quinta-feira, 10 de maio de 2012

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ADMITINDO AS DIFERENÇAS, TANTO FAZ NA PRAIA COMO NO RVCC…

 

HORIZONTESO processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) iniciou-se em 2012 num contexto social e laboral significativamente diferente do atual, reportando em particular à taxa de desemprego de cerca 5% da altura em confronto com a sua análoga recente que se cifra hoje num valor superior a 15%. Ao convocar o olhar para estes dados pretende-se cotejar realidades e, dessa acareação, tornar mais claro o interesse que as perceções das condições de mercado apresentam enquanto fator condicionante de projetos que, pelo facto de o serem, presumem uma óbvia antecipação incessantemente idealizada.

Sempre considerei (e expresso-o aqui de um modo conscientemente simplificado) que o mérito maior do RVCC não se encerra na certificação em si mas nas múltiplas e diversas agitações que a experiência formadora (inerente ao processo) poderia (e deveria) germinar, designadamente tendo em conta a curta escolaridade da generalidade dos adultos e tudo quanto nesta condição, por conformação, se foi naturalmente incorporando. Se de início assim concebia o RVCC, ao fim destes dez anos de contacto intenso com o dispositivo, as pessoas e as suas realidades e anseios, sem receio de qualquer tipo de imprecaução, não posso deixar de ratificar (hoje) como certo esse meu pressentimento inaugural.

O adulto termina o RVCC sentindo-se com frequência (e manifestando-o por vezes de modo extasiado) uma pessoa diferente daquela que havia entrado. Em abono da verdade, outra coisa não seria de esperar, tendo mesmo em conta que muitos o iniciaram apenas com o manifesto propósito da certificação. Todavia, esclareça-se desde já que esta constatação não retira qualquer legitimidade ao intento, bem pelo contrário pelo que a seguir se procura atestar. Assim, e no desenvolvimento desta confirmação, direi que conhecer o que leva o adulto (após o processo) de diferente consigo é que interessa indagar e aclarar pela sua relevância futura. No entanto, cedendo esta empreitada para outros fôlegos, ousaria afirmar a suspeita de que as fronteiras da ambição dos adultos se foram estendendo gradativamente na justa proporção das descobertas de si que em si habitavam adormecidas e desacreditadas.

Percursos, representações, projetos e investimentos no domínio da formação, compõem um entrelaçado de aspetos que, na sua conjugação gradualmente idealizada, arquitetam as realidades nas quais se inscrevem os rumos possíveis de intensas buscas educativas ou (tão-só) de diligências formativas mais ou menos urgentes. Assim sendo, é na elasticidade deste amplo quadro de expectativas e de possibilidades que se fazem então as motivações, se praticam as atitudes de conquista da obra formativa, se individualiza a perceção da utilidade das suas dinâmicas e se refina a consciência dos recursos para o conseguir. Fazer da formatividade uma estratégia obriga a um instituir que, não desobrigando as referências do passado, as revigora nos horizontes que se futuram. Daí, as mediações, os possíveis e, sobretudo, a importância da bondade das primeiras e da inspiração imprescindível dos últimos.

Chegar ao processo apoucado pela situação de desemprego e ter como horizonte a mesmidade acrescenta às dificuldades congénitas mas desafiantes do processo uma lassidão que atrapalha e perturba o entrelaçamento anteriormente referido. Tudo aparenta menos entusiasmante e, mormente, muito mais desengraçado ao viver-se nessa fronteira que soma angústia a uma esperança tristemente abalada. A racionalidade estreita-se e com ela a energia da reinvenção enfraquece. O peso do passado endurece identidades e sitia os adquiridos, sejam eles feitos de hábitos ou de convicções. O adulto, reconhecendo-se delimitado, escusa a alegria da liberdade no exercício de uma reflexividade que ele sente historicamente marcada e condicionada pela cruciante verdade alcunhada de “falta de emprego”. Pois é. Como se diz nestas circunstâncias, não basta estar numa praia edénica fazendo férias; importa andar animado e apreciar lá estar. Admitindo as diferenças, tanto faz na praia como no RVCC.

