sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

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A PROPÓSITO DOS LABIRINTOS DO SABER E DA COMPETÊNCIA

images (5)Sou daqueles que ouso prezar o trabalho de competências no domínio da educação e da formação, escolar e/ou profissional, não obstante o meu confesso reconhecimento da extensa complexidade do tópico e da disputa densa que o cerca. Expressa na sua reconciliação sempre incerta com o saber, a controvérsia filosófica que os opõem apresenta-se como um dado constante e comum da polémica apesar das diferenças de partida dos pontos de vista adotados. Resultem estes de modelos que buscam a organização de comportamentos eficazes face a uma ordem de situações ou de outros bem distintos que se empenhem no desenvolvimento de capacidades favoráveis à inventividade de respostas a novos incitamentos.

Não sendo um versado na matéria, atrevo-me a acreditar que a conceção do saber da qual se parte para o debate pode favorecer ou, pelo contrário, embaraçar a natureza e a conflitualidade da sua dinâmica relacional com a competência. Na minha perspetiva, como é óbvio e pacífico, o saber não se confunde com opinião reduzindo-o ao que pensa e crê o sujeito. Todavia, menos evidente e aceite, tampouco se deve tomar o saber como algo liberto dos universos representativos e simbólicos do sujeito que pensa e crê. No plano das aquisições, do conhecimento aos saberes de ação, as ideias de apropriação, de sentido e de uso não devem ser desatendidas em total amparo da pureza do saber, enquanto conhecimento isolado e concebido como resultado impoluto, indiferente ao processo que o produziu e ao projeto intelectual que o convoca.

Conhecer não se estriba na cândida nomeação de conceitos nem no decoranço de enunciados ou definições, nem tão-pouco na aprendizagem mecanizada da algoritmia procedimental. Na sua energia nutriente, conhecer significa compreender e explorar o poder do saber tornando-o numa ferramenta de utilização dotada de sentido e intencionalidade. Se assim for, e em consonância com esta linha de abordagem, o conhecimento não sendo em si nem por si uma competência, ao cultivar-se o seu poder de uso intencional, teórico ou instrumental, ele inscreve-se constitutivamente na formação e no desenvolvimento de competências e destas se provê. Isto posto, ao valorizar-se esse exercício de uso no domínio pedagógico reconhece-se a utilidade educativa e formativa da atividade na apropriação e significação fundamentada dos saberes, tendo ainda como valor acrescido a sua focagem no sujeito aprendente.

O saber exercita-se e desenvolve-se assim através do seu poder de uso reflexivo, extensivo e exploratório, desde os mais comuns e repetitivos às atividades mais exigentes e criativas, incluindo – é bom lembrar e acentuar – os usos que envolvem a dimensão simbólica do conhecimento. Neste quadro interpretativo, as competências (tomadas como poder de um saber em uso intencional) desvelam-se na concretude dos lugares (sociais, culturais ou profissionais) por mediação decorrente de dissonantes e desproporcionados universos simbólicos. Acresce (porém) que todo o fenómeno que envolve saber e competência, para além da inscrição em si das dimensões (representativa e simbólica) atrás referidas, subsome uma outra de natureza relacional. Trata-se aqui de um outro poder que, pela sua mudez presumida, encrenca inutilmente o desejável aclaramento do debate. O objeto torna-se deliberadamente impreciso e a discussão reiteradamente vacilante, quando não … ociosamente desencaminhada.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

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A PERMANÊNCIA DA MILITÂNCIA INSURGENTE

corrente-criticaA aposentação é uma fase da vida que sucede a muitas outras, umas por de mais inquietas, outras (in)utilmente seguras e outras ainda (talvez, poucas) de remanso aconchegado. Com a reforma apressa-se uma outra casta de desassossegos (e, sobretudo de ruturas) que suscita, na vida de cada um, inopináveis intimidações e/ou instigações, na contraditória presença de uma vida que se ausenta e de uma outra que, embora ainda ausente, se presta (por cumplicidade) ao diálogo da reinvenção. Apesar de alguns ganhos esperados, as perdas existem e o espectro da desagregação persiste em atrair (na sua peculiar crueldade) depreciações que envelhecem. Posto isto, interpelar (com convicção) o círculo e a materialidade do que (realmente) pode fazer sentido torna-se um eficaz antídoto para, com vantagem, alcançar um atraente porvir pese embora o que se abandona do tempo vencido.

