segunda-feira, 18 de março de 2013

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SE DEUS NÃO EXISTE, EXISTEM OS MERCADOS

25-abril-cravoSe Deus não existe, a ordem sem deus abre-se a outros poderes e superioridades. Os humanos, sem engenho e querer próprios, não podem ser abandonados aos seus medos. Novos e bondosos protetores despertam. Vão-se os sacerdotes e, nos seus púlpitos, afloram os prelados de um outro templo. Do sagrado lugar dos mercados. Contudo, para estes, os números traçam fronteiras evangélicas demasiado estreitas. Como tal, não as observam. Vão e querem ir mais longe na pregação. Dizem como deve ser, incriminam os que mal agiram e forçam os crentes do costume a fazer bem e já. Desentulham o lixo da política e medram pelos roteiros da ética. Nós, receosos de desacertar, tornamos os nossos medos ainda mais fundos. Saciamos encolhidos a nossa dependência e, sobretudo, a necessidade certa de a ela nos sujeitarmos. Sem inteligência e vontade. À espera do milagre. Como sempre, assentados na laje execrável da conformação.

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domingo, 10 de março de 2013

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FALAS BEM MAS NÃO ME ENFEITIÇAS

coutinhoAdmito a minha incomplacência mas João Pereira Coutinho causa-me enfado ideológico e, por epidérmica irritação, põe-me em constante pele de galinha. Porém, como não há lugar público onde não se esbarre, logo de manhã, com o afamado jornaleco correio-das-desgraças, acabo por tomar o meu café matinal na companhia do maldizente que aparenta ser menino bem, talvez queque ou simplesmente um betinho petulante de aspeto indomesticável. Lembrando-me do texto “Fidalgos, Queques e Betinhos” de Miguel Esteves Cardoso, a insolência do colunista faz-me ver nele uma espécie de betinho douto que tudo faz para ocultar a sua proximidade genealógica ao vulgacho, tratando mal aqueles que considera inferiores (demasiado mal) e bem aqueles que considera superiores (demasiado bem). Provavelmente estou errado mas, com toda a franqueza, em tempo algum me darei à canseira de o colocar na gaveta certa. Mais do que me certificar da circunstância da descendência ou do seu meritório percurso interessa-me, aqui e agora, reagir à sua frenética sobranceria.

Decidiu Coutinho escrevinhar, insurgindo-se, sobre o pornográfico cortejo de elogios ao caudilho a quem mima de Santo Chavez. O que ele acha sobre o Santo - as esmolas ao indigenato, a sua indocilidade bolivariana e o seu autoritarismo desqualificante – é o contrário do que muitos outros pensam de Chavez. Assim, onde Coutinho enxerga um santo malfeitor, outros reconhecem um virtuoso revolucionário. No entanto, o que me parece singularmente estrábico é o seu sábio desfecho. O santo malfeitor, afinal, constitui o típico exemplo de alguém que usa a democracia para subverter a democracia e que, por essa razão, convém não transformar em santo quem de santo tinha nada. Para quem não sabe, Coutinho habita um paraíso imune às pervertidas traficâncias do capital financeiro. Resfolga numa edénica democracia inabordável às devassas negociatas de ganhos a qualquer preço. Feliz, estima os seus governantes que prezam o prometido e enobrecem a democracia. No fundo, Coutinho vive remansado num lugar aprazível onde os recursos públicos não resgatam bancos, os responsáveis pelo colapso estão presos e o jogo sujo das hipotecas e dos incumprimentos é fortemente reprimido. O Coutinho é um menino afortunado. Goza de uma excelsa e sublime democracia. ORA VEJAM...

 

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Vídeo sugerido por CORRENTES


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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

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O ASSELVAJAMENTO DO TRABALHO

 

QUALIFICAÇÕES?

