sábado, 11 de agosto de 2012

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O MONÓLOGO DA CEGUEIRA ECONÓMICA

 

nl17Ao folhear o “Le Monde diplomatique” (Edição Portuguesa) de agosto de 2012, dele anoto três simples apontamentos de uns tantos escritos distintos.

1ª nota (A lei dos bandidos)

Serge Halimi alude em artigo que, todos os dias, o nível da Libor é estipulado por uma vintena de grandes estabelecimentos financeiros e que este ajusta o padrão a transações num montante de 800 biliões de dólares, empreendidas particularmente no mercado dos produtos derivados, acrescentando: “Os montantes em causa são de tal forma faraónicos que encorajam a imprensa não financeira a concentrar sua atenção em pecadilhos, mas de escala humana, dos pais que recebem abonos de família sem garantirem a presença dos filhos na escola aos assalariados gregos que completam os seus magros rendimentos arranjando trabalho não declarado. Para estes está reservada a ira dos governos e do Banco Central Europeu”.

Pois então, não mandar os filhos à escola e ainda por cima acumulares? Dá de frosques e porta-te mas é bem…

2ª nota (Universidades, 20 anos depois)

Sandra Monteiro menciona, por sua vez, que a composição da estrutura social do ensino superior tem vindo a sofrer, nos últimos anos, uma forte elitização. E os números avançados são (por si) elucidativos. Assim, 9, 9% da população portuguesa de rendimentos mais elevados, em 1994/95, ocupava 14, 4% dos lugares. Em 2010/11, essa percentagem subiu para 38,2%. Por outro lado, no que concerne à classe média, constata-se o inverso; em 2004 eram oriundos dessa camada 74,1% dos estudantes, em 2010 essa percentagem baixa para 43,8%.

Olha, olha! Escola para todos? Não querias mais nada? Vai mas é trabalhar, malandro, para saberes o que é a vida…

3ª nota (Jovens jornalistas: entre o sonho e desesperança)

Liliana Pacheco ao debruçar-se sobre o desemprego e a precariedade dos jovens jornalistas também nos dá alguns números esclarecedores. Dá-nos a conhecer sobre o sector dos media em Portugal que, entre 2008 e 2011, o mercado de publicidade no nosso país perdeu quase 200 milhões de euros, o que significa uma quebra (nesse período) de 26%. Desta contração, estima-se que, entre 2006 e 2010, as empresas dos media em Portugal tenham perdido cerca de 500 trabalhadores. Tendo presente estes números e um quadro progressivo “de concentração de cada vez mais órgãos de comunicação em cada vez menos proprietários”, é fácil de perceber que é complicado, no plano deontológico, um jornalista argumentar com quem por esses deveres e regras não se governa. Mais fácil ainda será entender que a dificuldade do jornalista cresce à medida da precariedade do seu vínculo laboral.

Em jeito de síntese, vale a pena citar a última das suas considerações:

Se a precariedade se constitui como um problema grave nos nossos modelos de trabalho e em todas as profissões, no jornalismo acarreta ainda maiores consequências, já que põe em causa o princípio da liberdade de imprensa. Esta não deve ser encarada como um privilégio dos jornalistas, mas como um meio indispensável à garantia da liberdade de expressão e do direito dos cidadãos a uma informação livre e independente”.

Atina-te, ó palerma. Liberdades e direitos têm preço. Se não sabias, ficas a saber. Põe-te a milhas e deixa-te de retóricas…

Como é óbvio, muitas outras notas poderiam ser acrescentadas a estas que, escolhidas apenas por serem de campos e de natureza diferentes, não deixam (no entanto) de constituir sinais de uma mesma realidade, ou seja, sinais representativos das múltiplas estratégias que fazem funcionar ou manter o dispositivo neoliberal do sistema. Um sistema feito monólogo injuntivo da cegueira económica sobre a insubmissão democrática.

Democracia? Tá bem, tá bem. As nossas leis cuidam disso e o monólogo faz o resto…

Imagem retirada DAQUI

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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O FUTURO E OS SEUS ABRIGOS

 

artisticas-4O sentimento de um mundo frenético faz com que o tempo escasseie na tarefa demasiada humana de o entender. No desconhecimento sentido intolerável, reconhecemo-nos ameaçados mesmo sabendo que o tempo, esse tempo que parece faltar, é uma criação que nos transcende. Daí, o desamparo narcísico que nos enrola na demorada busca de calmas representações ou (ao invés) na angústia temerosa e bacenta das culpas indeclináveis.

