terça-feira, 21 de outubro de 2014

AS ONDAS NÃO DERAM PARA SURFAR

Prós e Contras de ontem trouxe à cena a Vida Difícil das Escolas. Na minha despretensiosa opinião, dos convidados em palco apenas um saiu decentemente desta mediática representação. O Domingos Fernandes foi o único que, de um modo enérgico, lembrou amiúde aquele que foi o grande ausente do debate, ou seja, a denúncia da desastrosa política educativa (e social) deste governo. Por sua vez, o suplente do foragido Crato, de ar beato consentâneo, entrincheirou-se na sacristia preocupado com o amanho da sua desarrumada igreja. Todavia, ajudou à missa intentando, com uma expressiva bonomia cristã, esquivar-se ao pecado da inoportuna discórdia. Por outro lado, o atabalhoado Couto dos Santos, contrastando com o sacristão seu vizinho, mostrou-se (sabe-se-lá-por-quê) acirradamente encolerizado ao ponto, perceção minha, de não saber por vezes (e foram muitas) onde estavam as mãos e se achavam os pés tal a agitação caótica do cocuruto e da palavra solta sem ordem nem condução. No que respeita à deputada do PS, essa foi por demais previsível e reverente, nas suas maneiras e nos seus argumentos, acusando uma estranha e adocicada candidez que tornou inócuo o instituto da crítica.

Dos presentes vieram, todavia, algumas pedradas que agitaram o charco dos silêncios deliberados por detrás dos quais se ocultam teimosamente a verdade material dos problemas e, com isso, se desbarata possibilidades (até ver) de impensadas soluções. No registo das singularidades, lembro a lúcida intervenção de um participante professor de história que, numa linguagem de sábia simplicidade, pôs o dedo na ferida desta sórdida e progressiva desqualificação social dos professores. Contudo, permitam-me apontar que, se este governo os amaldiçoa, os professores, a irascibilidade de Maria de Lurdes Rodrigues está irremediavelmente comprometida com esta lamentável história, comprovada e gravada em lápide com a inscrição da sua malfadada sentença perdi os professores mas ganhei os pais e a população. Aqui reside, ou também reside, muito provavelmente, o facto destes prós e destes contras não terem formado ondas suficientemente alterosas para o surfar competitivo que a prova requereria aos convidados presentes. Paciência; demos tempo ao tempo para aquilatar da verdade das promessas (aduzidas) e e das competências (insinuadas) em palco. Por mim, lamento relembrar que, tal como o gato escaldado, da água fria tenho medo e do natural sufoco (por)vir!

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sábado, 18 de outubro de 2014

ALORPADO MAS … NÃO TANTO

 

As afetadas e analíticas arengas dos economistas, sobretudo daqueles que mumificam no tablado mediático, abespinham-me por vários porquês, dos quais aqui apenas acuso dois deles. O primeiro – raiz da intensa e difusiva canga ideológica dos tempos – porque não tenho ciência bastante para descodificar toda aquela cabalística linguagem técnica que, recolhida sobre si, nada acorre à minha retratada insipiência. O outro, o segundo, certamente dispondo dessa insciência minha e de muitos mais, tem a ver com a implicante e asnática soberba dos ditos que tudo fazem para acoitar a natureza estimativa do seu arrazoado e a hercúlea construção histórica da adequada fórmula política e social dos números que regurgitam, encenando (para tal) um patinar galante sobre o gelo das certezas matemáticas inquestionáveis. Para quando esta gente tão versada não me apresenta a mim, que não sou propriamente um apatetado deprimido, mas igualmente aos desfavorecidos deste mundo e em linguagem de gente, os fundamentos que legitimam, animam e determinam as indecorosas distribuições de rendimentos e as pornográficas desigualdades daí decorrentes. Se tiverem coragem e forem capazes, credibilizem o sistema (que tão piamente agasalham) começando exatamente por aqui.

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O COLAPSO DO ESTADO AINDA NÃO É INEVITÁVEL

Não procuro invocar uma certeza nem tão-pouco uma evidência. Cito apenas uma proporção intrincada que se combina e se expressa numa insciência ética e política que vai exaurindo a própria democracia.

