquietação da imperfeição do que é inconcluso. A obscureza da sua razão (no entanto, fundante e orientadora) coloca, como condição ao seu entendimento, o conhecimento das totalidades e das circunstâncias em que o humano se inscreve e nas quais ele se determina.

Assim sendo, a razão que aqui se submete ao entendimento não decorre do domínio da lógica mas sim (e sobretudo) do contexto vivencial no qual ela – essa razão – se plasma e alcança sentido. A dignidade, sendo um valor que a linguagem (por insuficiência) não permite esclarecer em absoluto, traz consigo uma pessoalidade que a devolve irredutível aos seus exercícios de compreensão. A pobreza não é, no essencial, o que se vê e está próximo. Está em outro lugar, alguns bem distantes, naturalmente escondido na transcendência do indizível que a cada um pertence.

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sábado, 21 de abril de 2012

O DESTINO DO FUTURO

 

71233632_c14e63ba5aA resignação, tida paciência tola de conformação, maça-me em absoluto. Confesso o cansaço dessa absurda licenciosidade retesada no regaço insensível de um qualquer destino aceite, supostamente reservado. Parece-me (ante ela) escutar uma espécie triste de fado sem voz nem passado, desapaixonado pelo presente e descrente no futuro. Enclausurada assim (nessa infausta musicalidade) ouve-se a imaginação do porvir ao longe e percebe-se uma eventualidade muito remota. Uma lonjura lânguida produzida de desesperanças que atrai, pela fadiga,  o hábito das saudades ociosas sem materialidade nem historicidade. A circunstância deste modo desenraizada, no vazio de horizontes dissipados no infinito, desperta (pois sim) peregrinações sem destino, santos e lugares. Liquefaz-se o tempo (que se vive) nesse outro tempo futuro afigurado longínquo e que se teima em não o encurtar para o poder viver … já. O futuro que, afinal, já ontem devia ter começado.

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

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O TRISTE ENLEIO DOS DIREITOS

 

Capa Diabo 1810[3]A utopia é anúncio e sinal de vida. Abraçado à utopia (imaginada e imaginável) experiencia-se um inefável apreço pela vida. Porventura busca-se um não-lugar, provavelmente quimérico, feito de margens múltiplas que torna mais perto aquele lugar longínquo. No desprazer do outro (do lugar habitado) prospera assim o devaneio fatal de uma desejada proximidade ao tal não-lugar da vida, reinventando-se (de modo obstinado) as veredas de profundas e fundadas recusas.

Nesta incessante e infindável procura descobre-se os caminhos da cidadania e sulcam-se os percursos da moral necessária. A negação de espúrios privilégios convoca o exercício sadio dessa cidadania e faz esta tomar a estrada socialmente salubre dos direitos. Mais e melhor cidadania é fazer da riqueza um meio transparente de coesão social, restituindo à liberdade a responsabilidade que nela se inscreve. O dano social dos privilégios é bem mais penoso para todos do que os dinheiros usurpados que eles custam. Adoece a sociedade e corrompe a democracia. Não há volta a dar…

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terça-feira, 17 de abril de 2012

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UNIDADE E SENTIDO DE RESPONSABILIDADE – AS ELEIÇÕES NO SPGL

 

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A 31 de Maio vamos ter eleições no SPGL. Alguns anos afastado de responsabilidades sindicais, as memórias despontam e o desassossego que daí advém convoca a historicidade de uma reflexão própria que (ao avivar conflitos) se torna necessariamente dolorosa. Uma narrativa que atinja a vida, sobretudo a pretérita, não deixa de ser uma produção permanentemente atualizada de uma construção progressiva de si. Memória e reflexividade, na sua relação penetrante e movente, arrastam consigo a inevitabilidade do (des)conforto das fidelidades, das recusas e das reconciliações.

É neste quadro que tem importância acrescida sublinhar o papel do sindicalismo no seu caminhar social e histórico, designadamente tendo presente o atual contexto de desmarcadas preponderâncias dos poderes económicos e financeiros no gozo de uma usurpação bastarda do político. Mais do que o papel, diria que a missão do sindicalismo deve prosseguir declarando-se ainda mais exigente, firme e robusta. Assim sendo, não posso deixar de concluir que importa unir forças, vontades e, sobretudo, responsabilidades neste tempo de dramática asseveração de um neoliberalismo impassível, que consigo roja modos de socialização e de contradições múltiplas com expressão em profundas desigualdades e em manifestos desequilíbrios.

Ao mundo laboral (pela centralidade humana e social que o trabalho toma sobre si) os sindicatos não podem igualmente deixar, neste momento histórico, de alargar intervenções e participações encorpando movimentos sociais mais amplos (fazendo deles parte) e com eles partilhar o aprofundamento da democracia e da sua verdade. Mobilizar e implicar para ganhar a vida não é (de todo) tarefa fácil. No entanto, bem mais complexo será, com toda a certeza, envolver e comprometer as pessoas na transformação social que consinta mudar de vida. Sem esta referência, diria que o chamado sindicalismo propositivo navega em águas turvas (por outros) agitadas. A experiência adverte, com alguma ironia amarga, que a unidade transita por aqui e não por meras lógicas e operações aritméticas de arranjos circunstanciais de lugares ou de poderes.

