domingo, 2 de fevereiro de 2014

ESQUERDAS, DIFICULDADES E INEVITABILIDADES

FOTO ACTUAL

 

Uma ordem política que descuida a intimidade sadia que os valores da legalidade e da juridicidade devem manter com os da moralidade e da eticidade, maleficia a coesão social, ofende a dignidade racional dos homens e humilha, sem contrição, a própria condição humana.

O discurso político do Governo e o da maioria parlamentar que o respalda, sobretudo este mais recente de eleitoralismo antecipado, descarado e sem-vergonha, em tinido de uma nota só, impudentemente e com cristalinidade, acrescido com o desplante sustento do concubinato financeiro e europeu, mostra - esse discurso - a perversidade dos tempos e a solércia entorpecente dos regedores de serviço à nossa combalida democracia.

A esquerda, embora destoante e diversamente enérgica no seu dever de oposição, tem de reconhecer que a malignidade da esperteza desse arengar assenta no conhecimento destas e daquelas outras (in)verdades que sabem explorar quando interessam e desdenhar fora disso. Nesta linha de raciocínio, espera-se da esquerda que saiba ser nobre, esclarecida e consequente e tudo faça para discernir os interesses capazes de agilizar a mobilização de uma razão prática que se torne causa poderosa na formação de uma vontade comum. Caso contrário, lamento ter de inferir que a direita governa porque a esquerda não o merece. O Capital rejubila, o Trabalho (entretanto) amargura…

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

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ATENÇÃO 2014 - O CAGAÇO CORROMPE

8396525_fNabaO poder político torna-se mais burilado quanto menos democrático e tanto menos democrático quanto mais o medo enlaça a liberdade das gentes. Esculpida assim a sociedade, por um medo sabiamente exortado e candidamente desvelado pela dúvida nela asilada, o apetite totalitário agita a bafienta e exaurida recompensa histórica. O povo abre mão da liberdade e aquele arbítrio feito poder, atento e ciente da inevitabilidade da sua progressiva ilicitude, garante em troca a sua experimentada e obscena segurança. Os sinais vão-se hoje empilhando, e por essa razão densificada, convém espertar as gentes para a natureza não separativa mas dialética da relação. Sim, o povo quer segurança mas uma Segurança estribada no exercício da Liberdade e no respeito pela Democracia e pela Constituição que a regula. Acagaçados, nem de joelhos e de mãos em prece nos sobrará a dignidade de existir.

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

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A ALMA DAS RUAS SÓ É INTEIRAMENTE SENSÍVEL A HORAS TARDIAS

(O título é uma citação da autoria de João do Rio)

 

NoitesBrancas-3Uma cultura faz-se enlaçando significados, atitudes e valores e consolida-se através de simbolismos próprios, de acordo com as gentes, os lugares e as suas singularidades. Porém, a compreensão dos subentendidos, constituindo uma forma privilegiada de nela adentrar, apela a olhares atentos e distendidos, ao mesmo tempo que nos aproxima de diversas e inusitadas reciprocidades. Deste modo, o Bairro Alto, esculpido no meu imaginário pela ideia de uma certa boémia, feita de vizinhança entre fado, prostituição e marginalidade e enobrecida pela tertuliana convivência de jornalistas e intelectuais, apresentou-se-me, ao tempo, como um espesso lugar envolvente, marcado por uma estranha e sibilina comunicação. A riqueza dos seus signos e a diversidade dos seus usos, nesta paisagem matizada, explicam porventura essa misteriosa vinculação que em mim se instalou entre realidade e fantasia, em que uma e outra, conflituando, mútua e cumplicemente se deixaram arrastar. O 25 de Abril, entre outras essencialidades, libertou-nos dos rigores espirituais da moralidade cristã e complicou-nos a vida educada e disciplinada do lazer. A liberdade de recriar novas representações da noite, distante da conceção do pecado e do maniqueísmo da tradição católica, tem necessariamente o seu preço, a que esse tempo privilegiado de busca de novas ordens públicas e morais – felizmente – não escapou.