Imagem retirada daqui

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segunda-feira, 7 de maio de 2012

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A PORRA DA VELHICE

 

Um elogio a Helena Sacadura Cabral

transferirA “velhice” pode ser uma chateação possível mas as representações sociais que a escoltam fazem dela uma “porra certa” feita de irritações numerosas, algumas delas verdadeiramente sórdidas. O paternalismo desleal e falsamente protetor que a segue (a velhice), como tal, inspira as ditas representações, enjeita nos chamados “idosos” ou “idosas” (por antecipação) potencialidades de natureza diversa e, ao mesmo tempo, reforça o seu poder insistindo (por excesso e sem tino) no peso dos seus limites, das suas doenças ou da sua morte vaticinada.

O percurso lógico começa pelo invento de traços físicos identificadores capazes de marcar as gentes, de fundamentar as diferenças e de fixar os territórios. Deste jeito, geram-se abandonos e favorecem-se exclusões ou inventam-se negócios e criam-se acolhimentos. Em comum, oferecem-se não-lugares, uns formados de perdas inteiras, outros de privações essenciais. Anula-se a importância, golpeia-se a estima e ironiza-se a sexualidade. Propõe-se, no fundamental, em lume brando, uma morte ainda em vida.

Todavia, há sempre quem resista e, neste universo de oponentes, alguns ditos “velhos” ou “velhas” desviantes feitos(as) de tremendas descrenças e enérgicas teimosias. Ao longo da vida, estes(as) instruíram-se (naturalmente) na deserção a muitas normas instituídas e às bondades das categorias em que aquelas sempre os(as) aliciaram e hoje, caprichosamente, julgam ter chegado o tempo certo de os(as) capturar. No entanto, os(as) resistentes aprenderam, como sempre, por manha, habilidade ou inteligência, a navegar em contracorrente nas enxurradas dos binários da simplificação e da classificação com que se formatam as vidas e as existências de muitos(as) e azarados(as) imprevidentes.

Fora assim do enxurro, os(as) desviantes avistam o excêntrico de margens imprecisas e tropeçam em horizontes provavelmente mais salubres e reavivados de possibilidades. Para eles(as), as evidências deixam de o ser na perplexidade que alcançam e no pensamento que os(as) inquieta no estímulo dos progressivos e contínuos achados. Descobrem então que a vida que buscam não está do outro lado da norma mas sim numa reinvenção que rejeita a facilidade da mera e simples oposição à norma. Eles(as) sabem, melhor que ninguém, que envelhecer … lá terá que ser. Contudo, não pelas categorias sociais que eles(as) percebem estranhas e que, pela sua estranheza, mais espontaneamente podem entranhar. Decidem, assim, não murchar antes do tempo, de um tempo que a cada um deles(as) pertence e que a cada um(a) definitivamente cumpre viver.

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sexta-feira, 4 de maio de 2012

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A FOLHA BRANCA QUE NÃO ESTÁ EM BRANCO

 

Texto reformulado

Ao longo deste tempo, na qualidade de avaliador externo, tive oportunidade de ler variadíssimas histórias de vida. Percebe-se que se observa o passado com as referências de hoje e com representações diferentes daquelas que, nesse tempo, orientaram as leituras e guiaram as interpretações das vivências que agora se procuram (de novo) situar e (re)significar.

folha de papel homepen

O peso do passado que se impõe, a convenção que sempre dificulta e a memória endurecida por dizer o dito vezes sem conta, tornam-se embaraços às exigências da reflexão que tem por missão reconstruir, uma vez mais, a história do vivido. As pertenças, as particularidades e os pressupostos, nem sempre claros, marcam a subtileza da reinvenção do relato. A última das compreensões não dispensa, no seu deslizar vacilante, os entendimentos que a precederam num processo reconhecidamente penoso pela insatisfação do que, no íntimo, se mostra inquietante e duvidoso.