POR ONDE COMEÇAR?

sem_direito_ao_trabalho_sem_direito_a_indignac3a7c3a3oViajar pelas afastadas terras da filosofia faz bem. Dá exercício ao entendimento, soltando-o (por breves mas proveitosos momentos) da oratória ferina da calculadora e da sua encolhida razão mercantilizada. A urgência em fazer, custe o que custar a bem da pura eficácia da aclamada competitividade – chancela aliás da barbárie do nosso tempo presente – alinhava (com a sua energia) fórmulas e matemáticas incognoscíveis, depaupera (com a sua insanidade) o estudo do conhecer, perturba (com sua insolência) a verdade da perceção e confunde (com sua presteza) o valor e o sentido da dignidade humana. Construído assim (e há muito) o mecanismo da racionalidade capitalista, este força (no lascivo rumor que lhe é próprio) à desistência do pensamento e da reflexividade acolhendo, na troca de uma infame subordinação, as devassas premências das medidas do poder, dispondo do próprio homem como acessível apenso coisificado (e como tal descartável) em avaro benefício do seu jogo ambicioso e ordenante.

A bem de uma humanidade que se deseja, o respeito pelo valor da dignidade recusa que a pessoa humana não seja tratada como sua razão de ser e (em tempo algum) unicamente como um meio. Sendo a pessoa um fim em si mesma, o seu valor revela-se intrínseco e, nesse limite, torna-se certamente pertença do que não pode não ser. Assim, acolhida esta necessidade lógica da impossibilidade do contrário, a dignidade humana desvela-se parte integrante e incontornável da própria essencialidade do homem, não autorizando por isso equivalências nem trocas por um qualquer preço. Posto isto, pergunto-me o que importa destacar numa forma de economia onde o preceito da renda - em matéria de acumulação capitalista - se arroga num despótico e universal fundamento? O que tem a ver então o trabalho com as raízes da dignidade humana ou da rendibilidade capitalista? Neste contexto incerto, o que se pode entender por “trabalho decente” (defendido por Juan Somavia) ou “trabalho digno e com direitos” (expressão frequentemente enunciada por Carvalho da Silva)?

O trabalho humano, ao assalariar-se, esculpe no ajuste da recompensa a sombria incoerência da subordinação que, com uma obscura regularidade, extravasa as decretadas balizas do pacto. Enjeita-se assim (por necessidade feita de elementares buscas) a autonomia da razão, afadigando-a ante obediências a estranhas exterioridades e arbítrios. Reconhecendo a iniquidade, o direito ao e do trabalho intentou circunscrever a vasta largueza dos atropelos procurando outorgar valor à dimensão pessoal e social do trabalho. Criou-se um obrigante direito coletivo, alicerçado num sujeito coletivo com direitos coletivos, em proteção à vulnerabilidade da vassala relação individual de quem trabalha perante quem emprega. Muitos argumentos se invocam, hoje mais do que nunca, procurando cinicamente dissimular os pecados decursivos (velhos e novos) desta vontade que persiste submetida à violência de uma relação salarial que dificilmente encobre a alienação constitutiva do trabalho mercantil.

Com eixo na economia e no suporte ardiloso das inovadoras tecnologias, a globalização vem escorando um poder capitalista extraterritorial progressivamente anulante dos estados-nação. Neste silencioso extermínio dos poderes próximos, e sobretudo com a cumplicidade destes, tiraniza-se o exercício da política e da cidadania ensecando a jurisdição primordial e legítima de vinculação entre governantes e governados. O controlo à escala global, sempre mudo e encoberto, vai-se aprimorando através das engenhosidades de desregulação ao nível da lenta mas incisiva extenuação das legitimidades nacionais. Vive-se tempos de desvinculação, de dessocialização e de individualização com fortes investidas e repercussões nos mercados de trabalho onde emergem novas e adequadas formas de organização do trabalho, a ubiquidade peculiar das novas tecnologias de informação e de comunicação e a precariedade crescente dos enlaces laborais. Nesta mundialização de trabalhadores vulneráveis, que a crise ajuda a aclarar, a urgência confunde-se com sobrevivência e o homem percebe-se mutilado numa humanidade rebaixada e sumida num certo jeito de animalesca urbanidade. Como é próprio da natureza capitalista, sem sincera e consequente afeição pela dignidade da pessoa humana. Mormente quando o trabalho é usado como serventia primária da sua lógica sem freios. Qualificar, sim … mas para que trabalho?

