quinta-feira, 25 de outubro de 2012

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O MELHOR POVO DO MUNDO OU O DESAZO SONSO DO MINISTRO

 

Passos_Vitor - CópiaO melhor povo do mundo, de facto, aguenta o insustentável. Não só a pobreza, os escassos proventos, a míngua presente ou o horizonte iminente do irremissível desespero. Suporta - e isso é dor infinda - a combinada agiotagem na sua labuta diária sem outro resultado que o de dar serventia ao mando dos poderosos. Nesta cruciante narrativa, esmola-se um necessitado e serviçal trabalho onde a vida se desaprende na sua iniludível devassidão. Amarga-se prolongadamente, no recato da privança, as arengas farsantes forjadas na mesmidade sempre atualizada da perfídia política descabelada. Desses sicários poderes enclausurados na sua arrogância obstinada em durar, imperando.

Sem a robustez de uma expressão em comum partilhada, as palavras desamparadas do sofrimento, mesmo que zangadas, não concedem a essencial rijeza aos caboucos necessários mas provavelmente ainda inensaiados de outros possíveis coletivos. Não chega fazer diferente, importa escavar e laborar a qualidade da diferença. Interessa revolucionar (não para ser o melhor povo do mundo, mas) para ser apenas e tão-só gente responsável, dialogante e imaginativa. No essencial, gente que saiba fazer da humanidade de que é mensageira, um povo cultivador de uma outra destinação, um povo que saiba fundar um outro devir aonde a iniquidade incomode verdadeiramente e de modo consequente.

Não quero, por isso, fazer parte da ficção “vitoriana” dos melhores. Chega-me estar ao lado da vigilância crítica, do fundamento sério e do esclarecimento exato dos problemas. Na busca ativa de outros caminhos e percursos onde a emancipação autêntica, humana e social, não se deixe submeter ao jugo da inanidade. Nesta linha de pensamento político, o sentido de responsabilidade é claramente constitutivo e definidor, designadamente no que às competências de quem nos governa diz respeito. Assim sendo, reitero e acresço; o sonso do Ministro abusou de idiotice e a resposta unissonante e conveniente das divergências …vai (re)tardando.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

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NÃO FOI A MANUELA QUE INSINUOU A SUSPENSÃO DA DEMOCRACIA? ELA AÍ ESTÁ … A SUSPENSÃO

 

Velha Manuela Ferreira leiteDesde 23 de agosto que me reparto (sobretudo) pelo trabalho que remanesce e pela leitura que desfadiga, tarefas no entanto aquietadas – reconheço – pela madraçaria que me cerca neste tempo de inaturável crise. Se o exercício do grito me tem seguido no protesto, o impulso para instruir e amanhar os argumentos que esclareçam a tristura que o acompanha é que não. Repisar o desmarcado que há muito foi censurado e evocar hoje as advertências em outra hora feitas é demasiado estopante (e provavelmente ocioso) tendo em conta a frágil e deliberada militância desta página que, por uma questão de método, sempre a fui alcunhando de GRITOEARGUMENTO.

Sou daqueles piegas que presumem que os valores participam e não se dissociam de todo o tipo de argumentação e, especificamente, que a sua qualidade intrínseca se reconhece com perspicuidade nas práticas que protegem as distintas e diferentes explanações. Se nos raciocínios de ordem científica estes se direcionam no sentido do valor da verdade, nas jurisdições do comportamento, da política e da filosofia, os valores testemunham e acompanham o esteio da argumentação e do seu desenvolvimento (embasando e favorecendo, intencional e racionalmente) opções aceitáveis a admitir por outros, aliás, como ordena a ética de um qualquer acordo que se pretenda legítimo. 

Neste necessário tabuleiro axiomático, interessa-me (talvez com alguma imprudência) confessar, por mera precaução intelectual e alguma disciplina lógica, que me esforço por traduzir os lugares-comuns na sua sedutora cosmética (formada na superfície dos nossos quotidianos), tendo consciência da sua contínua e desengonçada generalidade. Se assim for, como a experiência não se cansa de comigo insistir, os lugares-comuns tornam-se recursos fáceis, acessíveis e utilizáveis em toda e qualquer circunstância dada essa desventurada superfluidade que define a sua natureza. Emerge daqui, desta possível mas incómoda verdade, a sedativa banalidade que o tempo faz com que enseque um qualquer valor argumentativo precedente, favorecendo e proporcionando adesões práticas e mecanistas, quando não aquiescências intencionalmente maldosas.