Insatisfeitos e nostálgicos, despontamos o passado que se transfigura num confortável mas ilusório porto de abrigo. As memórias amigáveis de encantamentos experienciados (ou supostamente vividos) despertam assim, não futuros sabidamente improváveis, mas apenas movimentos ondulados e errantes de fugas e procuras que indefinidamente se equivocam. Desse desacerto, germinam as múltiplas e diversas especulações que buscam as leituras de uma realidade que teimosamente nos escapa.

Disputam-se assim racionalidades, propõem-se outros olhares e produzem-se diferentes realidades. Do mítico ao científico, do religioso ao político, as teorias veiculam distintas possibilidades e sugerem ordens que melhor prometem confortar as nossas angústias e acudir às nossas perplexidades. Aliciam-nos aquelas que nos parecem oferecer as representações mais tranquilizadoras, esquecendo-nos que a transferência é um investimento imaginário tornado mecanismo de defesa na procura apressada do conforto para o nosso desamparo.

Digo bem, uma procura apressada e, rigorosamente por isso, precipitada. É mais cómodo aceder a uma ordem supostamente universal e imutável, quiçá sagrada, do que acolher a possibilidade da realidade ser uma construção social e histórica, incontornável e intrinsecamente conflitual. É nesta conflitualidade (e numa perspetiva que admite a natureza fundadora da divergência) que o valor da transgressão se afirma, não só desafiando o saber e o poder instituídos como também construindo as vias para outras verdades eticamente necessárias que nos carreiam a diferentes mas necessários e mais solidários abrigos.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

domingo, 29 de julho de 2012

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OS SINAIS QUE FAZEM VALER A (IN)JUSTIÇA

 

justica-cega-21A palavra (in)justiça sempre foi, e hoje mais, um recurso ideológico utilmente adulterável que, na sombra dos interesses e dos poderes que nela se acobertam, se finge em conceito substantivo de uma verdade conveniente - cambiada em socialmente necessária -  surfando (sem exigência) a onda fácil da presunção própria. Arrogante, nestes casos, a ideia de (in)justiça apresenta-se insensível à particular e censurável extorsão de proventos e exibe-se indiferente, no soberbo devaneio da inventada essência fixada, às decorrências dos seus interesseiros e miméticos usos.

A ideia de (in)justiça, como muitos outros valores, desvalores e conceitos, faz-se fugidiça quando a intentamos alcançar para, nesse enleio improvável, desafiar e ousar definições. No entanto e em contrapartida, é útil lembrar e aclarar que esses valores, desvalores e conceitos, à qual a (in)justiça não foge, fazendo parte do nosso quotidiano e aí repetidamente revolvidos, invadem os mais discretos diálogos, supostos e atinados juízos ou ainda cândidas e simples ações.

Neste contexto, reconhecer comportamentos justos ou descabidos é, contudo, bem mais remansado do que pensar a justiça nos seus atributos e qualidade intrínsecos. E é aqui, na dificuldade ousada de procura da sua perfeita representação, que habita o objeto de uma saudável, incontornável e paradoxal disputa de sentidos e de verdades nem sempre convergentes ou mesmo amigáveis.

Considerar salutar a disputa, ao mesmo tempo que se reconhece a sua permanência e inevitabilidade, não deve conduzir ao desalento do relativismo inconsequente. Bem pelo contrário. A (in)justiça, sendo tema de uma luta irrefutável, o seu conceito e a sua conceção não o são menos. Mas conceitos e conceções à parte, o uso discursivo (político e ideológico) da ideia de (in)justiça, dá-nos sinais expressivos que, sob o ponto de vista das (des)igualdades, a habilitam e a legitimam.