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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

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A PROPÓSITO DOS LABIRINTOS DO SABER E DA COMPETÊNCIA

images (5)Sou daqueles que ouso prezar o trabalho de competências no domínio da educação e da formação, escolar e/ou profissional, não obstante o meu confesso reconhecimento da extensa complexidade do tópico e da disputa densa que o cerca. Expressa na sua reconciliação sempre incerta com o saber, a controvérsia filosófica que os opõem apresenta-se como um dado constante e comum da polémica apesar das diferenças de partida dos pontos de vista adotados. Resultem estes de modelos que buscam a organização de comportamentos eficazes face a uma ordem de situações ou de outros bem distintos que se empenhem no desenvolvimento de capacidades favoráveis à inventividade de respostas a novos incitamentos.

Não sendo um versado na matéria, atrevo-me a acreditar que a conceção do saber da qual se parte para o debate pode favorecer ou, pelo contrário, embaraçar a natureza e a conflitualidade da sua dinâmica relacional com a competência. Na minha perspetiva, como é óbvio e pacífico, o saber não se confunde com opinião reduzindo-o ao que pensa e crê o sujeito. Todavia, menos evidente e aceite, tampouco se deve tomar o saber como algo liberto dos universos representativos e simbólicos do sujeito que pensa e crê. No plano das aquisições, do conhecimento aos saberes de ação, as ideias de apropriação, de sentido e de uso não devem ser desatendidas em total amparo da pureza do saber, enquanto conhecimento isolado e concebido como resultado impoluto, indiferente ao processo que o produziu e ao projeto intelectual que o convoca.

Conhecer não se estriba na cândida nomeação de conceitos nem no decoranço de enunciados ou definições, nem tão-pouco na aprendizagem mecanizada da algoritmia procedimental. Na sua energia nutriente, conhecer significa compreender e explorar o poder do saber tornando-o numa ferramenta de utilização dotada de sentido e intencionalidade. Se assim for, e em consonância com esta linha de abordagem, o conhecimento não sendo em si nem por si uma competência, ao cultivar-se o seu poder de uso intencional, teórico ou instrumental, ele inscreve-se constitutivamente na formação e no desenvolvimento de competências e destas se provê. Isto posto, ao valorizar-se esse exercício de uso no domínio pedagógico reconhece-se a utilidade educativa e formativa da atividade na apropriação e significação fundamentada dos saberes, tendo ainda como valor acrescido a sua focagem no sujeito aprendente.

O saber exercita-se e desenvolve-se assim através do seu poder de uso reflexivo, extensivo e exploratório, desde os mais comuns e repetitivos às atividades mais exigentes e criativas, incluindo – é bom lembrar e acentuar – os usos que envolvem a dimensão simbólica do conhecimento. Neste quadro interpretativo, as competências (tomadas como poder de um saber em uso intencional) desvelam-se na concretude dos lugares (sociais, culturais ou profissionais) por mediação decorrente de dissonantes e desproporcionados universos simbólicos. Acresce (porém) que todo o fenómeno que envolve saber e competência, para além da inscrição em si das dimensões (representativa e simbólica) atrás referidas, subsome uma outra de natureza relacional. Trata-se aqui de um outro poder que, pela sua mudez presumida, encrenca inutilmente o desejável aclaramento do debate. O objeto torna-se deliberadamente impreciso e a discussão reiteradamente vacilante, quando não … ociosamente desencaminhada.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

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A PERMANÊNCIA DA MILITÂNCIA INSURGENTE

corrente-criticaA aposentação é uma fase da vida que sucede a muitas outras, umas por de mais inquietas, outras (in)utilmente seguras e outras ainda (talvez, poucas) de remanso aconchegado. Com a reforma apressa-se uma outra casta de desassossegos (e, sobretudo de ruturas) que suscita, na vida de cada um, inopináveis intimidações e/ou instigações, na contraditória presença de uma vida que se ausenta e de uma outra que, embora ainda ausente, se presta (por cumplicidade) ao diálogo da reinvenção. Apesar de alguns ganhos esperados, as perdas existem e o espectro da desagregação persiste em atrair (na sua peculiar crueldade) depreciações que envelhecem. Posto isto, interpelar (com convicção) o círculo e a materialidade do que (realmente) pode fazer sentido torna-se um eficaz antídoto para, com vantagem, alcançar um atraente porvir pese embora o que se abandona do tempo vencido.