Enquanto o corpo e a mente – solidários – permitem aspirar desses proveitos, há que cuidar desse bem, aliás cada vez mais escasso, destinando desígnios ao tempo incerto que o compõe. Confesso, que uma das atividades por mim adotada, por arreigada oposição ao politicamente conveniente, está no empenhamento aperfeiçoado da insurgência como prática libertadora de capturas múltiplas cevadas nesta (e por esta) paradoxal democracia. Nela, cria-se e faz-se prosperar uma cultura surreal (política e cultural) celebrando-se liberdades que, com descaro, se abastardam na densidade (própria e estranha) de tuteladas obediências que se impõem num angustiante crescendo. Dar forma à razão genuína, sentida e vivida como verdade, torna-se (assim) num experimento de recomeçados questionamentos e de infindáveis afinidades de reação e resistência.

Aqui, ali ou em todo o lado, não se pode dizer tudo, não se pode falar de tudo e muitos não podem sequer falar. O tabu, a ritualização e o privilégio dos que decretam e podem, aclaram assim os limites do dizível assinalando as sombras da inclusão (ou os territórios da exclusão) onde as singularidades se silenciam e os medos se escondem. O politicamente conveniente não é, nem poderia ser, um lugar rumoroso. Ele nada anuncia e a discrição é o seu poderoso disfarce. Habita (por isso), na excelência do silêncio, os lugarejos onde se engenha o domínio e a acomodação das verdades e dos saberes úteis. Verdades e saberes que obedecem a vontades de poderes combinados, embora nem sempre amigáveis, que dão forma e traçam os roteiros, beatos e amáveis, donde irrompe o dizível. A insurgência tem uma outra vontade, provavelmente avessa, não desconhecendo que os poderes renascem sempre e que sempre reagem onde a liberdade espreita. Assim sendo, a militância da insurgência regressa, igualmente sempre, ao prólogo de um texto que o legitima acreditando que o texto que sucede seja distinto, naturalmente para melhor…

Publicado na revista ESCOLAinformação (SPGL), de janeiro de 2013

Imagem retirada DAQUI

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NA FORMATIVIDADE, O PODER E O DEVER DO TRABALHO IDENTITÁRIO

IMAGEM 1Como nota introdutória, direi que nos últimos dez anos, resultado da vida e das suas inescapáveis circunstâncias, desfrutei da aprazível fortuna de vivenciar e descortinar, através da partilha que soma valor e pelo trabalho reflexivo que neste se reconhece, novos e diferentes reptos no âmbito cercado e enredado da educação e da formação[1].

Dito isto e no que à formatividade diz respeito, a proximidade com gente adulta – sobretudo por entre a leitura e a interpelação das suas experiências biografadas – reclamou de mim a exigência de cuidar melhor de alguns dos conceitos medulares do campo educativo, e não menos das suas relações, à luz (sempre polémica) das suas procedências e disseminações, dos seus contextos de significação (históricos e políticos) e das teorizações que daí (de)correm.

Os conceitos envolvidos neste indefinível perímetro temático, sendo construções representacionais, facultam naturalmente entendimentos nem sempre concordantes (ou mesmo desencontrados) sobre os seus próprios objetos, não obstante a fundamentação atendível que os configuram. Deste jeito, tal confirmação autoriza a ilação lógica e plausível que os juízos, sejam eles sobre situações teóricas ou feitos em contextos de determinados de usos, possam colher (desses entendimentos) apenas uma e não a significância exclusiva.

Educar, formar, aprender e ensinar relacionam-se entre si de modos não só diferentes como desiguais tendo em conta que os sentidos aí incorporados se agilizam ante o entrecruzamento de diversidades marcadas por preferências, encadeamentos e recursos significativamente distintos e, mais relevante ainda, diversidades intensamente caracterizadas pela desigualdade e pela desproporção. E é com base nesta verdade fragmentada e condicionada, animadora da modernidade burocrática de programas institucionais, que se articulam (em silêncio) as reprimidas dimensões fundadoras e holísticas da esfera educativa, das quais (aqui) destaco as dimensões do desenvolvimento, das dinâmicas identitárias e das socializações.