Acrescentarei ainda, tenho para mim, que a razão maior para que tal aconteça é que os lugares-comuns relacionam-se bem com o que é vivenciado como habitual e que este sentimento feito reconhecimento (puro e humanamente muito próprio) tonifica-se mais ainda com o que importa sagazmente considerar-se de normal. Nestas naturais, engenhosas e distrativas circunstâncias, num impulso só se passa do que se faz ao que se deve fazer, ratificando a norma que robustece lamentavelmente o acostumado que lhe dá berço.

Ora, toda esta lengalenga vem a respeito dos valores da honradez e da responsabilidade que naturalmente acompanham os compromissos e as obrigações que se estabelecem e aos quais se está (como é natural) impelido moralmente a satisfazer. Aliás, o precavido Passos Coelho fez questão, embora acabrunhado e abaladiço pela sua consciência agitada, de o lembrar há dias. Mas, afinal, do que pretendo falar? Dos compromissos – daqueles que hoje não se podem ignorar – quer com a troica, quer com o povo português, realizados pelos ditos “partidos do arco governamental”. Há um compromisso que se estabelece com a CE, BCE e o FMI e um outro com a democracia com base num “show” eleitoral sancionado (quer se queira ou não) pelo voto. Em traços largos, largos embora irremediavelmente contundentes, a dificuldade está em enxergar como a dita consonância (com PS ou sem ele) vai orientar-se perante a impossibilidade prática de respeitar ambos os compromissos.

Caracterizando a dificuldade exposta, poder-se-á dizer que à contradição dever-se-á acrescentar a incompatibilidade. Quanto à contradição, ela torna-se evidente; ninguém se pode comprometer com uma determinada proposição e, ao mesmo tempo, aventurar-se com uma outra que a negue. Todavia, se a contradição – e o termo é decididamente simpático – lesa a credibilidade de um qualquer exercício da política que nela assenta e que, sobretudo, enfraquece o valor e a autoridade da democracia representativa, a incompatibilidade só é possível dissimular suspendendo, por vontade de alguém, uma das suas proposições. Neste particular, e ao que se vê, cumpre-se (assim) o que a Manuela Ferreira Leite sugeriu faz tempo; suspenda-se a democracia e falseie-se a representação. Ora aí está, na intimidade da hipocrisia, é o que temos. Por isso, a democracia saltou para a rua e aí vai recuperando a vitalidade que o institucional (em absoluto) tem vindo a perder. E é em tempos como este, que se capta melhor a importância política e social, porventura decisiva, da democracia participativa e comunicativa que a representação e as suas instituições, com cínica negligência, desconceituam. Para mim, a rua já me é familiar. Não estranharei …

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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

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OS DEUSES JÁ SE FORAM

 

auguste-rodin-iris-e28093-mensageira-dos-deuses-1895Nos momentos em que sentimos a necessidade de alcançar o passado predispomo-nos natural e candidamente à cultura misteriosa do sensível. A descoberta de impressões, que se protegem atrás das memórias desencarnadas pela persistência das narrativas repisadas, funda uma singular devassa ao mundo dos segredos guardados que silenciosamente em nós repousam. Revolver o íntimo sem receio do que se resguarda nas profundezas dos nossos corações é recriar um melancólico regresso ao tempo em que os nossos pais eram deuses e as suas verdades nos davam em absoluto um sentido protegido do mundo.

Era o tempo que pouco se desvendava em dissentimento ao muito que se amestrava graças às certezas altivas dos pais e dos avós, bem escoltados pela férula temerosa dos professores e pelas reprimendas celestiais dos padres e dos seus indiferenciados mas indefetíveis embaixadores. Família, Escola e Igreja conluiavam e acertavam através de uma moral comum uma invenção severa do Bem e do Mal. Deste modo, na intimidade desta ordem estabelecida, a singularidade possível diferia-se para mais tarde, para um outro tempo de maturação e de fúria que em harmonia educavam o orgulho e a liberdade da sua rebeldia.

Inevitavelmente crescemos, por vezes revoltos sem saber bem com quem e por quê. Apenas nos fomos (e vamos) apercebendo que os pais parecem cada vez mais pequenos até se tornarem iguais a tantos outros pais. Os professores tornaram-se (ou tornam-se aos nossos olhos e à medida que o tempo passa) simples e dóceis pessoas e os padres – esses - figuras vulgares ou até protagonistas injustificados. Começou (ou começa então) a viagem das aventuras e das peripécias que fizeram (ou fazem) a experiência incomum e indefinida da nossa liberdade e responsabilidade. Voltando muito atrás ou mesmo recomeçando quase de novo, perto do nada e, seguramente, na companhia da nossa forçosa mas vital solidão.