Enquanto o corpo e a mente – solidários – permitem aspirar desses proveitos, há que cuidar desse bem, aliás cada vez mais escasso, destinando desígnios ao tempo incerto que o compõe. Confesso, que uma das atividades por mim adotada, por arreigada oposição ao politicamente conveniente, está no empenhamento aperfeiçoado da insurgência como prática libertadora de capturas múltiplas cevadas nesta (e por esta) paradoxal democracia. Nela, cria-se e faz-se prosperar uma cultura surreal (política e cultural) celebrando-se liberdades que, com descaro, se abastardam na densidade (própria e estranha) de tuteladas obediências que se impõem num angustiante crescendo. Dar forma à razão genuína, sentida e vivida como verdade, torna-se (assim) num experimento de recomeçados questionamentos e de infindáveis afinidades de reação e resistência.

Aqui, ali ou em todo o lado, não se pode dizer tudo, não se pode falar de tudo e muitos não podem sequer falar. O tabu, a ritualização e o privilégio dos que decretam e podem, aclaram assim os limites do dizível assinalando as sombras da inclusão (ou os territórios da exclusão) onde as singularidades se silenciam e os medos se escondem. O politicamente conveniente não é, nem poderia ser, um lugar rumoroso. Ele nada anuncia e a discrição é o seu poderoso disfarce. Habita (por isso), na excelência do silêncio, os lugarejos onde se engenha o domínio e a acomodação das verdades e dos saberes úteis. Verdades e saberes que obedecem a vontades de poderes combinados, embora nem sempre amigáveis, que dão forma e traçam os roteiros, beatos e amáveis, donde irrompe o dizível. A insurgência tem uma outra vontade, provavelmente avessa, não desconhecendo que os poderes renascem sempre e que sempre reagem onde a liberdade espreita. Assim sendo, a militância da insurgência regressa, igualmente sempre, ao prólogo de um texto que o legitima acreditando que o texto que sucede seja distinto, naturalmente para melhor…

Publicado na revista ESCOLAinformação (SPGL), de janeiro de 2013

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NA FORMATIVIDADE, O PODER E O DEVER DO TRABALHO IDENTITÁRIO

IMAGEM 1Como nota introdutória, direi que nos últimos dez anos, resultado da vida e das suas inescapáveis circunstâncias, desfrutei da aprazível fortuna de vivenciar e descortinar, através da partilha que soma valor e pelo trabalho reflexivo que neste se reconhece, novos e diferentes reptos no âmbito cercado e enredado da educação e da formação[1].

Dito isto e no que à formatividade diz respeito, a proximidade com gente adulta – sobretudo por entre a leitura e a interpelação das suas experiências biografadas – reclamou de mim a exigência de cuidar melhor de alguns dos conceitos medulares do campo educativo, e não menos das suas relações, à luz (sempre polémica) das suas procedências e disseminações, dos seus contextos de significação (históricos e políticos) e das teorizações que daí (de)correm.

Os conceitos envolvidos neste indefinível perímetro temático, sendo construções representacionais, facultam naturalmente entendimentos nem sempre concordantes (ou mesmo desencontrados) sobre os seus próprios objetos, não obstante a fundamentação atendível que os configuram. Deste jeito, tal confirmação autoriza a ilação lógica e plausível que os juízos, sejam eles sobre situações teóricas ou feitos em contextos de determinados de usos, possam colher (desses entendimentos) apenas uma e não a significância exclusiva.

Educar, formar, aprender e ensinar relacionam-se entre si de modos não só diferentes como desiguais tendo em conta que os sentidos aí incorporados se agilizam ante o entrecruzamento de diversidades marcadas por preferências, encadeamentos e recursos significativamente distintos e, mais relevante ainda, diversidades intensamente caracterizadas pela desigualdade e pela desproporção. E é com base nesta verdade fragmentada e condicionada, animadora da modernidade burocrática de programas institucionais, que se articulam (em silêncio) as reprimidas dimensões fundadoras e holísticas da esfera educativa, das quais (aqui) destaco as dimensões do desenvolvimento, das dinâmicas identitárias e das socializações.