Lembrar o Bairro Alto é, por tudo isto, dar vida às memórias, é reviver experiências que me ajudaram a crescer. Que, sobretudo, me ajudaram a ser. À noite, devaneei pelas suas estreitas ruas, tocando existências que, até ao momento, me ficavam bem distantes. Intuindo, com estranheza mas com agilizada liberdade, vivi esse tempo inventando sentidos, seduzido pela escuta arrebatada do sentir humano que na noite descobre o lado autêntico da sua alma. Com redobrado contentamento, descortinei que o Bairro Alto era uma realidade feita de raias incertas e animada por múltiplas e diferentes representações que, dando-lhe vida, prosseguiam a sua imaginária e sedutora identidade. Todavia, o seu denso espaço público não passou de uma vernácula superfície onde me ocupei a rabiscar textos, alguns bem necessários, de valiosa significação pessoal. As errâncias por caminhos não previstos alargaram-me o campo das apreensões e deram uma outra solidez aos valores que me são caros. Com a vantagem de ter sentido o latejar de vidas silenciadas, estes valores floresceram no chão íntimo da compreensão próxima do outro, do diferente e do socialmente diverso. Um tempo de andarilho que me proporcionou fazer do conflito entranhado uma poderosa razão para vencer, pela inteligência e pela sensibilidade, agitações impróprias provocadas por estranhas e insuportáveis ordens. Foi neste seu desafio dialético que a transparência da materialidade dos valores se insurgiu contra essa distante arte de bem persuadir a que se chama retórica, uma espécie, afinal, de oração que rarefaz a seu jeito a realidade – humana, social e cultural – que diz cuidar. Isso mesmo, um cuidar a seu jeito.

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sábado, 23 de novembro de 2013

NOVOS TEMPOS

À Guilhermina, ao João Fernandes e ao Mário Rui que comigo viajam nesta incursão ao mundo novo do remanso …

Encontro_Aposentados_LogoO tempo do calendário não anuvia a dimensão humana do tempo. À regularidade de um opõe-se o descompasso do outro. O primeiro mede-se, o segundo faz-se consciência sem tempo. Aquele regista as datas das nossas estórias, este refaz as nossas memórias e propicia a invenção de diferentes tempos. No essencial, vale este que se torna o tempo que (para nós) realmente conta. A despeito do sobressalto do agora, este tempo que conta cria no presente as possíveis rotas naquele outro que lhe advirá. Agraciemos então a vida com a energia do vivido, recusando o rumor monótono da clausura do tempo ritmado pelo tiquetaquear do relógio.

O presente não tem começo nem termo precisos malgrado a finitude de um agora que acontece. Mas o presente, no desalinho do horizonte do tempo imediato, permanece sempre inteiro, embora caprichoso. No seu gesto contínuo de (re)viver e de (re)significar, espera-se dele que faça do futuro um amável tempo presente. Com esperança mas sem resignadas esperas que nos tornem cativos do que vai acontecendo. Há sempre algo a desejar e a esperar da vida e do futuro. Ambicionando, nutre-se energia e desta extrai-se vitalidade. Na intimidade da esperança e dos desejos saberemos, com certeza, desvendar e reavivar estimulantes extensões das nossas vidas. Com a alegria de viver será tudo mais fácil. Não obstante a inurbanidade de muitos, o tempo futuro também nos pertence.

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

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A FORÇA E A AUTORIDADE DO NEGATIVO

120730-MarxB-e1343643612991Este tempo de crise que acontece envolve-me numa inexprimível moldura trágica. Embebida no bafo sufocante desse devasso pensamento que renega outras rotas, a desgraça faz-se calamitosa. A minha obstinada oposição marxiana ante a banalização das desigualdades, das servidões e das insolidariedades, se porventura aguça a caturrice, acrescenta todavia vigor redobrado à vivacidade do meu inconformismo. Na minha pirraça solidária, o sentido de historicidade, de materialidade e de dialética, torna-se numa saudável arma – na sua laboriosa e exigente filiação – para os desafios compromissórios da inteligibilidade com a  transformação. Uma salutar arma que acrescenta, à acolitada rebeldia desse inconformismo, a convincente mas restribada firmeza de lutar as lutas que valem. Por uma sociedade realmente diferente, capaz de causar e de exercer uma radical humanidade sem disfarces, sejam estes dolosas improbidades ou simples situacionismos de circunstância.

