quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

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ATENÇÃO 2014 - O CAGAÇO CORROMPE

8396525_fNabaO poder político torna-se mais burilado quanto menos democrático e tanto menos democrático quanto mais o medo enlaça a liberdade das gentes. Esculpida assim a sociedade, por um medo sabiamente exortado e candidamente desvelado pela dúvida nela asilada, o apetite totalitário agita a bafienta e exaurida recompensa histórica. O povo abre mão da liberdade e aquele arbítrio feito poder, atento e ciente da inevitabilidade da sua progressiva ilicitude, garante em troca a sua experimentada e obscena segurança. Os sinais vão-se hoje empilhando, e por essa razão densificada, convém espertar as gentes para a natureza não separativa mas dialética da relação. Sim, o povo quer segurança mas uma Segurança estribada no exercício da Liberdade e no respeito pela Democracia e pela Constituição que a regula. Acagaçados, nem de joelhos e de mãos em prece nos sobrará a dignidade de existir.

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

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A ALMA DAS RUAS SÓ É INTEIRAMENTE SENSÍVEL A HORAS TARDIAS

(O título é uma citação da autoria de João do Rio)

 

NoitesBrancas-3Uma cultura faz-se enlaçando significados, atitudes e valores e consolida-se através de simbolismos próprios, de acordo com as gentes, os lugares e as suas singularidades. Porém, a compreensão dos subentendidos, constituindo uma forma privilegiada de nela adentrar, apela a olhares atentos e distendidos, ao mesmo tempo que nos aproxima de diversas e inusitadas reciprocidades. Deste modo, o Bairro Alto, esculpido no meu imaginário pela ideia de uma certa boémia, feita de vizinhança entre fado, prostituição e marginalidade e enobrecida pela tertuliana convivência de jornalistas e intelectuais, apresentou-se-me, ao tempo, como um espesso lugar envolvente, marcado por uma estranha e sibilina comunicação. A riqueza dos seus signos e a diversidade dos seus usos, nesta paisagem matizada, explicam porventura essa misteriosa vinculação que em mim se instalou entre realidade e fantasia, em que uma e outra, conflituando, mútua e cumplicemente se deixaram arrastar. O 25 de Abril, entre outras essencialidades, libertou-nos dos rigores espirituais da moralidade cristã e complicou-nos a vida educada e disciplinada do lazer. A liberdade de recriar novas representações da noite, distante da conceção do pecado e do maniqueísmo da tradição católica, tem necessariamente o seu preço, a que esse tempo privilegiado de busca de novas ordens públicas e morais – felizmente – não escapou.

Lembrar o Bairro Alto é, por tudo isto, dar vida às memórias, é reviver experiências que me ajudaram a crescer. Que, sobretudo, me ajudaram a ser. À noite, devaneei pelas suas estreitas ruas, tocando existências que, até ao momento, me ficavam bem distantes. Intuindo, com estranheza mas com agilizada liberdade, vivi esse tempo inventando sentidos, seduzido pela escuta arrebatada do sentir humano que na noite descobre o lado autêntico da sua alma. Com redobrado contentamento, descortinei que o Bairro Alto era uma realidade feita de raias incertas e animada por múltiplas e diferentes representações que, dando-lhe vida, prosseguiam a sua imaginária e sedutora identidade. Todavia, o seu denso espaço público não passou de uma vernácula superfície onde me ocupei a rabiscar textos, alguns bem necessários, de valiosa significação pessoal. As errâncias por caminhos não previstos alargaram-me o campo das apreensões e deram uma outra solidez aos valores que me são caros. Com a vantagem de ter sentido o latejar de vidas silenciadas, estes valores floresceram no chão íntimo da compreensão próxima do outro, do diferente e do socialmente diverso. Um tempo de andarilho que me proporcionou fazer do conflito entranhado uma poderosa razão para vencer, pela inteligência e pela sensibilidade, agitações impróprias provocadas por estranhas e insuportáveis ordens. Foi neste seu desafio dialético que a transparência da materialidade dos valores se insurgiu contra essa distante arte de bem persuadir a que se chama retórica, uma espécie, afinal, de oração que rarefaz a seu jeito a realidade – humana, social e cultural – que diz cuidar. Isso mesmo, um cuidar a seu jeito.