O que sucede em Portugal merece meditação séria. Há 40 anos, a Assembleia Constituinte parecia uma Academia das Ciências. Hoje, com algumas exceções mais ou menos visíveis, a política de topo tornou-se um lugar tendencialmente mal frequentado. Por ambições vazias. Por distraídos bem-intencionados. Por coladores de cartazes que ficaram na fila à espera de serem servidos. O colapso do Estado ainda não é inevitável, escreve (de um modo provocatório, acrescento eu) Viriato Soromenho-Marques, em A roda do oleiro (artigo de opinião, Diário de Notícias de 16.10.2014)

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sábado, 11 de outubro de 2014

AMANHÃ, O MUNDO PARECE O MESMO

O sonho é um olhar perdido no horizonte dos (im)possíveis

Manuel Maria Carrilho (MMC), no seu escrito O paradigma perdido, de 09.10.2014 no Diário de Notícias, traz-nos à consideração o tópico do crescimento na sua sinuosa relação com a problemática labiríntica do emprego. Como balizamento do que me proponho especular, em nota-de-roda-pé[1], cito os dois parágrafos que captaram a minha atenção e (consequentemente) afagaram a minha deferência.

Dado que não tenho saber bastante para aprofundar criticamente o transcrito, situar-me-ei no plano da valoração da profecia, tendo consciência certa que aventar juízos de valor deste calibre não significa propor um qualquer despego do conhecimento no movimento dialético da sua serventia. Ousar pegar esta lucubração pela ponta dos valores significa, tão-só, reafirmar e ratificar o postulado que assumo como certo do seu papel atuante e significante no estabelecimento e conformação do conhecimento, ou seja, considero que os valores, sendo elementos presentes e participantes na intimidade das ideologias e das culturas, não deixam de interferir afincadamente nos fundamentos, natureza e validade dos conhecimentos.

Posto isto, e recorrendo ao insuspeito e prestigiado Thomas Piretty, aliás citado pelo próprio MMC, sinto-me instigado a destacar, embora de modo sumário, algumas das suas principais e elucidativas conclusões, aliás expressas logo no capítulo introdutório do seu livro O Capital no Século XXI, com o propósito de afirmar a atualidade da importância e da significância da consciência social na definição da arquitetura de possibilidades de futuro. São elas:

1. [É] preciso desconfiar de todo e qualquer determinismo económico: a história da distribuição da riqueza é sempre uma história profundamente política e não poderia ser reduzida a mecanismos puramente económicos.

2. A história das desigualdades depende das representações dos atores económicos, políticos e sociais sobre o que é justo e o que não é, das relações de poder entre esses atores, e das escolhas coletivas que daí decorrem; essa história tem a forma que lhe dá o conjunto dos atores envolvidos.

3. [A] dinâmica da distribuição da riqueza põe em jogo mecanismos poderosos que, de forma alternada, puxam no sentido da convergência e da divergência, e não existe nenhum processo natural e espontâneo que permita evitar que as tendências desestabilizadoras e geradoras de desigualdades prevaleçam no longo prazo.

4. [As] duas crenças otimistas, a [da] “ascensão do capital humano” e a [da] substituição da “luta de classes” pela “luta de gerações” constituem em grande parte meras ilusões, [concluindo neste breve trecho que a] longo prazo, a principal força motriz que verdadeiramente tende para a igualdade das condições é a difusão do conhecimento e da qualificação.

Chegado aqui, e para evitar equivocações dispensáveis, é momento de confessar que a circunstancial relevância aqui dada a estas conclusões justifica-se, acima de tudo, pela atualidade da controvérsia que instala vinda de onde vem, e não pela minha (parcial) concordância ideológica com esses desenlaces. Vigorosamente enraizado na inveterada convicção da insanável (e dialética) desavença entre o capital e o trabalho, o meu íntimo não deixa de apadrinhar a ideia persistente, ou mesmo azucrinante, que é no quadro mais geral da dissimetria dessa disputa contraditória que se faz e constrói a dinâmica do futuro.

No entanto, regressando aos valores, aos ideais que estes esboçam e à sua tarefa primordial de assim alcançar o existente no sentido de abrir caminhos possíveis para o futuro, penso que é essencial reconhecer e valorizar a eficiência do princípio alicerçador de que o atingível se define pela(s) possibilidade(s) do realizável, conhecendo (e agindo sobre) a materialidade dos múltiplos dinamismos presentes, ao mesmo tempo que se acolhe e se situa no lugar certo da conflitualidade (histórica) que os vivificam.