Os argumentos frios e precisos da razão disputaram (ou disputam) assim com as imagens e as emoções a construção de nós mesmos no manente juízo do apreço em que nos tínhamos (ou temos). O tempo mudou e não pára de mudar e com ele todos nós vamos mudando. De lugares, do sentido que atribuímos a esses lugares e, sobretudo, das emoções que acompanham esses movimentos de mudança. Entregues a nós próprios e à nossa liberdade sentimo-nos sempre na necessidade de encontrar uma ciência particular para moderar as emoções libertadoras que nos incitam a ser nesses cursos de transformação. No entanto, sem pressas de identificações favoráveis a subordinações acomodadas de superfície. A reinvenção de nós próprios, seja ela qual for, não dispensa uma bússola feita de uma engenharia capaz de congraçar as lógicas da reflexão e da identidade. No essencial, tendo por projeto de assim podermos humanamente evitar delegar nos outros o completo encargo de esclarecer a nossa própria existência.

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domingo, 12 de agosto de 2012

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CUIDAR A LIBERDADE SEM TEMOR…

 

POEMA-DA-LIBERDADENão há química que amigue de modo prolongado a liberdade e o poder. A paz entre ambos perdura o tempo de descanso necessário, o bastante para a relação se perder nos perigos que consente. Em conformidade, ao olhar supino do poder reage de pronto a resistência com o seu jeito hábil e insolente. As relações de poder jamais se imortalizam.

Deste modo, à folga da paz sobrevém a contínua fadiga de uma obstinada luta, sempre aberta, entre as forças que brigam. A provisoriedade da harmonia, ao contrário do que aparente, exibe a verdade ininterrupta da faina política insculpida no conjunto da existência social. Mais do que deslindar o que somos, interessa enjeitar o que não se quer ser por ordem dos tempos.

Da consciência do padrão, da norma e da disciplina decretados à militância consequente dos juízos que se formam, aí radica a liberdade que a determinação, a vontade e a coragem vivificam. Sem pastorícias, confissões ou relatórios de almas desprecatadas ou, ainda, de outros acrescentos vanguardeiros de saberes incertos (mas legitimados) dedicados ao amparo conformado das subjetividades e das individualidades.

Ao contrário, importa ocasionar e diligenciar saberes de incompatibilidade fundada na sagaz recusa ao poder, captando que este antes de ser repressivo é fecundante e persuasivo. Inicie-se por suspeitar dos lugares-comuns, das verdades repetidas e das obviedades sombrias, tendo presente como nascente primeira dos direitos os que nunca (e em momento algum) se poderão ceder; os direitos à vida, à liberdade e à procura da felicidade.

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sábado, 11 de agosto de 2012

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O MONÓLOGO DA CEGUEIRA ECONÓMICA

 

nl17Ao folhear o “Le Monde diplomatique” (Edição Portuguesa) de agosto de 2012, dele anoto três simples apontamentos de uns tantos escritos distintos.

1ª nota (A lei dos bandidos)

Serge Halimi alude em artigo que, todos os dias, o nível da Libor é estipulado por uma vintena de grandes estabelecimentos financeiros e que este ajusta o padrão a transações num montante de 800 biliões de dólares, empreendidas particularmente no mercado dos produtos derivados, acrescentando: “Os montantes em causa são de tal forma faraónicos que encorajam a imprensa não financeira a concentrar sua atenção em pecadilhos, mas de escala humana, dos pais que recebem abonos de família sem garantirem a presença dos filhos na escola aos assalariados gregos que completam os seus magros rendimentos arranjando trabalho não declarado. Para estes está reservada a ira dos governos e do Banco Central Europeu”.

Pois então, não mandar os filhos à escola e ainda por cima acumulares? Dá de frosques e porta-te mas é bem…

2ª nota (Universidades, 20 anos depois)

Sandra Monteiro menciona, por sua vez, que a composição da estrutura social do ensino superior tem vindo a sofrer, nos últimos anos, uma forte elitização. E os números avançados são (por si) elucidativos. Assim, 9, 9% da população portuguesa de rendimentos mais elevados, em 1994/95, ocupava 14, 4% dos lugares. Em 2010/11, essa percentagem subiu para 38,2%. Por outro lado, no que concerne à classe média, constata-se o inverso; em 2004 eram oriundos dessa camada 74,1% dos estudantes, em 2010 essa percentagem baixa para 43,8%.