Abrindo com a ideia de desenvolvimento, se num plano mais geral ela constitui uma inspiração totalizadora da política educativa e formativa, numa ótica mais individualizada, direi que essa mesma ideia se limita (por necessidade ou conveniência) à simplificável tendência aquando dos propósitos mais práticos e funcionais da escala retraída do ensino e das aprendizagens. Com efeito, importa dizer (e no estímulo que me encaminha, persistir) que não deixa de ser a conceção de (um qualquer) desenvolvimento que dá feição e trata de atribuir conformidade à tecedura relacional dos conceitos subentendidos, especificamente os conceitos que, neste breve texto, servem de referência (educação, formação, ensino e aprendizagem).

Parafraseando, com alguma liberdade, José Barata Moura[2], o homem faz-se – no seu fazer e no seu fazer-se – empreendendo sempre uma história rasgada em caminhos retraçados pelas determinações que vão acontecendo. Nesse jornadear, o homem é naturalmente determinado, capaz de determinar e, sobretudo, inquieto de se determinar. Hoje mais do que ontem, embora desde há muito, como detalhe, modelo ou prova, diria que a prevalência do económico, ao apresentar-se como uma qualidade primeira, faz com que o crescimento económico, no que respeita à educação e à formação, se torne um referente hegemónico e, com base nessa medida, se converta e se afirme no modesto e infundado equivalente político-institucional da ideia-rumo de desenvolvimento.

Num outro plano, e no que concerne às dimensões das dinâmicas identitárias e das socializações, com um incauto toque de atrevimento, acrescento que será naturalmente útil sugestionar (alegando e desafiando) que é na quotidianidade socializadora das aproximações (ao mundo, aos outros e a si próprio), como condição (ou mesmo, obrigação) de existir de um modo concreto e presente, que se significa e assim se aprende e, nesse envolvente movimento, continuado e aberto ao entranhável, se confere sentido ao conjunto de possíveis que se revelam à reinvenção contínua do que se é e, desse jeito, se vai dando forma ao próprio viver.

Aguardando não atraiçoar Bernard Charlot[3], e em apoio ao exposto, destacaria a minha concordância com a ideia por ele formulada de que a aproximação ao saber, feita de uma multitude de vizinhanças, “… não é apenas epistémica, mas é também identitária e social”. Dito isto, e na defesa axiomática deste meu intento, garanto que a experiência indica-me, e a convicção solidariamente adota, a ideia que é no quadro familiar de esquemas incorporados e estabilizados que, incontornavelmente, se radica e move a vital energia, embora partilhada, do diálogo íntimo e reflexivo que apadrinha a real predisposição de mudança e (com ela) a resiliência e o entusiasmo para caminhar no encalço do traçado desvio ascendente.

Para tal, os acontecimentos (passados e presentes) contam e só contam verdadeiramente quando, pela análise reflexiva, em momentos de descoberta, de construção e, nesse tentador e intenso curso, se transfiguram em impulso identitário. Rejeitar pura e simplesmente, querer algo a qualquer preço ou escolher apenas o que nos é oferecido, repete-se numa oportunidade de liberdade demasiado curta para uma consciência que se ambiciona (trans)formadora. A laboriosa (mas penosa) busca de caminhos próprios, reconhecidos por estes com exigência e verdade, carecem de um outro fôlego que alargue horizontes e comunique futuro e confiança a quem a eles se entrega.

Porém, distanciar-se das socializações que dificultam aquela entrega requer uma incessante tomada de consciência, e com esta, uma atitude subjetiva que proporcione um ser (um estar) disponível para o questionamento – inevitavelmente, conflituante e conflituoso – das imbricadas identificações que vão dando sentido às vidas de cada um. A subjetividade coabita, como se sabe, numa ligação estreita, com o mundo objetivo, pelos efeitos de contexto, agitação continuada das relações e das interações ou (ainda) pelas memórias resistentes que não se destroem.

O processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC), foi para mim uma experiência notável neste campo. Não pretendendo torná-la transversalmente representativa, considero que o processo de RVCC não é (nem foi) de todo um exemplo inócuo. Para muitos dos adultos, a realização do processo e a materialização reflexiva da sua historicidade, mais do que a certificação obtida, valeu pelo trabalho identitário alcançado no decurso possível de um distanciamento representacional progressivamente (re)conquistado, com expressão visível e explícita na (trans)formação pessoal e social que, de modo confesso, não lhes foi indiferente.