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sábado, 23 de novembro de 2013

NOVOS TEMPOS

À Guilhermina, ao João Fernandes e ao Mário Rui que comigo viajam nesta incursão ao mundo novo do remanso …

Encontro_Aposentados_LogoO tempo do calendário não anuvia a dimensão humana do tempo. À regularidade de um opõe-se o descompasso do outro. O primeiro mede-se, o segundo faz-se consciência sem tempo. Aquele regista as datas das nossas estórias, este refaz as nossas memórias e propicia a invenção de diferentes tempos. No essencial, vale este que se torna o tempo que (para nós) realmente conta. A despeito do sobressalto do agora, este tempo que conta cria no presente as possíveis rotas naquele outro que lhe advirá. Agraciemos então a vida com a energia do vivido, recusando o rumor monótono da clausura do tempo ritmado pelo tiquetaquear do relógio.

O presente não tem começo nem termo precisos malgrado a finitude de um agora que acontece. Mas o presente, no desalinho do horizonte do tempo imediato, permanece sempre inteiro, embora caprichoso. No seu gesto contínuo de (re)viver e de (re)significar, espera-se dele que faça do futuro um amável tempo presente. Com esperança mas sem resignadas esperas que nos tornem cativos do que vai acontecendo. Há sempre algo a desejar e a esperar da vida e do futuro. Ambicionando, nutre-se energia e desta extrai-se vitalidade. Na intimidade da esperança e dos desejos saberemos, com certeza, desvendar e reavivar estimulantes extensões das nossas vidas. Com a alegria de viver será tudo mais fácil. Não obstante a inurbanidade de muitos, o tempo futuro também nos pertence.

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

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A FORÇA E A AUTORIDADE DO NEGATIVO

120730-MarxB-e1343643612991Este tempo de crise que acontece envolve-me numa inexprimível moldura trágica. Embebida no bafo sufocante desse devasso pensamento que renega outras rotas, a desgraça faz-se calamitosa. A minha obstinada oposição marxiana ante a banalização das desigualdades, das servidões e das insolidariedades, se porventura aguça a caturrice, acrescenta todavia vigor redobrado à vivacidade do meu inconformismo. Na minha pirraça solidária, o sentido de historicidade, de materialidade e de dialética, torna-se numa saudável arma – na sua laboriosa e exigente filiação – para os desafios compromissórios da inteligibilidade com a  transformação. Uma salutar arma que acrescenta, à acolitada rebeldia desse inconformismo, a convincente mas restribada firmeza de lutar as lutas que valem. Por uma sociedade realmente diferente, capaz de causar e de exercer uma radical humanidade sem disfarces, sejam estes dolosas improbidades ou simples situacionismos de circunstância.

Pulsando entre uma alicerçada teimosia em que se funda o dever de acossar a iníqua ordem estabelecida e a institucionalização transitória das ruturas que se alcançam, decido sempre pelas portas que se deixam abertas à possibilidade da incontornável permanência de progressivas e humanas transformações sociais. Ou melhor, a mudanças incessantes no sentido exato de um ambicionado porvir em que a maldade, no seu amplo mas profundo significado ecológico, se confronte com distintos e acumulados embaraços em se aparentar com o seu incómodo contrário – e, sobretudo, em viver à custa dele. Não correndo atrás de nenhum fantástico paraíso, é confiante nestas mudanças possíveis que me procuro situar, sem arrogâncias ou rendições, nas disputas continuadas por uma sociedade com mais dignidade, com mais justiça e com mais humanidade. No entanto, não deixando de radicalizar em nome dos princípios aqui inscritos, não deixo igualmente de reconhecer o lado frágil, o lado demasiado humano, das histórias que nos fazem ser – sem possibilidades significativas de fuga – consequência dos múltiplos e contraditórios vínculos com que vamos enlaçando a complexa e contraditória totalidade das nossas existências.