Pulsando entre uma alicerçada teimosia em que se funda o dever de acossar a iníqua ordem estabelecida e a institucionalização transitória das ruturas que se alcançam, decido sempre pelas portas que se deixam abertas à possibilidade da incontornável permanência de progressivas e humanas transformações sociais. Ou melhor, a mudanças incessantes no sentido exato de um ambicionado porvir em que a maldade, no seu amplo mas profundo significado ecológico, se confronte com distintos e acumulados embaraços em se aparentar com o seu incómodo contrário – e, sobretudo, em viver à custa dele. Não correndo atrás de nenhum fantástico paraíso, é confiante nestas mudanças possíveis que me procuro situar, sem arrogâncias ou rendições, nas disputas continuadas por uma sociedade com mais dignidade, com mais justiça e com mais humanidade. No entanto, não deixando de radicalizar em nome dos princípios aqui inscritos, não deixo igualmente de reconhecer o lado frágil, o lado demasiado humano, das histórias que nos fazem ser – sem possibilidades significativas de fuga – consequência dos múltiplos e contraditórios vínculos com que vamos enlaçando a complexa e contraditória totalidade das nossas existências.

Para desmedir o nosso já censurável infortúnio, a globalização uniu globalmente o capital e desconjuntou, ou procura ainda desarticular mais e com absoluto descaro, as forças críticas que o combatem. O discurso político e ideológico dos nossos poderes paroquiais revela-se, neste campo e pela sua obviedade, um patético e obsceno modelo. A persistente tentativa de cisão e de debilitação do campo do trabalho constitui o eficaz método e o avivar abjeto do sentimento penoso de sobrevivência proporciona-lhe o seu sórdido ingrediente. Por mim, e no contexto deste breve escrito, não vou aqui argumentar se o marxismo, enquanto doutrina política, pode ou não ser adequado, ou mesmo conveniente, para esclarecer a sociedade futura. Interessa-me, isso sim, reafirmar a sua fecundidade na análise do (neo)capitalismo que nos sitia, favorecendo um olhar crítico e indagador quanto à significação da inteligibilidade da sua intrínseca e incontornável contradição. Contradição que, no essencial, assenta, por um lado, na necessidade expansiva e ativa do consumo, visando a intenção cobiçosa e mal disfarçada da busca infindável de mais-valias, sobre fabricando mercadorias, não por elas, mas pelos lucros colossais que assim se geram, enquanto simultaneamente se empenha, no seu absurdo e contraditório movimento, em reduzir o poder aquisitivo dos trabalhadores e deixar de atender a evidentes necessidades humanas e sociais, multiplicando-se em cínicas arengas e ardilosas alegações. No fundo, as crises não são, afinal, mais do que contínuos sobressaltos, uns bem mais dramáticos do que outros, nesta persistente e histórica luta entre o trabalho e o capital ou, melhor dizendo, entre os muitos que habitam o mundo do trabalho e os poucos que se acobertam por detrás do capital e das suas agências. Objetivamente, este combate não permite neutralidades. Então, corajosamente, incomodemos os nossos mesquinhos sossegos: de que lado nos havemos de colocar?

 

 

Imagem retirada DAQUI

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quarta-feira, 23 de outubro de 2013

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AS RESSONÂNCIAS QUE SE TEIMAM EM SILENCIAR

CONTEXTOS DE VIDA E A RELAÇÃO CONSIGO MESMO E COM OS OUTROS

 

catálogo frente

Onde não há reciprocidade mora a dominação, o poder de um a vigiar pacientemente a desindividualização do outro. Tudo o que liga este a si mesmo é, subtil e silenciosamente, apresado e governado por aquele outro. Todavia, o retorno é sempre possível. Escutando o som dos rumores indizíveis, sopesando a sombria canseira da solidão e tomando a amargura como o nervo medular da insurgência. Audazmente, assim reinventando a vontade adormentada e, sem fraqueza, fazendo detonar a insistente patologia da triste submissão.

 

              Obra de  Ado Malagoli

                   Retirado DAQUI

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domingo, 20 de outubro de 2013

QUE RELIGIÃO É ESTA QUE REZA O PAI-NOSSO E TEM UNS IRMÃOS À MESA E OUTROS À PORTA?