Finalizando, estou certo que aqueles adultos apreenderam que a identidade é uma invenção contínua que se tece com material não inventado. Por isso, compreenderam também que a identidade não é um dado mas um processo pelo qual as bases da socialização são trabalhadas e ativadas, incluindo as mais sólidas. Se assim é, como admito que seja, pensar a educação e a formação, nomeadamente de adultos com menor escolarização (mas não só), não pode nem deve dispensar este delicado mas necessário trabalho identitário. Ao menos, uma maior atenção e uma mais eficiente consideração por ele, uma vez que (a sugerida e enaltecida) educação permanente e emancipadora não deixa de por aqui passar. Na verdade, nascimento não é destino mas tão só um começo…

Publicado na revista ESCOLAinformação (SPGL), de janeiro de 2013


[1] Entre 2002 e os dias de hoje, assumi as funções de Avaliador Externo no processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) e em diferentes Centros de Novas Oportunidades, inseridos em diversos contextos sociais e culturais.

[2] Em “Para uma Ontologia da Educação”, comunicação feita no Conselho Nacional de Educação aquando da discussão sobre as bases da educação.

[3] Citado por Ana Maria Costa e Silva, em “FORMAÇÃO – Espaço-tempo de mediação na construção de identidade(s)” (2007: 164).

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

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A SUPERFÍCIE DO FUNDO

m-002_038Do orçamento de estado ao relatório do fmi, do governo para o dito fundo internacional. Um “bypass” cúmplice com significado político. No distrativo “zapping” noticioso inscreve-se (com desplante) o espectro decisório do Tribunal Constitucional. Assiste-se e requinta-se assim o desígnio da teatralização e da aliciação. É o mercado da atenção na sua ardilosa dramatologia da credibilidade conveniente. Sabe-se então que o estado de direito já não vale por si. Torna-se disputável e todos o reconhecem, a começar pelo governo que do facto procura dividendos.

As opiniões contam. Por isso, mais vale prevenir impondo limites ao opinável. Com sentido de responsabilidade, diz-se. Como qualquer mercado, deste modo, urge capitalizar, investindo e mobilizando. Na diabrura do gesto, a realidade converte-se no palco definidor da ordem útil das relevâncias. Naturalmente, com a cumplicidade amigável dos poderes mediáticos e dos seus capachos. Não a favor da Democracia e do seu aprofundamento. Antes do seu trágico esvaecimento.

O sentimento que se recomenda é (pois) o da contrição pelo pecado da avidez gozada. No limite, há quem já somou ao desacerto instilado a ideia de que está a mais. A casa deixou de ser aquela que pensavam ser a sua. A renda desembolsada e que lhes foi reclamada (repisam) não bastou. Mais, garantem nunca ter sido a bastante. Por isso, há contas por saldar e que só agora se apuraram. Não ao senhorio com quem se contratualizou. Mas a um outro que, pelos vistos, é senhor do senhorio e que os inquilinos desconhecem. Não há grana, levam-se as mobílias. Sem estas, o inútil frigorífico também pode ir. Despejo consumado, sobrevivem as paredes de um vazio onde apenas parece habitar uma cidadania descarnada.

 

No entanto, há ainda quem (obstinadamente) continue a chamar a esta casa, a sua casa; a casa da democracia. Citando Bertold Brecht, importa lembrar…

Pra onde quer que o expulsem, para lá

Vai a revolta, e donde é escorraçado

Fica ainda lá o desassossego.

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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

UM SILÊNCIO MALSOFRIDO

u136-Manos_dibujandoNeste período de solicitações desusuais, a liberdade desconjuntou-se por entre missões próprias da época e algumas escritas para outros endereços. Daí, este silêncio malsofrido para com este meu parceiro do grito argumentado. No entanto, duas daquelas escritas, colocá-las-ei aqui depois de publicadas na “ESCOLA/informação”, revista do SPGL (Sindicato dos Professores da Grande Lisboa).