Abrindo com a ideia de desenvolvimento, se num plano mais geral ela constitui uma inspiração totalizadora da política educativa e formativa, numa ótica mais individualizada, direi que essa mesma ideia se limita (por necessidade ou conveniência) à simplificável tendência aquando dos propósitos mais práticos e funcionais da escala retraída do ensino e das aprendizagens. Com efeito, importa dizer (e no estímulo que me encaminha, persistir) que não deixa de ser a conceção de (um qualquer) desenvolvimento que dá feição e trata de atribuir conformidade à tecedura relacional dos conceitos subentendidos, especificamente os conceitos que, neste breve texto, servem de referência (educação, formação, ensino e aprendizagem).

Parafraseando, com alguma liberdade, José Barata Moura[2], o homem faz-se – no seu fazer e no seu fazer-se – empreendendo sempre uma história rasgada em caminhos retraçados pelas determinações que vão acontecendo. Nesse jornadear, o homem é naturalmente determinado, capaz de determinar e, sobretudo, inquieto de se determinar. Hoje mais do que ontem, embora desde há muito, como detalhe, modelo ou prova, diria que a prevalência do económico, ao apresentar-se como uma qualidade primeira, faz com que o crescimento económico, no que respeita à educação e à formação, se torne um referente hegemónico e, com base nessa medida, se converta e se afirme no modesto e infundado equivalente político-institucional da ideia-rumo de desenvolvimento.

Num outro plano, e no que concerne às dimensões das dinâmicas identitárias e das socializações, com um incauto toque de atrevimento, acrescento que será naturalmente útil sugestionar (alegando e desafiando) que é na quotidianidade socializadora das aproximações (ao mundo, aos outros e a si próprio), como condição (ou mesmo, obrigação) de existir de um modo concreto e presente, que se significa e assim se aprende e, nesse envolvente movimento, continuado e aberto ao entranhável, se confere sentido ao conjunto de possíveis que se revelam à reinvenção contínua do que se é e, desse jeito, se vai dando forma ao próprio viver.

Aguardando não atraiçoar Bernard Charlot[3], e em apoio ao exposto, destacaria a minha concordância com a ideia por ele formulada de que a aproximação ao saber, feita de uma multitude de vizinhanças, “… não é apenas epistémica, mas é também identitária e social”. Dito isto, e na defesa axiomática deste meu intento, garanto que a experiência indica-me, e a convicção solidariamente adota, a ideia que é no quadro familiar de esquemas incorporados e estabilizados que, incontornavelmente, se radica e move a vital energia, embora partilhada, do diálogo íntimo e reflexivo que apadrinha a real predisposição de mudança e (com ela) a resiliência e o entusiasmo para caminhar no encalço do traçado desvio ascendente.

Para tal, os acontecimentos (passados e presentes) contam e só contam verdadeiramente quando, pela análise reflexiva, em momentos de descoberta, de construção e, nesse tentador e intenso curso, se transfiguram em impulso identitário. Rejeitar pura e simplesmente, querer algo a qualquer preço ou escolher apenas o que nos é oferecido, repete-se numa oportunidade de liberdade demasiado curta para uma consciência que se ambiciona (trans)formadora. A laboriosa (mas penosa) busca de caminhos próprios, reconhecidos por estes com exigência e verdade, carecem de um outro fôlego que alargue horizontes e comunique futuro e confiança a quem a eles se entrega.

Porém, distanciar-se das socializações que dificultam aquela entrega requer uma incessante tomada de consciência, e com esta, uma atitude subjetiva que proporcione um ser (um estar) disponível para o questionamento – inevitavelmente, conflituante e conflituoso – das imbricadas identificações que vão dando sentido às vidas de cada um. A subjetividade coabita, como se sabe, numa ligação estreita, com o mundo objetivo, pelos efeitos de contexto, agitação continuada das relações e das interações ou (ainda) pelas memórias resistentes que não se destroem.

O processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), foi para mim uma experiência notável neste campo. Não pretendendo torná-la transversalmente representativa, considero que o processo de RVCC não é (nem foi) de todo um exemplo inócuo. Para muitos dos adultos, a realização do processo e a materialização reflexiva da sua historicidade, mais do que a certificação obtida, valeu pelo trabalho identitário alcançado no decurso possível de um distanciamento representacional progressivamente (re)conquistado, com expressão visível e explícita na (trans)formação pessoal e social que, de modo confesso, não lhes foi indiferente.