Para desmedir o nosso já censurável infortúnio, a globalização uniu globalmente o capital e desconjuntou, ou procura ainda desarticular mais e com absoluto descaro, as forças críticas que o combatem. O discurso político e ideológico dos nossos poderes paroquiais revela-se, neste campo e pela sua obviedade, um patético e obsceno modelo. A persistente tentativa de cisão e de debilitação do campo do trabalho constitui o eficaz método e o avivar abjeto do sentimento penoso de sobrevivência proporciona-lhe o seu sórdido ingrediente. Por mim, e no contexto deste breve escrito, não vou aqui argumentar se o marxismo, enquanto doutrina política, pode ou não ser adequado, ou mesmo conveniente, para esclarecer a sociedade futura. Interessa-me, isso sim, reafirmar a sua fecundidade na análise do (neo)capitalismo que nos sitia, favorecendo um olhar crítico e indagador quanto à significação da inteligibilidade da sua intrínseca e incontornável contradição. Contradição que, no essencial, assenta, por um lado, na necessidade expansiva e ativa do consumo, visando a intenção cobiçosa e mal disfarçada da busca infindável de mais-valias, sobre fabricando mercadorias, não por elas, mas pelos lucros colossais que assim se geram, enquanto simultaneamente se empenha, no seu absurdo e contraditório movimento, em reduzir o poder aquisitivo dos trabalhadores e deixar de atender a evidentes necessidades humanas e sociais, multiplicando-se em cínicas arengas e ardilosas alegações. No fundo, as crises não são, afinal, mais do que contínuos sobressaltos, uns bem mais dramáticos do que outros, nesta persistente e histórica luta entre o trabalho e o capital ou, melhor dizendo, entre os muitos que habitam o mundo do trabalho e os poucos que se acobertam por detrás do capital e das suas agências. Objetivamente, este combate não permite neutralidades. Então, corajosamente, incomodemos os nossos mesquinhos sossegos: de que lado nos havemos de colocar?

 

 

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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

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AS RESSONÂNCIAS QUE SE TEIMAM EM SILENCIAR

CONTEXTOS DE VIDA E A RELAÇÃO CONSIGO MESMO E COM OS OUTROS

 

catálogo frente

Onde não há reciprocidade mora a dominação, o poder de um a vigiar pacientemente a desindividualização do outro. Tudo o que liga este a si mesmo é, subtil e silenciosamente, apresado e governado por aquele outro. Todavia, o retorno é sempre possível. Escutando o som dos rumores indizíveis, sopesando a sombria canseira da solidão e tomando a amargura como o nervo medular da insurgência. Audazmente, assim reinventando a vontade adormentada e, sem fraqueza, fazendo detonar a insistente patologia da triste submissão.

 

              Obra de  Ado Malagoli

                   Retirado DAQUI

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domingo, 20 de outubro de 2013

QUE RELIGIÃO É ESTA QUE REZA O PAI-NOSSO E TEM UNS IRMÃOS À MESA E OUTROS À PORTA?

G88165Frei Bento Domingues, no seu artigo de opinião de hoje no jornal Público (20.10.2013), intitulado De quem é a doutrina social da Igreja? expressa o seu acordo com o atual Papa Francisco quando este não se cansa de repetir que a Igreja somos todos nós, acrescentando todavia que, se assim é, a doutrina social da Igreja terá de resultar das respostas que a pluralidade das comunidades cristãs, situadas em culturas diferentes, souberem dar a antigas e novas perguntas, tais como:

1. Que fizeste do teu irmão?

2. Que economia é essa que tem no centro o culto idolátrico do dinheiro e exclui os doentes, os idosos, os jovens e as crianças?

3. Que religião é esta que reza o Pai-Nosso e tem uns irmãos à mesa e outros à porta?

Frei Bento termina, desafiando naturalmente os cristãos – e não só – com uma oportuna sugestão em forma de uma penosa interrogativa, ou seja, perguntando: [e] se trocássemos umas ideias sobre isto?

Não aderindo aos useiros enredos abstratos de mera contraposição de teses ou de proscrições moralistas de ordem diversa vinculadas a sentenciosos e rotinados aforismos do “dever-ser”, as interpelações colocadas, pela sua natureza entretecida de subjetividades e objetividades várias e em domínios que, embora distintos, se atravessam (1. o valor do outro-eu, 2. o papel humano e social da economia política e 3. a genuinidade da doutrina social da Igreja), as ditas interpelações – dizia eu – apelam, do meu ponto de vista, a uma exigência dialética e crítica necessariamente rigorosa, complexa e continuada.

Nesta linha de pensamento, importa assim reconhecer a crítica como um processo que pressupõe uma compreensão efetiva do que se critica, da tese e do fundamento que a suporta e da materialidade manifesta sobre a qual o criticador, sadiamente inquieto, se possa – na sua empreitada e em consciência – aquietar. O questionamento múltiplo e angustiante formulado por Frei Bento leva-nos, através de um eloquente silêncio, à implícita condenação do egoico individualismo que despreza o outro, da brutal indiferença ante as intoleráveis e excessivas diferenças, da desapiedada incivilidade das desigualdades em crescendo e, como amálgama resultante de tudo isto, Frei Bento reprova, com toda a certeza e igual vigor, a aviltante e progressiva pobreza humana e social, hoje generalizada de um modo humilhante para todos ou quase todos nós. Por mim, as respostas necessárias são essencialmente de natureza político-económica, ideológica e educacional. Todavia, no campo das religiões, espero – ainda assim – que a Igreja, por si, não se fique pelo Pai-Nosso e, sobretudo, não se deixe conformar por uma vexante política assistencialista, abandonando uns irmãos à porta da compaixão enquanto outros se sentam (e bem) à mesa do digno e respeitável ganha-pão. E, não sendo eu crente, acredito porém sinceramente que Frei Bento não discordará de mim.