De um modo decretório, e por um longo tempo no futuro do nosso viver, o que hoje se decide e se materializa marca, projeta e potencializa diferentes e contrastantes possibilidades de desenvolvimento social e humano. Assegurar, como o faz Piretty, que a principal força motriz que verdadeiramente tende para a igualdade das condições é a difusão do conhecimento e da qualificação, parece-me (todavia) claramente excessiva pela sua insuficiência.

Na verdade, o conhecimento em si e por si, pese embora a sua natureza contextual e histórica, pouco ou nada ocasiona na produção material das nossas existências. Todavia, atrevo-me a desembestar que, dialeticamente vinculado à sua dimensão valorativa e à ação prática que esta reclama e impulsiona, o conhecimento, só aí, reencontra a transparência da sua fundamentação ética (e) transformadora. Finalizo, então, partilhando (esgoelando) a convicção de que a diversão ideológica, assente na persistente e deliberada autonomização das partes, mais não faz do que perturbar a determinação desse (desejável) possível no complexo contexto da sua imediatez, da sua historicidade e da sua contraditoriedade, na valiosa expressão de José Barata Moura que aqui tomo de empréstimo com a prudência semântica devida[2].

Amanhã, o mundo parece o mesmo mas, de certo, será diferente. Os possíveis estão ao nosso alcance todos os dias, para não dizer a todo o momento. Saibamos nós, na insatisfação do existente e num esforço de aproximação, partilhado e comum, alcançar e trabalhar esses possíveis desejáveis. Lembremo-nos que o mundo não deixa de mudar mesmo que apenas o observemos. Dramaticamente, em qualquer dos nossos ancoradouros existenciais.


[1] Perante a situação marcada pelo debate temático do crescimento económico e, essencialmente, tendo em atenção a forma como ele tem sido tratado pela política através de discursos feitos de “palavras mágicas, que nada dizem [ou] de silêncios calculistas, que tudo escondem”, MMC escreve:

O tópico do crescimento ilustra como nenhum outro [a situação acima descrita]. Já tenho lembrado como ele surgiu, afinal muito recentemente, em meados do século passado. E como ele se impôs com valores altos imprevisivelmente altos, superiores a 3%, na conjunção de um vasto e extraordinário conjunto de fatores, que vão da máquina a vapor à eletricidade, da industrialização à urbanização e à emancipação feminina.

E também já tenho sublinhado que é pouco provável, para não dizer impossível, que uma conjugação análoga se repita agora. Sobretudo porque o potencial de crescimento das inovações mais recentes é muito mais baixa porque a sua lógica económica se alterou profundamente, dependendo ela muito mais da redução de custos do que do aumento da produção.

[2] Em Para uma crítica da “Filosofia dos Valores”.

 

Fotografia retirada DAQUI (Sebastião Salgado da série Trabalhadores, 1993)

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terça-feira, 7 de outubro de 2014

IMPLUDA VOCÊ, SENHOR PRESIDENTE!

Cavaco Silva, o político militante mais presente nesta nossa amachucada democracia, mostra-se um homem crescentemente patético pela sua desmesurada ridicularia. A sua arenga no 5 de Outubro atesta uma esclarecida transparência que faz abortar qualquer impulso compassivo de piedosa hesitação. Se por um lado encena a hipóstase de alguns dos valores axiais à democracia, por outro, profana esse nosso real e amargurado viver fazendo de conta que o existente em nada o compromete. Atemoriza com a implosão do sistema partidário ao mesmo tempo que carpe pela imprescindibilidade do compromisso. Em jeito filosófico, desata (isolando) o Valor do Ser tartuficando apego e, sobretudo, uma teatral subordinação às reais dificuldades (interesses) das gentes. Com que fito? No seu estilo agrilhoado e jesuítico, apenas cuidar da ordem estabelecida que, no curso da dita falação, foi por ele, através de um alardeado farisaísmo, implacavelmente açoitada. O Presidente Cavaco teria sido cristalino se ele, porventura, de um modo corajoso ousasse desembuchar (com limpidez) algo como; ou a sempiternidade dos mesmos se entende ou as tais gentes, destarte atazanados, podem ter – eles – que desempenar (nas urnas ou nas ruas) esta amarfanhada democracia. Todavia, assim não falou o sonso e apavorado Presidente. Daí, sou compelido a arrematar que para aquelas outras gentes a dita eclosão seria (naturalmente) um conserto possível, para esses tais mesmos, uma imaginável e trabalhosa arrebentação e para o Cavaco presidente, uma calamitosa e garantida implosão…