Finalizando, estou certo que aqueles adultos apreenderam que a identidade é uma invenção contínua que se tece com material não inventado. Por isso, compreenderam também que a identidade não é um dado mas um processo pelo qual as bases da socialização são trabalhadas e ativadas, incluindo as mais sólidas. Se assim é, como admito que seja, pensar a educação e a formação, nomeadamente de adultos com menor escolarização (mas não só), não pode nem deve dispensar este delicado mas necessário trabalho identitário. Ao menos, uma maior atenção e uma mais eficiente consideração por ele, uma vez que (a sugerida e enaltecida) educação permanente e emancipadora não deixa de por aqui passar. Na verdade, nascimento não é destino mas tão só um começo…

Publicado na revista ESCOLAinformação (SPGL), de janeiro de 2013


[1] Entre 2002 e os dias de hoje, assumi as funções de Avaliador Externo no processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) e em diferentes Centros de Novas Oportunidades, inseridos em diversos contextos sociais e culturais.

[2] Em “Para uma Ontologia da Educação”, comunicação feita no Conselho Nacional de Educação aquando da discussão sobre as bases da educação.

[3] Citado por Ana Maria Costa e Silva, em “FORMAÇÃO – Espaço-tempo de mediação na construção de identidade(s)” (2007: 164).

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

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A SUPERFÍCIE DO FUNDO

m-002_038Do orçamento de estado ao relatório do fmi, do governo para o dito fundo internacional. Um “bypass” cúmplice com significado político. No distrativo “zapping” noticioso inscreve-se (com desplante) o espectro decisório do Tribunal Constitucional. Assiste-se e requinta-se assim o desígnio da teatralização e da aliciação. É o mercado da atenção na sua ardilosa dramatologia da credibilidade conveniente. Sabe-se então que o estado de direito já não vale por si. Torna-se disputável e todos o reconhecem, a começar pelo governo que do facto procura dividendos.

As opiniões contam. Por isso, mais vale prevenir impondo limites ao opinável. Com sentido de responsabilidade, diz-se. Como qualquer mercado, deste modo, urge capitalizar, investindo e mobilizando. Na diabrura do gesto, a realidade converte-se no palco definidor da ordem útil das relevâncias. Naturalmente, com a cumplicidade amigável dos poderes mediáticos e dos seus capachos. Não a favor da Democracia e do seu aprofundamento. Antes do seu trágico esvaecimento.

O sentimento que se recomenda é (pois) o da contrição pelo pecado da avidez gozada. No limite, há quem já somou ao desacerto instilado a ideia de que está a mais. A casa deixou de ser aquela que pensavam ser a sua. A renda desembolsada e que lhes foi reclamada (repisam) não bastou. Mais, garantem nunca ter sido a bastante. Por isso, há contas por saldar e que só agora se apuraram. Não ao senhorio com quem se contratualizou. Mas a um outro que, pelos vistos, é senhor do senhorio e que os inquilinos desconhecem. Não há grana, levam-se as mobílias. Sem estas, o inútil frigorífico também pode ir. Despejo consumado, sobrevivem as paredes de um vazio onde apenas parece habitar uma cidadania descarnada.

 

No entanto, há ainda quem (obstinadamente) continue a chamar a esta casa, a sua casa; a casa da democracia. Citando Bertold Brecht, importa lembrar…

Pra onde quer que o expulsem, para lá

Vai a revolta, e donde é escorraçado

Fica ainda lá o desassossego.

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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

UM SILÊNCIO MALSOFRIDO

u136-Manos_dibujandoNeste período de solicitações desusuais, a liberdade desconjuntou-se por entre missões próprias da época e algumas escritas para outros endereços. Daí, este silêncio malsofrido para com este meu parceiro do grito argumentado. No entanto, duas daquelas escritas, colocá-las-ei aqui depois de publicadas na “ESCOLA/informação”, revista do SPGL (Sindicato dos Professores da Grande Lisboa).