Olha, olha! Escola para todos? Não querias mais nada? Vai mas é trabalhar, malandro, para saberes o que é a vida…

3ª nota (Jovens jornalistas: entre o sonho e desesperança)

Liliana Pacheco ao debruçar-se sobre o desemprego e a precariedade dos jovens jornalistas também nos dá alguns números esclarecedores. Dá-nos a conhecer sobre o sector dos media em Portugal que, entre 2008 e 2011, o mercado de publicidade no nosso país perdeu quase 200 milhões de euros, o que significa uma quebra (nesse período) de 26%. Desta contração, estima-se que, entre 2006 e 2010, as empresas dos media em Portugal tenham perdido cerca de 500 trabalhadores. Tendo presente estes números e um quadro progressivo “de concentração de cada vez mais órgãos de comunicação em cada vez menos proprietários”, é fácil de perceber que é complicado, no plano deontológico, um jornalista argumentar com quem por esses deveres e regras não se governa. Mais fácil ainda será entender que a dificuldade do jornalista cresce à medida da precariedade do seu vínculo laboral.

Em jeito de síntese, vale a pena citar a última das suas considerações:

Se a precariedade se constitui como um problema grave nos nossos modelos de trabalho e em todas as profissões, no jornalismo acarreta ainda maiores consequências, já que põe em causa o princípio da liberdade de imprensa. Esta não deve ser encarada como um privilégio dos jornalistas, mas como um meio indispensável à garantia da liberdade de expressão e do direito dos cidadãos a uma informação livre e independente”.

Atina-te, ó palerma. Liberdades e direitos têm preço. Se não sabias, ficas a saber. Põe-te a milhas e deixa-te de retóricas…

Como é óbvio, muitas outras notas poderiam ser acrescentadas a estas que, escolhidas apenas por serem de campos e de natureza diferentes, não deixam (no entanto) de constituir sinais de uma mesma realidade, ou seja, sinais representativos das múltiplas estratégias que fazem funcionar ou manter o dispositivo neoliberal do sistema. Um sistema feito monólogo injuntivo da cegueira económica sobre a insubmissão democrática.

Democracia? Tá bem, tá bem. As nossas leis cuidam disso e o monólogo faz o resto…

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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O FUTURO E OS SEUS ABRIGOS

 

artisticas-4O sentimento de um mundo frenético faz com que o tempo escasseie na tarefa demasiada humana de o entender. No desconhecimento sentido intolerável, reconhecemo-nos ameaçados mesmo sabendo que o tempo, esse tempo que parece faltar, é uma criação que nos transcende. Daí, o desamparo narcísico que nos enrola na demorada busca de calmas representações ou (ao invés) na angústia temerosa e bacenta das culpas indeclináveis.

Insatisfeitos e nostálgicos, despontamos o passado que se transfigura num confortável mas ilusório porto de abrigo. As memórias amigáveis de encantamentos experienciados (ou supostamente vividos) despertam assim, não futuros sabidamente improváveis, mas apenas movimentos ondulados e errantes de fugas e procuras que indefinidamente se equivocam. Desse desacerto, germinam as múltiplas e diversas especulações que buscam as leituras de uma realidade que teimosamente nos escapa.

Disputam-se assim racionalidades, propõem-se outros olhares e produzem-se diferentes realidades. Do mítico ao científico, do religioso ao político, as teorias veiculam distintas possibilidades e sugerem ordens que melhor prometem confortar as nossas angústias e acudir às nossas perplexidades. Aliciam-nos aquelas que nos parecem oferecer as representações mais tranquilizadoras, esquecendo-nos que a transferência é um investimento imaginário tornado mecanismo de defesa na procura apressada do conforto para o nosso desamparo.

Digo bem, uma procura apressada e, rigorosamente por isso, precipitada. É mais cómodo aceder a uma ordem supostamente universal e imutável, quiçá sagrada, do que acolher a possibilidade da realidade ser uma construção social e histórica, incontornável e intrinsecamente conflitual. É nesta conflitualidade (e numa perspetiva que admite a natureza fundadora da divergência) que o valor da transgressão se afirma, não só desafiando o saber e o poder instituídos como também construindo as vias para outras verdades eticamente necessárias que nos carreiam a diferentes mas necessários e mais solidários abrigos.