Assim, a título de exemplo, alguns enfocam o sentido da (in)justiça nos rendimentos médios e baixos, quando não nos minguados subsídios e apoios sociais. Outros, ao contrário, clamam contra os salários ostentosos e a amontoação de reformas obscuras. Aqueles, com o argumento da indolência e da improficiência de alguns excitam a discórdia que lhes é preciosa. Os últimos, inculpam a exploração, a perversão e a agiotagem que os entretecem. Conceitos e conceções à parte, alguns destes sinais são ilustradores e denotativos sobre o que se proclama e se protege. E os sinais poderão, em muito, ser multiplicados. É uma questão de vontade e perquirição empenhadas na necessária e atrevida significação desses prenúncios …

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domingo, 22 de julho de 2012

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O DIABO DO BISPO EM FIGURA DE GENTE CAUSOU FERNICOQUES

 

PachecoEstou aposentado, e para quem ainda não deu por isso, carrego comigo a atendível responsabilidade de uma estimável superioridade. Quando fico capaz, depois de ter estado achacado, já não pergunto ao médico se posso no dia seguinte ir trabalhar. Apenas cuido de vivificar a vida dando largas à minha boa ou má disposição com as asas da liberdade recuperada. Não escapo à presa do achaque para impreterivelmente me enfiar num diferente padecimento a que se chama trabalho, suportando gente enfermiça que está porventura convencida do contrário. E como estou felizmente bem de saúde, cá vai…

Ora, o presente quadro de graça associado a este desimpedimento para a liberdade suscita, para quem dela saboreia, como é o caso, naturais e sadias insolências que convém habilmente abalançar para cativar a estima que interessa e arredar a desinteligência que agasta. Num livro há tempos lido, o autor citava um poeta romeno do século 19 que, não assegurando exatamente isto, me estimulou a testificar que as pessoas que prezam a vida em liberdade cometem mais loucuras do que as pessoas que se regem pelo impulso da razão conformada e cinzenta, alertando (no entanto e de imediato) que as insânias destes últimos, soturnos e fastidiosos moralistas, são sempre bem mais graves, peçonhentas e perigosas.

Em consonância com o poeta, tenho para mim que a prática difusa do politicamente correto se abastece sobremaneira no lado pardacento das razões convenientes. Por isso, este correto político autoriza ardilosamente que se diga não, embora nos limites óbvios e espremidos da elegância flutuante e acertada do profícuo peso-conta-e-medida. O que provavelmente muita boa gente não se apercebe ou não capta é que esta louvada cortesia proíbe que se diga não ao que ela patrocina não ter escolha. Ora, os prezadores da vida em liberdade, os tais dos atrevimentos e dos excessos, numa insistente e saudável experiência de impedir o sequestro da sua subjetividade, transformam o ser do não interditado por um outro ser do não; o não do resgate, porventura da transgressão e repetidamente da inconveniência.

Note-se todavia que a interdição folga, mais do que se presume, no cálculo de uma antecipada razão que, na intimidade da sua vontade bravia, enjeita sensibilidades e abomina emoções, sobretudo se as pressagia intrínseca e genuinamente humanas. É no silêncio deste deslizar melodioso da interdição para o arbítrio da incriminação que a panóplia dos poderes e das suas grotescas figuras tratam de aclarar os marcadores da apetecível ordem discursiva e definem os seus limites. E é igualmente na prolongação desse comedimento, aparentemente inócuo, que a forma e a substância do que se diz passam pelo crivo do mimetismo impercetível das relevâncias. A forma e a substância perdem o pé à sua verdade (e ao seu sentido) e passam (deste modo) a valer pelas consequências do que é conveniente. O Padre Manuel Morujão, da Conferência Episcopal, tem toda a razão; o que importa é que se fale verdade. E o Bispo Januário Torgal Ferreira vozeou a “nossa” verdade, apesar dos desagradáveis fernicoques causados ao ufano Aguiar e à pedante Avilez, entre outros solícitos papagaios. Bem haja, senhor Bispo.

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

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O ASSASSINATO ECONÓMICO DE BRAÇO DADO COM A VIGILÂNCIA CORRETIVA DOS CHACAIS DA CIA

 

cny_cia_cia_db[1]Jornadeando pela FNAC, abalancei-me a adquirir um livro de Santiago Camacho intitulado “a troika e os 40 ladrões”. O autor é apresentado no verso da capa como escritor e jornalista cujos escritos têm como denominador comum a denúncia e a polémica, o que em si logo me arrepanhou. Acresce (no entanto) que os seus temas prediletos afinam, pela suspeição, com alguns dos meus, ou seja, o das regiões heréticas das sociedades secretas, dos serviços de inteligência e das teorias da conspiração. Contudo, confesso que o crivo do índice foi para mim o decisivo safanão motivacional para a sua aquisição mais do que o afadigado e reiterado conteúdo da apresentação inserto na contracapa. “Os truques sujos”, entre outros, excitou de imediato (e libidinosamente) o meu desejo abespinhado em tragar os malandros da sujeira.