A primeira das escritas termina assim; “ …O politicamente conveniente não é, nem poderia ser, um lugar rumoroso. Ele nada anuncia e a discrição é o seu poderoso disfarce. Habita (por isso), na excelência do silêncio, os lugarejos onde se engenha o domínio e a acomodação das verdades e dos saberes úteis. Verdades e saberes que obedecem a vontades de poderes combinados, embora nem sempre amigáveis, que dão forma e traçam os roteiros, beatos e amáveis, donde irrompe o dizível. A insurgência tem uma outra vontade, provavelmente avessa, não desconhecendo que os poderes renascem sempre e que sempre reagem onde a liberdade espreita. Assim sendo, a militância da insurgência regressa, igualmente sempre, ao prólogo de um texto que o legitima acreditando que o texto que sucede seja distinto, naturalmente para melhor”.

A segunda, num outro registo; “Finalizando, estou certo que aqueles adultos apreenderam que a identidade é uma invenção contínua que se tece com material não inventado. Por isso, compreenderam também que a identidade não é um dado mas um processo pelo qual as bases da socialização são trabalhadas e ativadas, incluindo as mais sólidas. Se assim é, como admito que seja, pensar a educação e a formação, nomeadamente de adultos com menor escolarização (mas não só), não pode nem deve dispensar este delicado mas necessário trabalho identitário. Ao menos, uma maior atenção e uma mais eficiente consideração por ele, uma vez que (a sugerida e enaltecida) educação permanente e emancipadora não deixa de por aqui passar. Na verdade, nascimento não é destino mas tão só um começo”.

Assim sendo, e depois desta justificativa, um “até breve” e – já agora – façam (o que está ao vosso alcance) por merecer um tempo mais respeitoso em 2013.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

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O ROSTO E A ALMA DO MONSTRO

wallpapers_monstros_e_demoniosEm jeito de acusação, acrimina-se o povo de ter gasto acima das suas posses como se a urdida overdose tenha brotado de um chão por cultivar. Trasvestidas a propósito, as sedutoras sereias da lavra e das melodias do bem-estar de outrora tornaram-se, na recentidade da agrura dos tempos, no seu avesso de íntegros “togados” das justas increpações. O uso hábil da contradição, costumeira nos reviralhistas, tem por serviço incutir nos outros responsabilidades que são muito suas e, se azo lhes derem, impô-las a esses outros por inteiro. Nesta melopeia moralista dos desmandos, e no que toca às presas aqui em conta, procura-se na subtil grosseria do gesto, dificultar que os sofridos se abriguem nas insólitas e execráveis “pieguices” e que, perante uma desconcentração improvável e a força obstinada de tamanha toleima, possam os niquentos comprometer o hino mavioso modulado naquelas duas vozes em denúncia à farra abjeta da misteriosa camorra.

Pois é… Cúmplice da insaciedade custe-o-que-custar do lucro desmedido, o engenho da fartura e das mais-valias fabulou interesses, engodou vontades, afeiçoou desejos inopinados, trapaceou consumos e, sobretudo, inventou conluiado o crédito atraente do-compra-agora-e-paga-depois. Novas racionabilidades assim se foram aflorando e, escorados neste habilidoso jeito, os prazeres prosperaram e sucederam-se no imediatismo turbilhonante de deleites necessariamente fugidiços. Encontrada a fórmula exata de espartilhar a lucidez dos sentidos, o circo do capitalismo consumista cultivou o seu chão, mercadejou tráficos, fez e desfez fronteiras e, com sagacidades e compadrices bem afinadas, foi encostando (sem rebuço) o Estado às cordas.

Deste estilizado desabafo, mais ideia e convicção do que entendimento entranhado no saber vivo dos peritos e das disciplinas da ordem, ressalta para mim a revigorante impostura da premissa política dos gastos desmedidos no proveito da sua útil e suscitada correlação com o pressuposto oportunista de estimular vantajosas más-consciências, de preferência subtraindo o indivíduo ao social coletivo. Deste fundo falseado (e nele radicado) despontam as razões traiçoeiras das práticas interesseiras (discursivas e políticas) de Passos&Companhia quando este(s), desfrutando da crise e do seu progénito “memorando”, apouca(m) o Estado nos seus méritos tendo em mente o rumo certo do oráculo neoliberal. A correção deseja-se assim radical e, neste vicioso e solto apetite, a regressão dos direitos sociais converte-se em desígnio nacional. Mas o rosto do projecto neoliberal revela-se de forma eloquente na sua incapacidade de assegurar um destino colectivo de segurança económica e justiça social [1]. Anuindo, vou no entanto mais longe; para mim, no monstro, pior do que o seu rosto repugnante, é a sua alma genuinamente endemoninhada.