A primeira das escritas termina assim; “ …O politicamente conveniente não é, nem poderia ser, um lugar rumoroso. Ele nada anuncia e a discrição é o seu poderoso disfarce. Habita (por isso), na excelência do silêncio, os lugarejos onde se engenha o domínio e a acomodação das verdades e dos saberes úteis. Verdades e saberes que obedecem a vontades de poderes combinados, embora nem sempre amigáveis, que dão forma e traçam os roteiros, beatos e amáveis, donde irrompe o dizível. A insurgência tem uma outra vontade, provavelmente avessa, não desconhecendo que os poderes renascem sempre e que sempre reagem onde a liberdade espreita. Assim sendo, a militância da insurgência regressa, igualmente sempre, ao prólogo de um texto que o legitima acreditando que o texto que sucede seja distinto, naturalmente para melhor”.

A segunda, num outro registo; “Finalizando, estou certo que aqueles adultos apreenderam que a identidade é uma invenção contínua que se tece com material não inventado. Por isso, compreenderam também que a identidade não é um dado mas um processo pelo qual as bases da socialização são trabalhadas e ativadas, incluindo as mais sólidas. Se assim é, como admito que seja, pensar a educação e a formação, nomeadamente de adultos com menor escolarização (mas não só), não pode nem deve dispensar este delicado mas necessário trabalho identitário. Ao menos, uma maior atenção e uma mais eficiente consideração por ele, uma vez que (a sugerida e enaltecida) educação permanente e emancipadora não deixa de por aqui passar. Na verdade, nascimento não é destino mas tão só um começo”.

Assim sendo, e depois desta justificativa, um “até breve” e – já agora – façam (o que está ao vosso alcance) por merecer um tempo mais respeitoso em 2013.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

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O ROSTO E A ALMA DO MONSTRO

wallpapers_monstros_e_demoniosEm jeito de acusação, acrimina-se o povo de ter gasto acima das suas posses como se a urdida overdose tenha brotado de um chão por cultivar. Trasvestidas a propósito, as sedutoras sereias da lavra e das melodias do bem-estar de outrora tornaram-se, na recentidade da agrura dos tempos, no seu avesso de íntegros “togados” das justas increpações. O uso hábil da contradição, costumeira nos reviralhistas, tem por serviço incutir nos outros responsabilidades que são muito suas e, se azo lhes derem, impô-las a esses outros por inteiro. Nesta melopeia moralista dos desmandos, e no que toca às presas aqui em conta, procura-se na subtil grosseria do gesto, dificultar que os sofridos se abriguem nas insólitas e execráveis “pieguices” e que, perante uma desconcentração improvável e a força obstinada de tamanha toleima, possam os niquentos comprometer o hino mavioso modulado naquelas duas vozes em denúncia à farra abjeta da misteriosa camorra.

Pois é… Cúmplice da insaciedade custe-o-que-custar do lucro desmedido, o engenho da fartura e das mais-valias fabulou interesses, engodou vontades, afeiçoou desejos inopinados, trapaceou consumos e, sobretudo, inventou conluiado o crédito atraente do-compra-agora-e-paga-depois. Novas racionabilidades assim se foram aflorando e, escorados neste habilidoso jeito, os prazeres prosperaram e sucederam-se no imediatismo turbilhonante de deleites necessariamente fugidiços. Encontrada a fórmula exata de espartilhar a lucidez dos sentidos, o circo do capitalismo consumista cultivou o seu chão, mercadejou tráficos, fez e desfez fronteiras e, com sagacidades e compadrices bem afinadas, foi encostando (sem rebuço) o Estado às cordas.

Deste estilizado desabafo, mais ideia e convicção do que entendimento entranhado no saber vivo dos peritos e das disciplinas da ordem, ressalta para mim a revigorante impostura da premissa política dos gastos desmedidos no proveito da sua útil e suscitada correlação com o pressuposto oportunista de estimular vantajosas más-consciências, de preferência subtraindo o indivíduo ao social coletivo. Deste fundo falseado (e nele radicado) despontam as razões traiçoeiras das práticas interesseiras (discursivas e políticas) de Passos&Companhia quando este(s), desfrutando da crise e do seu progénito “memorando”, apouca(m) o Estado nos seus méritos tendo em mente o rumo certo do oráculo neoliberal. A correção deseja-se assim radical e, neste vicioso e solto apetite, a regressão dos direitos sociais converte-se em desígnio nacional. Mas o rosto do projecto neoliberal revela-se de forma eloquente na sua incapacidade de assegurar um destino colectivo de segurança económica e justiça social [1]. Anuindo, vou no entanto mais longe; para mim, no monstro, pior do que o seu rosto repugnante, é a sua alma genuinamente endemoninhada.