O texto acusativo das patifarias apresenta-nos um homem de nome Jonh Perkins que, nas suas “ Confessions of na economic hit man”, historia como é que através de uma associação/firma de malfeitoria/consultoria (Chas T. Main) se formou e se promoveu em assassino económico. Ele próprio esclarece que este tipo de criminosos são “profissionais altamente remunerados que lançam armadilhas de milhões de milhões de dólares aos países do Mundo. As suas ferramentas de trabalho são relatórios financeiros fraudulentos, manipulação de eleições, subornos, extorsões, sexo e assassínio”.

Numa leitura apressada, e em apenas meia dúzia de páginas lidas, apurei que Perkins perseguia nas suas incumbências profissionais confundir os países mais pobres com enormes somas do Banco Mundial e do FMI com a garantia certa de que essa abundância era para aplicar em projetos investidos em companhias norte-americanas. A esta impiedosa caução, pelos vistos, outras exigências se anexavam materializadas num outro tipo silencioso de proveitos em domínios como o dos recursos naturais do país, da cooperação militar e de apoio político. Mas, e o que acontecia aos dirigentes que não aceitavam, pergunta Perkins, espicaçando a curiosidade salivante do leitor?

Perkins, dá-nos então conta dos casos dos teimosos e embirrentos presidentes Jaime Roldós (Equador) e Omar Torrijos (Panamá). O que lhes aconteceu? Morreram ambos de acidentes de avião. Todavia, não fossemos nós cogitar candidamente numa possível casualidade, Perkins esclarece que as suas mortes não foram acidentais. E acusa; os presidentes Roldós e Torrijos foram assassinados “porque se opuseram a essa fraternidade de corporações, governos e elites bancárias cuja meta é o império global”. E vai mais longe, completando; quando os assassinos económicos falham, há outros atrás deles que levam a cabo a tarefa. São eles, diz o penitente Perkins, “os chacais da CIA”. Tal e qual…

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domingo, 15 de julho de 2012

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O DESFASTIO QUE É ALFINETAR ESTA (DES)ORDEM

 

RETICENCIAASAnte novidades avistam-se continuada e diligentemente grandes males e imaginam-se, com apressado cálculo, dificuldades invencíveis na presença sempre temida de atrevidas propostas e ousados projetos. Deste modo, danos vindouros e embaraços antecipados convocam o irreprimível sobressalto diante da estranheza do possível emergente. Prefere-se, assim e em silêncio, a certeza prática do que é e está, fazendo falar a voz das suspeições seguras da incerteza. Tudo isto, a propósito de uma revolução digital que angustia pelas perplexidades que se agitam no bojo do seu mistério.

Fazendo da modéstia virtude sincera, direi que a minha incipiência no âmbito do digital, não me aconselhando a impertinência, autoriza-me (no entanto) a sancionar o otimismo nas tecnologias repulsando o(s) poder(es) do seu mau uso. Daí, o meu tímido mas persuadido alvitre sugere que se espie sagazmente os impactos admitindo, sem reservas, a bondade dos projetos feitos de finalidades claras e esclarecidas. Em particular, convicto de que as tecnologias digitais são também tecnologias intelectuais, capazes de engrandecer a esfera da comunicação e o espaço do saber incómodo, vou – cá por mim – “gritando” e “argumentando” em paz com a linha editorial do blogue.

Por isso apregoo que os tabus sempre me seduziram, a liturgia das circunstâncias cada vez mais me chateiam e não deixo de execrar, a todo o tempo e profundamente, o privilégio da fala concedido aos perpetuadores da ordem convencionada. É no alcance destas resistências primitivas, hoje mais primeiras, que vou recuperando verdades esconjuradas mas precisas à disputa urgente da valiosa e útil transparência das ideias. Reabilitar o expulso, dando voz ao interditado, é intentar dizer o que não foi dito totalmente ou não pôde, de todo, ser dito na conveniência histórica ou circunstancial de uns poucos.