[1] “Um modelo de insegurança social”, de Maria Clara Murteira, no LE MONDE DIPLOMATIQUE (Dezembro de 2012).

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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FEITIÇOS E MATREIRICES

6895061_4CuBUCom as marcas do tempo, reais ou imaginadas, o corpo demuda o espírito e, como tal, mais do que era costume, nem sempre acordo com aquela habitual boa disposição. No entanto, pior fico quando as ineptas moralidades, acuradas ou angelicais, sempre prontas e disponíveis a tudo deslindar, logo por essas manhãs mal-avindas, tecem ficções e alteiam palpites na ânsia de acalmar quem os espera impacientes. Ávidos e nervosos, esta gente inquieta, convertida em obedientes rebanhos – mediáticos, religiosos, políticos ou outros – escuta esperançosa, da voz atrevida de funcionários de verdades, ilusórias escapatórias que momentaneamente aquietam, não obstante o certo da sabida permanência da incerteza.

Neste ruído de fundo, reiterável e impercetível, tão enfadoso quanto vulgar, ouvem-se com adulação os clamores dos ascetas de todas as espécies, os verberativos teóricos do idiotismo, os ditames dos burocratas da política e, deste jeito feito bizarro acatamento, os taciturnos inermes das ditas tutorias creem alucinados nos seus servidores de dogmas carecentes. Pergunto-me, perante tão triste e debilitante décor, se será um defeito de fabrico dos humanos a vulnerabilidade que os conforma e os fazem prezar os amansadores que a todo o tempo contentam o insistente e irredutível enfado vivido na brumaceira das imperfeitas existências.

António Damásio, em “AO ENCONTRO DE ESPINOSA”, ao falar do poder dos afetos e da única possibilidade de triunfar sobre um afeto negativo, lembra o eminente filósofo quando este afirma que, para que tal aconteça, importa criar, pela razão fundada no raciocínio e no esforço intelectual, um afeto positivo ainda mais forte. É destarte que, neste contexto e linha de pensamento, Damásio recorda Espinosa citando-o: “Um afeto não pode ser controlado ou neutralizado exceto por um afeto contrário mais forte do que aquele que queremos controlar”.

No entanto, por kafkiano que seja, uma das mais infaustas patologias humanas é a extremosa deferência à ordem entediante do social convencionado. Pensa-se a vida com base em categorias que desencaminham a crítica e a sua pertinência, alienando-se daí as qualidades emancipatórias da realizabilidade (trans)formadora. Em resultado desta espécie de psicose, docilmente se enreda o indivíduo na sacralidade de uma realidade consertada na (e pela) prática hábil de infundados mas influentes poderes. Daqueles que todos reconhecem e refutam em voz alta mas (e sobretudo) de muitos outros obscuros mandos que abusivamente nos habitam mascarados, colonizando hábitos representacionais decisivos à ação e ao pensamento.

É certo que, quando genuinamente se crê cresce em nós a afeição pela crença. É próprio da condição humana. Porém, pelo consolo, partilha e reconhecimento, formam-se em torno dessa crença, naturais e inevitáveis pertenças. Umas mais abertas e permeáveis, outras mais cerradas e hierarquizadas. Umas cuidando da liberdade, outras desenvolvendo-a, outras ainda equivocando-a. Estando assim avisado destes feitiços e destas matreirices, defini para mim um princípio simples mas cautelar; correndo ousadias, deixei de me enamorar pelos poderes, designadamente abominando os que me apresentam verdades entufadas e me tomam por pateta. A dissonância cortês em nada me impacienta. Bem pelo contrário. Abespinho-me, isso sim, com a arrogância que impossibilita a crítica e renuncia ao exigente desafio do argumento. A falibilidade humana deste jeito a reclama e a reciprocidade a tal obriga. Falo da liberdade, à qual associo a razão fundada no raciocínio e no esforço intelectual de que Espinosa, com mérito, bem anuncia. Por respeito ao Outro, ao valor da Solidariedade e a mim próprio.