G88165Frei Bento Domingues, no seu artigo de opinião de hoje no jornal Público (20.10.2013), intitulado De quem é a doutrina social da Igreja? expressa o seu acordo com o atual Papa Francisco quando este não se cansa de repetir que a Igreja somos todos nós, acrescentando todavia que, se assim é, a doutrina social da Igreja terá de resultar das respostas que a pluralidade das comunidades cristãs, situadas em culturas diferentes, souberem dar a antigas e novas perguntas, tais como:

1. Que fizeste do teu irmão?

2. Que economia é essa que tem no centro o culto idolátrico do dinheiro e exclui os doentes, os idosos, os jovens e as crianças?

3. Que religião é esta que reza o Pai-Nosso e tem uns irmãos à mesa e outros à porta?

Frei Bento termina, desafiando naturalmente os cristãos – e não só – com uma oportuna sugestão em forma de uma penosa interrogativa, ou seja, perguntando: [e] se trocássemos umas ideias sobre isto?

Não aderindo aos useiros enredos abstratos de mera contraposição de teses ou de proscrições moralistas de ordem diversa vinculadas a sentenciosos e rotinados aforismos do “dever-ser”, as interpelações colocadas, pela sua natureza entretecida de subjetividades e objetividades várias e em domínios que, embora distintos, se atravessam (1. o valor do outro-eu, 2. o papel humano e social da economia política e 3. a genuinidade da doutrina social da Igreja), as ditas interpelações – dizia eu – apelam, do meu ponto de vista, a uma exigência dialética e crítica necessariamente rigorosa, complexa e continuada.

Nesta linha de pensamento, importa assim reconhecer a crítica como um processo que pressupõe uma compreensão efetiva do que se critica, da tese e do fundamento que a suporta e da materialidade manifesta sobre a qual o criticador, sadiamente inquieto, se possa – na sua empreitada e em consciência – aquietar. O questionamento múltiplo e angustiante formulado por Frei Bento leva-nos, através de um eloquente silêncio, à implícita condenação do egoico individualismo que despreza o outro, da brutal indiferença ante as intoleráveis e excessivas diferenças, da desapiedada incivilidade das desigualdades em crescendo e, como amálgama resultante de tudo isto, Frei Bento reprova, com toda a certeza e igual vigor, a aviltante e progressiva pobreza humana e social, hoje generalizada de um modo humilhante para todos ou quase todos nós. Por mim, as respostas necessárias são essencialmente de natureza político-económica, ideológica e educacional. Todavia, no campo das religiões, espero – ainda assim – que a Igreja, por si, não se fique pelo Pai-Nosso e, sobretudo, não se deixe conformar por uma vexante política assistencialista, abandonando uns irmãos à porta da compaixão enquanto outros se sentam (e bem) à mesa do digno e respeitável ganha-pão. E, não sendo eu crente, acredito porém sinceramente que Frei Bento não discordará de mim.

Nota – O título da postagem foi retirado do próprio artigo de opinião.

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sábado, 19 de outubro de 2013

O CHORO MURCHO DAS CARPIDEIRAS

imagesA representação em Lisboa da Comissão Europeia produziu um relatório que doutrina por si mesmo. Acobertar agora o seu conteúdo, como faz a própria Comissão, fluidificando-o em esclarecimentos formais ou em explicações processuais (ou ainda em trémulos subestimados) mais não faz do que aviventar os seus viciosos pecados.

Num impudente quadro elogioso à atividade governativa, a capatazia da Comissão Europeia, ao carpir o suposto enfraquecimento ou mesmo o derrube do Governo por um eventual chumbo de certas medidas do Orçamento de Estado pelo Tribunal Constitucional e ao duvidar da imparcialidade deste órgão insinuando a presença nele de um possível e adverso ativismo político, torna claro o pano de fundo que a nível da União Europeia almofada em crescendo o modelo neoliberal e sublinha a importância histórica que Coelho, Portas e o irresoluto Seguro têm neste subliminar (mas lastimável) desdobramento. Ponto final.

Imagem retirada DAQUI

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