A historicidade que situa o testemunho e a reflexão que a completa (por correções e aclaramentos) fazem-se (assim) num movimento de leituras e juízos que a narrativa que se conta procura articular suprimindo vazios e discrepâncias que atrapalham a limpidez da história biográfica. E é no preciso momento da escrita que a dificuldade de escrever numa folha de papel que não está em branco, a consciência desperta para a riqueza do que é perplexo, equívoco e maleável.

É esse o instante inevitável da (re)elaboração e da (re)significação que, paradoxalmente, nos apresenta e exibe hoje o que somos ou o que, não sendo, desejamos ou procuramos ser, independentemente das histórias já escritas na folha branca onde escrevemos.

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quinta-feira, 3 de maio de 2012

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OS COMÍCIOS DO PINGO DOCE OU O POPULISMO NO SEU MELHOR

 

1[8]Problematizar (trabalhando possibilidades outras) anuncia a todo o tempo perplexidades, busca continuadamente formas novas de olhar os problemas e desperta sem fim exercícios de pensamento que moldam leituras desafiadoras a naturalizações que, embaraçando a tentativa, estimulam o seu propósito. Estranhar o habitual e permitir a familiaridade do desconhecido requer uma disponibilidade treinada (aberta e diligente) na tarefa sempre árdua de divisar diferenças (presentes e ausentes) nos movimentos silenciosos das diferenciações articuladas que sossegam enrijadas no leito dos múltiplos interesses estabelecidos.

Para quem não alenta nem se fundamenta em rebanhos de espécie duvidosa, as demonstrações populares de desmedido espavento são sempre vistas com o olhar crítico da tolerância exigente. As evidências da numerosidade arrastam consigo (vezes sem conta) a possibilidade de achacados populismos que se corporizam nas imperfeições civilizacionais, quando não nas penúrias de toda a ordem, nas desesperanças da vida ou em crises presentes de futuros adiados. Se alguns políticos (ou políticas) exploram tais particularidades, os mercados possuem delas um saber feito pelas agulhas e linhas com que se cosem.

Assim pensando, diria que a soberania de um qualquer populismo (político ou mercantil), numa sociedade tutelada por culturas de propaganda, nutre-se da exaltação de consumismos diversos com a cumplicidade sempre pronta e enérgica dos enredos mediáticos habilmente dóceis e (sobretudo) artificiosamente criativos. O irresistível anunciado, a necessidade fabricada, o desassossego excitado, tornam voluntário um gesto que (na sombra) embala o humano que nele se deixa adormecer. A necessidade desobriga-se assim da liberdade e da dignidade e amamenta o “kitsch” ardiloso que se alastra transversalmente por campos dispersos, todos eles submetidos (hoje, mais do que nunca) à lógica mercantil que nos incompleta.

A campanha do Pingo Doce, vale o que vale mas vale, no essencial, por que se entranha num espécime de populismo universalizado que, por muitas cambalhotas argumentativas que se deem, não deixa de constituir apenas mais uma forma (manhosa e, talvez por isso, rentável) de desumanização e, já agora, de revivalismo ideológico. O populismo sempre se revelou como meio expedito e despudorado de conservação ou de conquistas de poder(es). Neste particular, qualquer pessoa de bom senso não pode deixar de reconhecer que o Pingo Doce não se quis prestar à virtude da generosidade ou de uma outra qualquer grandeza humana ou social. O Pingo Doce foi apenas e simplesmente oportunista. Fez marketing, fez negócio e não deixou de fazer política. O 1º de Maio era a data conveniente para a convergência de tantos fazeres sem causa moral alguma. O populismo no seu melhor.