Nota – O título da postagem foi retirado do próprio artigo de opinião.

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sábado, 19 de outubro de 2013

O CHORO MURCHO DAS CARPIDEIRAS

imagesA representação em Lisboa da Comissão Europeia produziu um relatório que doutrina por si mesmo. Acobertar agora o seu conteúdo, como faz a própria Comissão, fluidificando-o em esclarecimentos formais ou em explicações processuais (ou ainda em trémulos subestimados) mais não faz do que aviventar os seus viciosos pecados.

Num impudente quadro elogioso à atividade governativa, a capatazia da Comissão Europeia, ao carpir o suposto enfraquecimento ou mesmo o derrube do Governo por um eventual chumbo de certas medidas do Orçamento de Estado pelo Tribunal Constitucional e ao duvidar da imparcialidade deste órgão insinuando a presença nele de um possível e adverso ativismo político, torna claro o pano de fundo que a nível da União Europeia almofada em crescendo o modelo neoliberal e sublinha a importância histórica que Coelho, Portas e o irresoluto Seguro têm neste subliminar (mas lastimável) desdobramento. Ponto final.

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sábado, 12 de outubro de 2013

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UMA SOCIEDADE PORNOGRÁFICA APODERADA POR INSIGNES E PÍFIOS BATOTEIROS

 

“Oh! Sejamos pornográficos (docemente pornográficos)”

Carlos Drummond de Andrade

transferirÉ-me bem mais difícil corroborar que a pornografia é moralmente errada quando me confronto com uma sociedade globalmente arquitetada por uma vampírica economia política, sugadora de trabalho vivo e que deste vive tanto mais quanto mais dele se aproveita. Ao condenar-se a pornografia invocando os princípios morais da dignidade e do dano aos outros, pergunto-me: e se em nome da semelhança da relação reclamássemos esses mesmos princípios no juízo que fazemos da sociedade em que vamos sendo compelidos a viver? Se a pornografia não passa (de certo modo) de uma ficção, a vida concreta das pessoas é (todavia) feita de uma outra natureza e verdade bem mais reais e valorosas. Aplicando então o critério da intenção e atendendo aos seus efeitos, diria que a pornografia produz uma primária e compósita excitação enquanto a avidez capitalista ocasiona coisa bem pior e tangível: a exploração e a miséria a quem dela é vítima. Não obstante a indignidade e a obscenidade que em ambas perpassam, quanto a mim, prefiro viver inquietado pela excitação da pornografia do que perecer humilhado ante a baixeza da mancebia dolosa desta outra perversidade que (reinando) nos corrompe e atraiçoa.

Inscrevendo-se inevitavelmente num jogo de relações determinadas, necessárias e independentes da nossa vontade, a vida de cada um não escapa, neste quadro sempre regrado, a uma criação social de um viver intensamente decidido por uma singular e injusta base económica, a partir da qual se acertam, em ajustada moldura dialética, leis e políticas que açulam, e em simultâneo atraem, apetentes e desejáveis formas de consciência assim como receitam conformados e formatados comportamentos e, sem virtude, ordenam possibilidades e oportunidades. Pela sua extensão e desumana profundidade, a crise que hoje se vive constitui uma ocasião histórica para trabalhar uma mudança fundamental na dormente subjetividade social de modo a subverter a ordem institucional que qualifica a hegemónica organização desta atual e deprimente ordem (neo)capitalista. A adveniente consciencialização social e política necessária à mudança também passa por aqui, ou seja, passa por reconhecer que a compreensão da ação individual no seu quadro sistémico não pode deixar de valorizar a subjetividade como uma força de produção humana realmente capaz de insubmissão ao domínio do imediatismo instrumental deste batotar insistente do capital. Na escalada das obscenidades, um corpo nu grosseiramente exposto pode ser obsceno. Todavia, uma sociedade escaveirada na sua dignidade, despelada nos seus direitos e despida nos seus sonhos é tragicamente uma sociedade que entranha na mais infeliz das obscenidades a sua intrínseca pornografia.