Muitos são os temas que encrespam relações e sociabilidades. Como exemplo, a política, a sexualidade e o futebol inscrevem-se nesse universo de permanentes zangas sociais e não só. Mas se as fissuras feitas de diferenças no futebol fazem jeito à ordem das coisas, as diferenças na política e na sexualidade são coisas que, ao invés, atrapalham a conformidade dessa mesma ordem. Assim, se no campo do futebol se animam as diferenças alimentando a rixa, nas regiões da política e da sexualidade, pelo contrário, impõem-se limites ao vigor das suas diferenças. Os poderes têm destas obstinações; suportam bem a democracia das diferenças com a hábil  mas silenciosa condição de o verdadeiro que delas possa advir não derive e desalinhe o que está conveniente e previamente traçado. Alfinetadas? Precisam-se e muitas.

Imagem retirada DAQUI

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sexta-feira, 6 de julho de 2012

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JOGO COMBINADO OU JOGOS QUE SE COMBINAM?

 

9789723219012O veredicto do Tribunal Constitucional aparenta ser o que não é. E o que é, é verdadeiramente inquietante. Não quero aqui discutir a decisão nem tão pouco interpelar os seus fundamentos. Apenas e tão-só desejo destacar a secreta funcionalidade política do (des)acordo burlesco entre a comprovação e o voto. Mais claramente, gostaria de relevar e realçar a dissonância kafkiana de fazer valer o inconstitucional. Não ad eternum mas com o agravo acrescido de amigar-se a tese com a sua negação apenas por um tempo estimado conveniente. Se absurdo não é, como decifrar a heresia?

Ao inverso de muitas vozes, desconfiado e cético como sou em matéria de governos embrulhados e de tribunais amistosos, o inconstitucional suspenso, não mudando as coisas, acredito que põe mais a jeito o estado das coisas. Aborta possíveis incompatibilidades e força a imperativa concordância que sobrevêm da supletividade dos ilogismos (do Governo e do Tribunal). Há lazeira de uns acomoda-se (assim) a vontade de outros tantos na devoração do desditoso. Com o aprazimento da judicatura e a vulpina fixação dos mandantes a ameaça soergue-se avigorada em vértice argumentativo e justificativo.

Mas a verdadeira bravata, essa, já se transfigurou numa silenciosa embora desvendada violência democrática. As adesões necessárias (e sobretudo as profícuas) vão-se gradualmente descolando, a ritualização patética das justificações já não enternece e o seu perfume moderador foi-se melancolicamente dissipando. Remanesce, como é óbvio, a fúria do instituído sob a capa da respeitabilidade e da responsabilidade dos seus artistas e das suas arengas. Aquilo que parece ser conflito não é. Trata-se apenas de um fantasiado arrufo à espera de mais intensos fulgores.

Joga-se na finta política, pratica-se a intrujice jurídica e encobre-se a coação arbitrária. Os juízes, que eu saiba, têm por função impedir a violência e não desta fazer parte. O Governo, ao fazer de uma regra absoluta uma verdade evidente, aliciou os persuadidos constitucionalistas. Não da regra naturalmente mas da insondável verdade merkeliana. Como se sabe, o pensamento argumentativo e a ação que ele ajeita estão visceralmente enleados. Se a ação se combina (não obstante os argumentos dissemelhantes) é por que estes (os argumentos) no necessário se completam. É isso, se completam. O futuro o dirá.

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domingo, 1 de julho de 2012

DESENFARDAR A CONDIÇÃO DE SER

 

FOTOComo me deleito, por vezes, passeando o meu olhar dos centros para os arrabaldes, dos meios para os seus contornos, do medular para o contíguo. Clareando racionalidades que me são afastadas, desfeiteando as razões que me afadigam e libertando muitas das minhas loucuras recalcadas. Enfim, aproximando-me do expulso, privando com o minoritário, observando o divergente e enfrentando o ameaçador.