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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

domingo, 29 de julho de 2012

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OS SINAIS QUE FAZEM VALER A (IN)JUSTIÇA

 

justica-cega-21A palavra (in)justiça sempre foi, e hoje mais, um recurso ideológico utilmente adulterável que, na sombra dos interesses e dos poderes que nela se acobertam, se finge em conceito substantivo de uma verdade conveniente - cambiada em socialmente necessária -  surfando (sem exigência) a onda fácil da presunção própria. Arrogante, nestes casos, a ideia de (in)justiça apresenta-se insensível à particular e censurável extorsão de proventos e exibe-se indiferente, no soberbo devaneio da inventada essência fixada, às decorrências dos seus interesseiros e miméticos usos.

A ideia de (in)justiça, como muitos outros valores, desvalores e conceitos, faz-se fugidiça quando a intentamos alcançar para, nesse enleio improvável, desafiar e ousar definições. No entanto e em contrapartida, é útil lembrar e aclarar que esses valores, desvalores e conceitos, à qual a (in)justiça não foge, fazendo parte do nosso quotidiano e aí repetidamente revolvidos, invadem os mais discretos diálogos, supostos e atinados juízos ou ainda cândidas e simples ações.

Neste contexto, reconhecer comportamentos justos ou descabidos é, contudo, bem mais remansado do que pensar a justiça nos seus atributos e qualidade intrínsecos. E é aqui, na dificuldade ousada de procura da sua perfeita representação, que habita o objeto de uma saudável, incontornável e paradoxal disputa de sentidos e de verdades nem sempre convergentes ou mesmo amigáveis.

Considerar salutar a disputa, ao mesmo tempo que se reconhece a sua permanência e inevitabilidade, não deve conduzir ao desalento do relativismo inconsequente. Bem pelo contrário. A (in)justiça, sendo tema de uma luta irrefutável, o seu conceito e a sua conceção não o são menos. Mas conceitos e conceções à parte, o uso discursivo (político e ideológico) da ideia de (in)justiça, dá-nos sinais expressivos que, sob o ponto de vista das (des)igualdades, a habilitam e a legitimam.

Assim, a título de exemplo, alguns enfocam o sentido da (in)justiça nos rendimentos médios e baixos, quando não nos minguados subsídios e apoios sociais. Outros, ao contrário, clamam contra os salários ostentosos e a amontoação de reformas obscuras. Aqueles, com o argumento da indolência e da improficiência de alguns excitam a discórdia que lhes é preciosa. Os últimos, inculpam a exploração, a perversão e a agiotagem que os entretecem. Conceitos e conceções à parte, alguns destes sinais são ilustradores e denotativos sobre o que se proclama e se protege. E os sinais poderão, em muito, ser multiplicados. É uma questão de vontade e perquirição empenhadas na necessária e atrevida significação desses prenúncios …

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domingo, 22 de julho de 2012

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O DIABO DO BISPO EM FIGURA DE GENTE CAUSOU FERNICOQUES

 

PachecoEstou aposentado, e para quem ainda não deu por isso, carrego comigo a atendível responsabilidade de uma estimável superioridade. Quando fico capaz, depois de ter estado achacado, já não pergunto ao médico se posso no dia seguinte ir trabalhar. Apenas cuido de vivificar a vida dando largas à minha boa ou má disposição com as asas da liberdade recuperada. Não escapo à presa do achaque para impreterivelmente me enfiar num diferente padecimento a que se chama trabalho, suportando gente enfermiça que está porventura convencida do contrário. E como estou felizmente bem de saúde, cá vai…

Ora, o presente quadro de graça associado a este desimpedimento para a liberdade suscita, para quem dela saboreia, como é o caso, naturais e sadias insolências que convém habilmente abalançar para cativar a estima que interessa e arredar a desinteligência que agasta. Num livro há tempos lido, o autor citava um poeta romeno do século 19 que, não assegurando exatamente isto, me estimulou a testificar que as pessoas que prezam a vida em liberdade cometem mais loucuras do que as pessoas que se regem pelo impulso da razão conformada e cinzenta, alertando (no entanto e de imediato) que as insânias destes últimos, soturnos e fastidiosos moralistas, são sempre bem mais graves, peçonhentas e perigosas.