Imagem retirada DAQUI

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domingo, 29 de abril de 2012

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O HOMEM NÃO É, FAZ-SE … E DESDE O COMEÇO

 

A propósito da delinquência e não só…

DelinquenJosé Barata-Moura exprimiu, um dia, no Conselho Nacional de Educação, que o homem não é, faz-se. Ao crer no juízo, direi que qualquer um se inicia nesse fazer desde o começo, esgotando-se nos lugares das suas primeiras falas, risos, lágrimas e birras onde o enlevo e a dor das memórias esculpem muita da rejeição que, dessa história, escapa à lembrança. Dizem os versados que desta memória retalhada e difusa muito acontece e se declara (mais além) no mundo mestiço das pulsões, satisfações e frustrações.

Como ocorrem as ruturas decisórias com o social de jovens malfadados? Como se dissipam destes os sonhos e se desfazem deles as identificações de criança genuinamente imaginados? Que abismo se abre e os levam aos vazios da desistência ou às violências da sobrevivência? E os outros, que ao invés, a demasia lhes forçou os limites na busca de serem (por pedido) o que as frustrações de outros exigiam? Que mundos se representam e se inventam no ventre dessas severas má-sortes ou no coração doente dos narcisismos desgovernados destes últimos?

Fragilizadas e influenciáveis as mentes vacilam, os modelos implodem e a inconstância das referências retira vigor ao apelo natural e orientador que destas se esperam. A busca torna-se assim um caminho farto de sinaléticas suspeitosas. A desorientação sentida e vivida faz do jovem um viajante naufragado na esperança de alcançar o aconchego de um apressado abrigo. A viagem sonhada transmuda-se numa aventura de múltiplos rumos sem destinação. Entre aqueles rumos e a desejável destinação colocam-se fatalmente distâncias codificadas dificilmente transponíveis.

A desavença assim experienciada contagia relações (com os outros e com o mundo) que, nas suas múltiplas versões, se manifesta mais tarde em disfunções (diversas e dispersas) ante um social que, no fundamental, não acertou ou (pior ainda) renunciou às suas obrigações. E muito verosimilmente desde o seu começo. Citando, o ex-Reitor importa reiterar que, sob o ponto de vista deontológico, a educação é um processo relacional, continuado e aberto, ou seja, um processo de dar forma à condição do nosso viver. Este enunciado, em toda a sua grandeza e exigência, revela responsabilidades não assumidas por quem devia e, sobretudo, o modo irreflexo como elas são sacudidas para outros, senão quando para os próprios padecedores.

 

Imagem retirada daqui

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quinta-feira, 26 de abril de 2012

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A NEUROSE DA (IR)RESPONSABILIDADE

 

Miguel-Velasco-NeurosisA convocação constante e pomposa do sentido de responsabilidade merece-me uma incessante vigilância crítica que, com o amealhar dos anos e a senescência por longe (felizmente), se desenvolveu ao extremo da teimosia e não, é pena, no seu refinamento apetecível. No entanto, confesso que saber de onde irrompe esse deslizante apelo, desde logo, desperta em mim o interesse (adormecido e preguiçado pela impreparação) de compreender o fenómeno. Saber quem é o responsável, aplicado e generoso, motivado pelo meu comportamento ou desempenho responsável faz-me (talvez) mais esperto e, sobretudo, por que dependente da minha vontade, obstinadamente diligente nesse intento solitário de espiagem.

Saber se esse responsável é um mero serviçal de um osco poder ou vive em concubinagem com uma qualquer estranha moral, não é obviamente um saber despiciendo. Neste particular, a experiência sovada pouco me ensinou pois a vida (por si) nada ensina. No entanto, à força de tanta sovadura eu tive que aprender com ela e não aguardar que ela se prestasse a ensinar-me alguma coisa. Deste modo, aprendi a aprender (passe o modismo), fazendo das tareias o conteúdo necessário deste meu saber vivencial. Aprendi que me tornava (aos meus próprios olhos), ao anuir a esses poderes embuçados e ao acatar os desvarios dos dispersos concubinários, um responsável lerdaço e inútil, desconfortado em crescendo com as lisonjas de todos aqueles outros.