 

Imagem retirada DAQUI

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domingo, 2 de dezembro de 2012

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GRATO A NICOLAU SANTOS? UM ESCRITO QUE IMPORTA EVOCAR

jornalismoAcusamos hoje um tempo onde as liberdades de expressão, de imprensa e de empresa, como não podia deixar de ser, litigam legitimidades desencontradas. A obviedade das atrições daí resultantes, como se sabe, enleia os valores do jornalismo e da sua autonomia. Chama-se ao contraditório, entre outros, os critérios de independência, de rigor e de honestidade. Sem estes, ou sem as condições para o seu bom uso, trai-se a liberdade de imprensa e irremediavelmente desserve-se a responsabilidade social do jornalismo.

Esvai-se a ética, desencaminha-se a moral, afrouxa-se a lei e – nesta turbulência brumosa – os interesses, dos corporativos aos censórios de toda a espécie, açambarcam com destreza os consequentes mas tentadores extravios. Afloram então os valores editoriais e com eles força-se a vassalagem do jornalista à liberdade que lhe remanesce ou à serventia que aspira. Antes o enxovalho da obediência - quiçá prometedora - do que a penúria do desemprego ou a dor da incerteza. Ser-se pragmático não é assim (e neste contexto) condição de sobrevivência mas apenas e basicamente modo de vida.

Reconheço a simplificação do que acima está dito tendo perfeita consciência da complexidade do tópico em apreço, marcado como se sabe pelas múltiplas diferenças opinativas, quer de natureza histórica, filosófica ou política. No entanto, não deixa de ser no domínio dos media e nos tempos que correm de progressiva desregulação e concentração que, de modo conhecido e experienciado, a manipulação ideológica acontece sobre a informação, designadamente por parte dos poderes políticos associados aos grandes interesses económicos e financeiros. A comunicação social converteu-se assim e estranhamente, de modo amável, numa área auspiciosa de negócios. Acresce, contudo, que o sector financeiro há muito o havia enxergado e, sobretudo, a vem sabiamente confiscando.

A concentração das empresas neste campo do mediático, como se pode supor, não é apenas uma ameaça à liberdade dos jornalistas mas (no essencial e sobretudo) um espectro à liberdade de emprego. Os grupos de media constituem verdadeiros cartéis que, ao empregar a generalidade dos jornalistas e colunistas, ditam as regras e o futuro do trabalho daqueles profissionais. Qualquer jornalista que se porte menos bem ou se mostre incoadunável com um qualquer órgão de informação, apressa-se a esbarrar daí para a frente com muitas portas trancadas. É neste contexto ignominioso que o escrito atribuído a Nicolau Santos (ampla mas tardiamente divulgado) merece ser recordado, estimado e reconhecido. Como algures comentei, numa imensidão de sevandijas deparámo-nos com exceções que enobrecem o jornalismo e se engrandecem como homens. Como cidadão, pelo exemplo, estou sinceramente grato a quem o escreveu.

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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

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UMA ACHA PARA A “FOGUEIRA” DA ARGUMENTAÇÃO

 

imagesA economia desde sempre cortejou o político e o intentou desencaminhar. A finança, por sua vez mais ególatra, transmuda-se ela própria – nesta marcha desempachada – em pós-política. A dominação do dinheiro, vivendo de desigualdades e de injustiças, repudia colérico e sem pudor o protesto dos maltratados. Subliminarmente, adota e manobra deste jeito a ideia de violência como categoria ideológica. Naturalizando e neutralizando as iniquidades estrebucha arrebatado perante a insubordinação de quem as recusa. O capital financeiro (e não só) acultura e politiza diligentemente os valores de acordo com os granjeios possíveis. Artificioso, fantasia oportunas moralidades que acobertem a torpidade dos seus emudecidos propósitos.

Nesta linha neoliberal, diria que o PSD/CDS não só atraiçoou como abraçou o embuste eleitoral quando decidiu afrontar a dignidade do voto. Ao assegurar uma coisa e ao fazer uma outra totalmente adversa, a governação iludiu a ordem expectável violando a verdade do método que funda a democracia. Pergunto-me assim de que lado está o argumento atendível da legitimidade apregoada; do lado do governo (e dos que o carregam) ou do lado dos que protestam por se sentirem traídos e esbulhados? O monopólio da violência legítima do Estado (parafraseando Weber) convoca o aforismático “de que à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. O governo não o foi nem o parece , embora muito faça para o aparentar. Representando a improbidade com o caricato extra dos inocentes pines patrioteiros nas lapelas.