Em consonância com o poeta, tenho para mim que a prática difusa do politicamente correto se abastece sobremaneira no lado pardacento das razões convenientes. Por isso, este correto político autoriza ardilosamente que se diga não, embora nos limites óbvios e espremidos da elegância flutuante e acertada do profícuo peso-conta-e-medida. O que provavelmente muita boa gente não se apercebe ou não capta é que esta louvada cortesia proíbe que se diga não ao que ela patrocina não ter escolha. Ora, os prezadores da vida em liberdade, os tais dos atrevimentos e dos excessos, numa insistente e saudável experiência de impedir o sequestro da sua subjetividade, transformam o ser do não interditado por um outro ser do não; o não do resgate, porventura da transgressão e repetidamente da inconveniência.

Note-se todavia que a interdição folga, mais do que se presume, no cálculo de uma antecipada razão que, na intimidade da sua vontade bravia, enjeita sensibilidades e abomina emoções, sobretudo se as pressagia intrínseca e genuinamente humanas. É no silêncio deste deslizar melodioso da interdição para o arbítrio da incriminação que a panóplia dos poderes e das suas grotescas figuras tratam de aclarar os marcadores da apetecível ordem discursiva e definem os seus limites. E é igualmente na prolongação desse comedimento, aparentemente inócuo, que a forma e a substância do que se diz passam pelo crivo do mimetismo impercetível das relevâncias. A forma e a substância perdem o pé à sua verdade (e ao seu sentido) e passam (deste modo) a valer pelas consequências do que é conveniente. O Padre Manuel Morujão, da Conferência Episcopal, tem toda a razão; o que importa é que se fale verdade. E o Bispo Januário Torgal Ferreira vozeou a “nossa” verdade, apesar dos desagradáveis fernicoques causados ao ufano Aguiar e à pedante Avilez, entre outros solícitos papagaios. Bem haja, senhor Bispo.

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

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O ASSASSINATO ECONÓMICO DE BRAÇO DADO COM A VIGILÂNCIA CORRETIVA DOS CHACAIS DA CIA

 

cny_cia_cia_db[1]Jornadeando pela FNAC, abalancei-me a adquirir um livro de Santiago Camacho intitulado “a troika e os 40 ladrões”. O autor é apresentado no verso da capa como escritor e jornalista cujos escritos têm como denominador comum a denúncia e a polémica, o que em si logo me arrepanhou. Acresce (no entanto) que os seus temas prediletos afinam, pela suspeição, com alguns dos meus, ou seja, o das regiões heréticas das sociedades secretas, dos serviços de inteligência e das teorias da conspiração. Contudo, confesso que o crivo do índice foi para mim o decisivo safanão motivacional para a sua aquisição mais do que o afadigado e reiterado conteúdo da apresentação inserto na contracapa. “Os truques sujos”, entre outros, excitou de imediato (e libidinosamente) o meu desejo abespinhado em tragar os malandros da sujeira.

O texto acusativo das patifarias apresenta-nos um homem de nome Jonh Perkins que, nas suas “ Confessions of na economic hit man”, historia como é que através de uma associação/firma de malfeitoria/consultoria (Chas T. Main) se formou e se promoveu em assassino económico. Ele próprio esclarece que este tipo de criminosos são “profissionais altamente remunerados que lançam armadilhas de milhões de milhões de dólares aos países do Mundo. As suas ferramentas de trabalho são relatórios financeiros fraudulentos, manipulação de eleições, subornos, extorsões, sexo e assassínio”.

Numa leitura apressada, e em apenas meia dúzia de páginas lidas, apurei que Perkins perseguia nas suas incumbências profissionais confundir os países mais pobres com enormes somas do Banco Mundial e do FMI com a garantia certa de que essa abundância era para aplicar em projetos investidos em companhias norte-americanas. A esta impiedosa caução, pelos vistos, outras exigências se anexavam materializadas num outro tipo silencioso de proveitos em domínios como o dos recursos naturais do país, da cooperação militar e de apoio político. Mas, e o que acontecia aos dirigentes que não aceitavam, pergunta Perkins, espicaçando a curiosidade salivante do leitor?

Perkins, dá-nos então conta dos casos dos teimosos e embirrentos presidentes Jaime Roldós (Equador) e Omar Torrijos (Panamá). O que lhes aconteceu? Morreram ambos de acidentes de avião. Todavia, não fossemos nós cogitar candidamente numa possível casualidade, Perkins esclarece que as suas mortes não foram acidentais. E acusa; os presidentes Roldós e Torrijos foram assassinados “porque se opuseram a essa fraternidade de corporações, governos e elites bancárias cuja meta é o império global”. E vai mais longe, completando; quando os assassinos económicos falham, há outros atrás deles que levam a cabo a tarefa. São eles, diz o penitente Perkins, “os chacais da CIA”. Tal e qual…

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