Há responsabilidades que se acolhem por que se celebram comprometimentos e dependências, supostamente no exercício de uma liberdade essencial e de uma consciência sentida como plena. Responsabilidade e liberdade fazem-se (assim) relação de inteligibilidade potenciadora de valor nesta fatal disputa de ajuizar condutas e audácias. Atente-se (porém) que liberdade essencial não significa, por uma qualquer vontade conveniente, fácil repudiação ou remoção de embaraços, como também não se mostra em meras espontaneidades de quereres que se bastam a si próprios. Igualmente ainda, em abono da provocação, diga-se que a liberdade de que falo como essencial não é essa liberdade dirigida que por aí perambula e que gentil e generosamente oferece escolhas não-determinadas por quem as elege.

Liberdade essencial significa estar livre para a acareação consigo (fundamentalmente), com o mundo (desejavelmente) e com as suas múltiplas e diversas exigências (necessariamente), reconhecendo em si (como sujeito individual ou coletivo) os poderes de constituir e de destinar e (assim) inventar as soluções necessárias aos desafios, próprios e dos outros, que o enredo da vida vai inevitavelmente entrelaçando. A responsabilização (como ato que se sucede no tempo) apela a um sentido de responsabilidade que, pela sua natureza educável e pela sua função de orientação e de rumo, apresenta como referente e essência o sentido forte, influente e decisivo do que é humano e se presta à humanidade. A responsabilidade de avançar nesta aventura nossa, que é de todos, dispensa disfunções que esvaziam essa referência e a sua essencialidade.

IMAGEM RETIRADA DAQUI

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terça-feira, 24 de abril de 2012

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A POBREZA ENVERGONHADA

 

feminis_lang_migr_mothr_lg[1]A vergonha anuncia-se nos temores da desonra, nas incertezas do ridículo, na apercepção do comportamento inconveniente, na sensação da perda da dignidade, na consciência da humilhação ou na convicção do aviltamento. Na pluralidade de interpretações, uma qualquer nota da pobreza refreada inspira (assim) a prova da significação que cuide do sentido que a vergonha cala.

O que reprime afinal o encobrimento da vergonha? O que tem em mente aquele que faz do fingimento necessidade? Que racionalidade íntima funda essa escolha que à experiência sofrida junta a sequidão do isolamento? O que nos clama aquele (fingido) silêncio impassível na sua forte presença e viva coexistência? Que acessibilidades descobrimos para nos escoltar e levar à crível compreensão desse grito que mima suplicando calado?

Tematizar a vergonha que na pobreza radica, torna-se (no desenho destas interrogações) uma sondagem muito singular e delicada mas irremediavelmente condenada à inquietação da imperfeição do que é inconcluso. A obscureza da sua razão (no entanto, fundante e orientadora) coloca, como condição ao seu entendimento, o conhecimento das totalidades e das circunstâncias em que o humano se inscreve e nas quais ele se determina.

Assim sendo, a razão que aqui se submete ao entendimento não decorre do domínio da lógica mas sim (e sobretudo) do contexto vivencial no qual ela – essa razão – se plasma e alcança sentido. A dignidade, sendo um valor que a linguagem (por insuficiência) não permite esclarecer em absoluto, traz consigo uma pessoalidade que a devolve irredutível aos seus exercícios de compreensão. A pobreza não é, no essencial, o que se vê e está próximo. Está em outro lugar, alguns bem distantes, naturalmente escondido na transcendência do indizível que a cada um pertence.