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

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CAMA, COMIDA E ROUPA LAVADA EM TROCA DA LIBERDADE DE VIVER COM DIGNIDADE

999766_568094213226993_2061869721_nNeste tempo de matreira oposição, fomentada, através da estulta e oportunista guerrilha urdida pelo Governo contra o Tribunal Constitucional, entre os divinizados mercados e a nossa Constituição, interessa evocar e prezar a aspiração de universalidade a que um Estado de direito se deve consagrar, intentando, em especial nos âmbitos democrático, social e ambiental, congregar na operacionalidade do exercício do Direito o empenho e a capacidade de materializar uma equidade que busque, sem tergiversações, pôr de acordo princípios e valores materiais suscetíveis de apreciar do carácter equitativo ou desmerecido das leis, da natureza justa ou injusta das instituições e do valor ou desvalor de certos procederes.

Tendo em atenção a ideia manifesta na imagem de colocar os idosos na prisão e os criminosos em casas de repouso – pese embora a graça justiçosa encoberta na ironia adotada pela crueldade do contraste – convém rememorar que, desde os seus começos, a filosofia do constitucionalismo cuidou de sugerir a indissociabilidade do Estado de direito e dos direitos fundamentais, recusando recambiar estes à pura categoria filosófica de exortações retóricas. Ao longo dos tempos, as mais diversas experiências históricas de aviltamento e inumanidade, interpretadas à luz de outras sensibilidades e compreensões morais, conduziram à incitável indignação política e, através desta e do inseparável direito positivo que a acompanhou, à definição e reconhecimento de direitos percebidos como humanamente fundamentais.

No entanto, mais do que discorrer sobre direitos no acorrentamento propositivo deste sucinto texto, nomeadamente destacando o trágico ensinamento de que o móbil dos nobilíssimos direitos humanos já nos levou à angustiante distinção entre guerras justas e guerras injustas, opto por trazer à colação o inquieto, embora irrequieto e universalista, conceito de dignidade humana. Sendo certo que o respeito pela dignidade humana, devido de igual modo a todas as pessoas, ultrapassa as fronteiras de uma qualquer moral de apelo ao respeito por todos, para se inscrever no registo da cidadania e da implicação política como fonte inescapável de direitos iguais e exigíveis para todos, sem exceção.

Assim sendo, mesmo que de modo alegórico, considero que enlaçar comparativamente as condições de vida dos presidiários e dos idosos é ideologicamente incauto e sobretudo arriscado não só para os próprios idosos e presos como para todos aqueles que são/estão igualmente apresados por esta ordem capitalista irrefutável e crescentemente desigual, em especial quando se leva a sério o atual contexto de exacerbação intencional desse inferior sentimento nacional que é o da mesquinha e persistente invejazinha. Neste cenário, sugerir, através deste encolhido e falacioso enlace, a correção de iniquidades, depreciando a responsabilidade do Estado no reequilíbrio global e sistémico da balança da justiça, só pode ser uma de três coisas; ingenuidade, embustice ou jocosa brincadeira.

Sendo indignas e revoltantes as condições de vida de muitos e muitos dos nossos cidadãos idosos não serão, no entanto, ajustadas (!) as supostas condições outorgadas aos cidadãos presos? Ou seja, o que está mal não se resolve no exaurido campo social dos desfavorecidos, mutuando trocos e desigualdades. Em tempo de ressaca de eleições e de futuros que se sonham, não é despiciendo lembrar que o Estado, embora de direito, não foi necessariamente criado, como muitos pensam, para proteger os fracos contra os fortes. Os múltiplos poderes dominantes, sobretudo os económicos, usarão sempre o seu poder político para afeiçoar o Estado de direito de forma a dispor de um enquadramento dentro do qual possam continuar a explorar, a preservar e a cultivar desigualdades, alimentando o seu sonho, afinal o sonho do capital, hoje bem tangível: fazer dinheiro sem produzir.

Espero não ser mal interpretado mas a racionalidade de um qualquer discurso não pode deixar de estar sempre intimamente ligada à assunção de perspetivas que sustentam o que cada um pensa ser o modo proporcionado de se abordarem e de se partilharem determinados assuntos. Neste sentido, diria que a apresentação de argumentos cumpre a função de significar e justificar o que se pensa e o modo como se pensa por oposição a outros modos de pensar e não, meramente, o de suportar ou fundamentar proposições. Assim sendo, é sempre possível reconhecer que um argumento pode ser válido e bom, mas que a perspetiva que o suporta não é lá grande coisa. Sobretudo, quando se aventa (mesmo que por jocosidade) a troca de cama, comida e roupa lavada pela privação da liberdade de viver com dignidade…

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