Neste lugar da política, da democracia, dos valores e das hierarquias, a legitimidade constitui-se na sua abstratividade formal (eleitoral) mas confirma-se na concretude coerente da sua ação política. Romper com esta ligação é dissociar o que está dependente e, em consequência, artificializar o regime tornando-o acidental. Eis o paradoxismo em que temos vindo perigosamente a cair. Separa-se o indivorciável e joga-se na hábil dissociação convocando o obscuro discurso económico e, com ele, instrumentalizam-se medos marcados pelas incertezas aí ideadas e prenunciadas. O protesto social generalizado, mesmo que não se goste, é uma resposta massiva à percecionada violência do outro feito governo. Assim sendo, neste lugar discursivo da política, da democracia, dos valores e das hierarquias, importa indagar então qual dos lados tem praticado mais e maior violência? E (sobretudo) onde estão afinal as raízes originárias da progressiva e atual conflitualidade que à violência pode levar? É que a civilidade do protesto também tem, como tudo na vida, limites …

Post-scriptum Neste contexto de crise – e num registo político-ideológico deliberadamente simplificado – direi que os ricos são aqueles que, em consciência, somam as suas rendas às custas do empobrecimento da generalidade. E já agora, para a burguesia anafada, não confundam a mesquinhez da inveja com o saudável sentimento de injustiça.

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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

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CRATO E A ENDRÓMINA SOBRE O MODELO ALEMÃO

 

nuno_crato4.paginaAs mudanças continuadas, mas sempre retomadas, no sistema educativo e formativo mostram que nada de essencial (afinal) se pretende alterar. O problema é de raiz e daí a insensível apatia em tocar ou coragem em pegar no que é medular. Nesta linha de denúncia, questiono-me se não seria conveniente intentar a "refundação" da escola (leia-se, espaços institucionais de aprendizagem intencional) tendo em atenção que:

(1) A educação e a formação se fazem HOJE ao longo da vida, em contextos e tempos muito diversos, tendo presente as circunstâncias, as possibilidades ou mesmo a necessidade de regressos à escola;

(2) Que o convencional tempo de escola não está HOJE, e ouso dizê-lo em absoluto, desligado da vida e do tempo de trabalho, reconhecendo que os saberes aqui adquiridos e os conhecimentos confirmados como escolares - que considero fundadores da premissa nesta linha de raciocínio - se influenciam mais do que comummente se trauteia;

(3) Que a evolução no campo das tecnologias de informação e de comunicação alarga e difunde HOJE múltiplas e dinâmicas fontes de relação com o saber e com o conhecimento, desafiando a escola a assumir novas e inovadoras responsabilidades nos domínios do currículo, da formação e do desenvolvimento, designadamente no que às  pessoas diz respeito;

(4) Que as pessoas constituem o primeiro capital na edificação urgente de sociedades mais amigáveis, saudáveis e equilibradas, tendo em conta que a cidadania não pode, HOJE mais do que nunca, consentir a sua captura por interesses marcados pela distância, pela controvérsia e pelo particularismo económico.

Nuno Crato, para mim, sempre significou (e não apenas HOJE) o revivalismo da arcaica dualização. No entanto, acolho como novidade o “seu” quanto-mais-cedo-melhor. O “seu” rigor, sempre (mas deliberadamente) indefinido, tinha (ou tem HOJE, politicamente) esse sinistro propósito; legitimar (e o mais prematuramente possível) as derivações que o 25 de Abril procurou em bom tempo invalidar. No plano intelectual (pois só circunstancialmente aconteceu ser um político útil), silencia na obscenidade da sua retórica e da sua ação o quadro inconfortável de partida. Uma sociedade injustamente desigual no que respeita aos recursos motivacionais de (e para a) aprendizagem, abstendo-me de anunciar outros, igualmente decisivos, como os que decorrem das brutais diferenças económicas e, obviamente, das contrastantes diversidades culturais daí resultantes, e não só. A saloiice do “seu” modelo alemão assenta nesta calculada e aprimorada farsa. E como embuste que é, procura através da desprezível trapaça, convencer os incautos de que ele (o homem do rigor incerto) propõe um caminho confiável e bem-intencionado. Simples e eticamente deplorável...

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