[1] “Um modelo de insegurança social”, de Maria Clara Murteira, no LE MONDE DIPLOMATIQUE (Dezembro de 2012).

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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

FEITIÇOS E MATREIRICES

6895061_4CuBUCom as marcas do tempo, reais ou imaginadas, o corpo demuda o espírito e, como tal, mais do que era costume, nem sempre acordo com aquela habitual boa disposição. No entanto, pior fico quando as ineptas moralidades, acuradas ou angelicais, sempre prontas e disponíveis a tudo deslindar, logo por essas manhãs mal-avindas, tecem ficções e alteiam palpites na ânsia de acalmar quem os espera impacientes. Ávidos e nervosos, esta gente inquieta, convertida em obedientes rebanhos – mediáticos, religiosos, políticos ou outros – escuta esperançosa, da voz atrevida de funcionários de verdades, ilusórias escapatórias que momentaneamente aquietam, não obstante o certo da sabida permanência da incerteza.

Neste ruído de fundo, reiterável e impercetível, tão enfadoso quanto vulgar, ouvem-se com adulação os clamores dos ascetas de todas as espécies, os verberativos teóricos do idiotismo, os ditames dos burocratas da política e, deste jeito feito bizarro acatamento, os taciturnos inermes das ditas tutorias creem alucinados nos seus servidores de dogmas carecentes. Pergunto-me, perante tão triste e debilitante décor, se será um defeito de fabrico dos humanos a vulnerabilidade que os conforma e os fazem prezar os amansadores que a todo o tempo contentam o insistente e irredutível enfado vivido na brumaceira das imperfeitas existências.

António Damásio, em “AO ENCONTRO DE ESPINOSA”, ao falar do poder dos afetos e da única possibilidade de triunfar sobre um afeto negativo, lembra o eminente filósofo quando este afirma que, para que tal aconteça, importa criar, pela razão fundada no raciocínio e no esforço intelectual, um afeto positivo ainda mais forte. É destarte que, neste contexto e linha de pensamento, Damásio recorda Espinosa citando-o: “Um afeto não pode ser controlado ou neutralizado exceto por um afeto contrário mais forte do que aquele que queremos controlar”.

No entanto, por kafkiano que seja, uma das mais infaustas patologias humanas é a extremosa deferência à ordem entediante do social convencionado. Pensa-se a vida com base em categorias que desencaminham a crítica e a sua pertinência, alienando-se daí as qualidades emancipatórias da realizabilidade (trans)formadora. Em resultado desta espécie de psicose, docilmente se enreda o indivíduo na sacralidade de uma realidade consertada na (e pela) prática hábil de infundados mas influentes poderes. Daqueles que todos reconhecem e refutam em voz alta mas (e sobretudo) de muitos outros obscuros mandos que abusivamente nos habitam mascarados, colonizando hábitos representacionais decisivos à ação e ao pensamento.

É certo que, quando genuinamente se crê cresce em nós a afeição pela crença. É próprio da condição humana. Porém, pelo consolo, partilha e reconhecimento, formam-se em torno dessa crença, naturais e inevitáveis pertenças. Umas mais abertas e permeáveis, outras mais cerradas e hierarquizadas. Umas cuidando da liberdade, outras desenvolvendo-a, outras ainda equivocando-a. Estando assim avisado destes feitiços e destas matreirices, defini para mim um princípio simples mas cautelar; correndo ousadias, deixei de me enamorar pelos poderes, designadamente abominando os que me apresentam verdades entufadas e me tomam por pateta. A dissonância cortês em nada me impacienta. Bem pelo contrário. Abespinho-me, isso sim, com a arrogância que impossibilita a crítica e renuncia ao exigente desafio do argumento. A falibilidade humana deste jeito a reclama e a reciprocidade a tal obriga. Falo da liberdade, à qual associo a razão fundada no raciocínio e no esforço intelectual de que Espinosa, com mérito, bem anuncia. Por respeito ao Outro, ao valor da Solidariedade e a mim próprio.

 

Imagem retirada DAQUI

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