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sábado, 14 de abril de 2012

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ARREPIAR CAMINHO SEM DEMORA

 
Caminho tortuoso
Pensar o que se pensa e faz (ou talvez o que não se pensa e não se faz, real e objetivamente) não prescinde (por muito que se queira) da viveza da dialética. Ao trabalhar-se a plasticidade dos limites com o propósito da sua superação, ao dar-se apreço à necessidade pelo valor que nesta se inscreve e, mais ainda, ao aditar-se finalidade à existência (que sendo sempre de alguém não dispensa os demais), cria-se mundo a um mundo que, insuficiente e distorcido, merece ser transformado para melhor. Afinal, a subjetividade não deixa de ser ao mesmo tempo limite e superação, necessidade e valor e, inelutavelmente, existência e finalidade.
 
A ética da responsabilidade (a todo o momento) previne para a inevitabilidade desta objetivação dialética e adverte também para o incumprimento (desconfortante) das obrigações próprias de cada um, do qual o quase todos se alimenta. Neste contexto e no quadro desta penetrante crise, apetece dizer que não chega hoje (talvez mais do que no passado) lutar por ganhar a vida mas, mais fundo ainda, importa o empenho firme em mudar de vida. Capturados pelo atavismo economicista (através dos seus pérfidos preconceitos) aldrabam-se os limites, alienam-se as necessidades e atraiçoam-se finalidades. A penosa evidência dos resultados é a vida que não se ganha e, sobretudo, a vida que não se alcança. O imerecido sofrimento silenciado (ou melhor, institucionalizado e mediatizado) não merece o respeito do dever e do exercício de cidadania. Dê-se assim voz (e uma consciência ativa) a este silêncio feito de um conformismo ingénuo e tolo mas deveras insalubre.
 
 
 
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terça-feira, 10 de abril de 2012

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Os riscos do PC

 

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Segundo o Expresso, Passos Coelho (PC) em reunião com grupo parlamentar do seu partido (a 29 de Março) reconheceu em privado o que não admite em público; a forte probabilidade de elevado risco social. Uma constatação apenas:

 

  A solicitação feita aos seus deputados para que reforçassem a vigilância sobre as suas gentes e lhe dessem notícia (atempada) de toda e qualquer ocorrência que pudesse vir a perturbar o sossego (superficial que fosse) da ordem.

Como parece ser evidente, o propósito lógico e consequente é o de atalhar a tempo qualquer possível foco de alvoroço e, sobretudo, evitar recorrer às desmedidas ações policiais como prova pública e mediática de desgoverno. É sabido que manter a ordem é politicamente mais acertado, sensato e eficiente do que ter de a repor. No entanto, a constatação e a evidência que aqui se apresentam não são trejeitos de má vontade mas (e tão-só) expressão de olhares diferentes e de semânticas distintas.

Onde PC avista homogeneidades (o distrito como categoria de análise), muitos outros enxergam e sentem a transversalidade cada vez mais funda de assimetrias várias. Onde PC calcula riscos, muitos outros pressentem polícia e temem sovas. Onde estes encontram e vivem dramas sociais (e não apenas riscos), o PC fantasia inevitabilidades. Como risco significa perigo, poder-se-á concluir que cada qual risca à sua maneira os perigos que pressagiam. Assim sendo, a dúvida persiste; será que a vigilância requestada por PC aos seus correligiosos vai estancar o aumento progressivo dos riscados? Não acham que este poderá ser um critério aferidor?

Nota: PC significa Passos Coelho e não Pinto da Costa ou qualquer outra denominação.

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segunda-feira, 9 de abril de 2012

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UM DESABAFO

 

(8 de Abril de 2012)

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A possibilidade de nos confrontarmos com desconcertos de significação nas nossas vidas é naturalmente elevada. Para uns ainda bem, para outros nem por isso. Os primeiros encontram nela oportunidades, os segundos ameaças e inseguranças. Para estes, essas dissonâncias revelam-se estranhas, por vezes enigmáticas quando não hostis. A urgência de defesa convoca de imediato o enquistamento de posições. A abertura dá lugar ao autismo e este ao divórcio com a realidade e com a reflexividade que nela nos faz situar. A irritação germina então no vazio criado e os diabos à volta florescem (como por bruxaria) neste caldo emocional. A vida sobrevive assim por meio de uma repetição de imagens iguais que se desdobram sem fim. Em nome de uma liberdade celebrada dela arrepiamos caminho incapazes de nos reinventarmos. Insensatamente.

 

Imagem retirada DAQUI

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sábado, 7 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

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QUANDO A IMAGINAÇÃO DO SUBTERFÚGIO AFROUXA

 

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Os sentimentos realizam em nós múltiplas e insondáveis funcionalidades. Orientam olhares e incitam-nos (sobretudo) a relações preferenciais com os outros e com o mundo. Reclamam racionalidades que autorizam sentidos que dão ordem à vital necessidade do nosso conchego. Desvia-se (pois) o que se move em sentido inverso, voltando (por vezes) a afastar o que já se arredou vezes sem conta. A imaginação do subterfúgio cansada torna-se frouxa. A realidade aproveita e regressa mais corajosa e, para nosso revés, ainda mais teimosa. Aí, acordamos. Não de um sono mas de um sonho distorcido pela nossa pequenez. Afinal, o que parecia ser e gostaríamos persistentemente que fosse, em definitivo não é. Recomece-se…

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