É isso. Olhares que me levem ao outro lado da minha história, aos lugares que me fizeram (e onde me fiz) mas não compuseram o essencial da geografia dos meus pensamentos. Olhares que esgravatem as insuficiências de experiências imperfeitas vivenciadas no desabrigo dos limites e tentadas no desconforto das fronteiras. Importa chegar lá. Ver e dizer coisas diferentes, possivelmente outras, para descobrir um saber distinto advindo dos lugares diversos desse outro conhecer.

Pensar o que penso (e sou) compromete-me a desandar no tempo e dar alma – não aos lugares – mas às circunstâncias que se fizeram marcas indeléveis desses meus lugares. Mais do que uma disposição, cuida-se de uma meticulosa arqueologia em que esquadrinho vestígios sumidos na consciência insatisfeita do que sou. Quero assim ser mais, mais nítido (sobretudo aos meus olhos) e, se forçoso, diferente de mim mesmo.

Olhares que me abram espaços de liberdade inventados pela pertinácia de quem se procura num diário partilhado de zangas e de teimosias afortunadas. Liberdade que me (e nos) retoca no pensar e me (nos) muda nos gestos em rota com outros. Olhares e liberdade que demudam sociabilidades outras que crescem de afetos e sensibilidades e que se adicionam e completam no húmus de um espírito reabilitado. Poderes que se descortinam surdos e intrusos na sorte dos desconhecidos que afinal contam. Uma nova possibilidade de pensar a cultura (e a vida) e sondar os espaços que definem e me devem (por inteligência e integridade) socorrer à reinvenção do meu humano.

Foto retirada DAQUI

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

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OS MEDIA NÃO SERÃO HOJE UM PROBLEMA DA E PARA A DEMOCRACIA?

 

36.0.posConfesso que já não sei para onde me virar neste tempo de um jornalismo tão bravateado quanto intimidado. Se o campo político o constrange, os interesses empresariais enquadram-no. Neste afetuoso bambolear o poder mediático vai-se instituindo. Sintomas seriamente inquietantes por anunciarem uma crise abominosa por intrínseca na sua natureza. No fundo, sinais de uma crise de legitimidade do jornalismo e, por rastejamento, dos próprios jornalistas.

O poder mediático surripia ao jornalismo, mas não tanto aos jornalistas, a desejável e necessária discrição, acomodando-se matreiro no centro do debate e, manhosamente, oferecendo palco aos seus artistas. O vedetismo, deste modo animado e requerido, convoca a distorção natural de fronteiras. A opinião e o comentário confundem-se e entranham-se na competição feita de sombrias manipulações e grosseiros compadrios.

Igualmente, e com uma docilidade arrepiante, os valores éticos submetem-se às habilidades do jogo das concorrências. As tragédias são miseravelmente exploradas, a agitação das almas avivadas e o folclore mediático exponenciado. A busca das audiências faz-se então meta, não dispensando com uma frequência inusitada, os lamentáveis recursos à patética dramatização e à torpe emoção. A informação incapaz de comunicar, transforma-se numa mera mercadoria desprezando a sua utilidade histórica na satisfação de necessidades sociais e coletivas.

Posterga-se, deste modo, o respeito pela liberdade de informar e encobre-se a verdade no disfarce de uma aparência arquitetada objetividade. Os limites da informação, da adulteração e da propaganda dissipam-se pela sua incomodidade e impedimento aos intentos indizíveis. O rigor e o exato dão lugar à inverdade (ou mesmo à mentira), ao embuste e ao espetáculo. Os factos, as opiniões e os comentários sucedem-se sem critério. A profissão corrompe-se ao desnudar os acontecimentos do seu significado e importância social e político.

O apelo à deontologia torna-se mera ingenuidade ou (tão-só) bandeira estratégica e cínica de quem pretende atrás dela se acobertar. Os valores da neutralidade, da conformidade e da objetividade são tão calcados quanto mais anunciados. A má consciência, servindo-se da nobreza das palavras, procura que estas cumpram a função de ocultação do gesto indevido. Os media, de instrumentos essenciais à democracia, tornam-se assim, muito provavelmente, um problema da e para a própria democracia. A sociedade da informação e o novo capitalismo têm muito que se lhe diga. O exercício do jornalismo sério sai prejudicado e a democracia profundamente lesada. A vigilância crítica e a denúncia permanente constituem-se (assim) em deveres inadiáveis de cidadania. Exercitemos então…

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