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sábado, 21 de abril de 2012

O DESTINO DO FUTURO

 

71233632_c14e63ba5aA resignação, tida paciência tola de conformação, maça-me em absoluto. Confesso o cansaço dessa absurda licenciosidade retesada no regaço insensível de um qualquer destino aceite, supostamente reservado. Parece-me (ante ela) escutar uma espécie triste de fado sem voz nem passado, desapaixonado pelo presente e descrente no futuro. Enclausurada assim (nessa infausta musicalidade) ouve-se a imaginação do porvir ao longe e percebe-se uma eventualidade muito remota. Uma lonjura lânguida produzida de desesperanças que atrai, pela fadiga,  o hábito das saudades ociosas sem materialidade nem historicidade. A circunstância deste modo desenraizada, no vazio de horizontes dissipados no infinito, desperta (pois sim) peregrinações sem destino, santos e lugares. Liquefaz-se o tempo (que se vive) nesse outro tempo futuro afigurado longínquo e que se teima em não o encurtar para o poder viver … já. O futuro que, afinal, já ontem devia ter começado.

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

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O TRISTE ENLEIO DOS DIREITOS

 

Capa Diabo 1810[3]A utopia é anúncio e sinal de vida. Abraçado à utopia (imaginada e imaginável) experiencia-se um inefável apreço pela vida. Porventura busca-se um não-lugar, provavelmente quimérico, feito de margens múltiplas que torna mais perto aquele lugar longínquo. No desprazer do outro (do lugar habitado) prospera assim o devaneio fatal de uma desejada proximidade ao tal não-lugar da vida, reinventando-se (de modo obstinado) as veredas de profundas e fundadas recusas.

Nesta incessante e infindável procura descobre-se os caminhos da cidadania e sulcam-se os percursos da moral necessária. A negação de espúrios privilégios convoca o exercício sadio dessa cidadania e faz esta tomar a estrada socialmente salubre dos direitos. Mais e melhor cidadania é fazer da riqueza um meio transparente de coesão social, restituindo à liberdade a responsabilidade que nela se inscreve. O dano social dos privilégios é bem mais penoso para todos do que os dinheiros usurpados que eles custam. Adoece a sociedade e corrompe a democracia. Não há volta a dar…

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terça-feira, 17 de abril de 2012

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UNIDADE E SENTIDO DE RESPONSABILIDADE – AS ELEIÇÕES NO SPGL

 

spgl_2[7]

A 31 de Maio vamos ter eleições no SPGL. Alguns anos afastado de responsabilidades sindicais, as memórias despontam e o desassossego que daí advém convoca a historicidade de uma reflexão própria que (ao avivar conflitos) se torna necessariamente dolorosa. Uma narrativa que atinja a vida, sobretudo a pretérita, não deixa de ser uma produção permanentemente atualizada de uma construção progressiva de si. Memória e reflexividade, na sua relação penetrante e movente, arrastam consigo a inevitabilidade do (des)conforto das fidelidades, das recusas e das reconciliações.

É neste quadro que tem importância acrescida sublinhar o papel do sindicalismo no seu caminhar social e histórico, designadamente tendo presente o atual contexto de desmarcadas preponderâncias dos poderes económicos e financeiros no gozo de uma usurpação bastarda do político. Mais do que o papel, diria que a missão do sindicalismo deve prosseguir declarando-se ainda mais exigente, firme e robusta. Assim sendo, não posso deixar de concluir que importa unir forças, vontades e, sobretudo, responsabilidades neste tempo de dramática asseveração de um neoliberalismo impassível, que consigo roja modos de socialização e de contradições múltiplas com expressão em profundas desigualdades e em manifestos desequilíbrios.

Ao mundo laboral (pela centralidade humana e social que o trabalho toma sobre si) os sindicatos não podem igualmente deixar, neste momento histórico, de alargar intervenções e participações encorpando movimentos sociais mais amplos (fazendo deles parte) e com eles partilhar o aprofundamento da democracia e da sua verdade. Mobilizar e implicar para ganhar a vida não é (de todo) tarefa fácil. No entanto, bem mais complexo será, com toda a certeza, envolver e comprometer as pessoas na transformação social que consinta mudar de vida. Sem esta referência, diria que o chamado sindicalismo propositivo navega em águas turvas (por outros) agitadas. A experiência adverte, com alguma ironia amarga, que a unidade transita por aqui e não por meras lógicas e operações aritméticas de arranjos circunstanciais de lugares ou de poderes.

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