 

 

 

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terça-feira, 30 de setembro de 2014

OS ECRÃS DA CASA DOS SEGREDOS

“O verdadeiro escândalo (escândalo de poder, entenda-se) é esse: a injeção quotidiana, em todo o tecido social, de avalanchas de indiferença, de tal modo que a contemplação das imagens produza um bocejo de pueril gratificação. Fenómenos como a Casa dos Segredos massacram, dia após dia, qualquer entendimento minimamente inteligente do trabalho com as imagens. Mais do que isso: escamoteiam o facto de um ecrã (televisivo, cinematográfico ou de telemóvel) ser sempre um instrumento de conhecimentos cujo funcionamento importa compreender e interrogar.”

 

Citação retirada do artigo Os ecrãs da Casa dos Segredos, de João Lopes/Crítico (Diário de Notícias, 30 de Setembro de 2014)

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sábado, 27 de setembro de 2014

FELIZMENTE, CUIDO BEM DO MEU MAU-FEITIO…

 

Não me abastardo em pensamentos que descansam e se deleitam no recosto das profecias. Daí, a minha forte descrença e suspeição por um qualquer profetismo, seja ele qual for, e que me levam, isto posto, à radical rejeição dos idealismos a que aquelas, as profecias, se prestam.

 

O que é a inteligência, o que se pode admitir como briga e o que se deve considerar desnecessário? Por mim, o silêncio é (e será sempre) resposta ao que não vale mesmo nada tendo em conta a materialidade em jogo. Todavia, nem sempre o que parece evidente como irrelevante é insignificante. O "pronto-a-repetir", circulante e dominante, alimenta uma acrisia ideológica que importa esgrimir. Assim não se sendo, o silêncio tornar-se-ia cúmplice e a involuntária aquiescência abdicação. Seja qual for a escala e o lugar da cena, prefiro tourear o escolho de ser acusado de tonto (embora íntegro e de corpo inteiro) do que me mostrar inteligente num suposto regime de part-time do enfatuado (mas execrável) bando elitista do politicamente correto. Aliás, só assim penso respeitar o Outro, mesmo discordando dele em absoluto. Apreciar, comentar e ajuizar as presumidas conversas-da-treta é recusar, por controvérsia, o tedioso tretear das nossas incontornáveis circunstâncias e do consequente e depressivo depauperamento relacional e ético das nossas vidas.

Como eu agradeço à minha avó paterna, de nome Justina, os genes legados daquele seu (hoje meu) mau-feitio que me protege e não só! Um mau-feitio que escora em mim o sentimento saudável de me sentir sempre presente e, sobretudo, verdadeiro.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O SEQUESTRO CAPITALISTA

“O capital sequestra os assalariados individualmente, uma vez que a venda da força de trabalho é a única solução praticável numa economia de trabalho dividido onde ninguém pode prover os requisitos da sua produção material fora da troca mercantil. Quando o acesso à moeda é o ponto de passagem obrigatório da simples sobrevivência, e quando este acesso só é possível sob a forma de salário, percebe-se que o fundamental do salariato é uma pistola encostada à cabeça. Por vezes, os assalariados esquecem-se disto – a tal ponto que semelhante representação lhes parece exagerada –, porque o capitalismo teve o cuidado de enriquecer as suas existências laboriosas com afectos geradores de alegria: uns extrínsecos, ligados ao consumo; outros intrínsecos, ligados à ´realização de si` no trabalho. Mas também lhes acontece serem brutalmente recordados, quando as máscaras caem e o assédio, ou o despedimento, se instalam sem rodeios”.

Citação retirada do artigo A esquerda não pode morrer, de Frédéric Lordon (LE MONDE DIPLOMATIQUE, Setembro de 2014)

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sábado, 20 de setembro de 2014

CONTRABANDO OU APENAS GENTE DE MÁ NOTA?

Com suposto espavento, lê-se hoje nos jornais algo que em nada me faz pasmar. Não examinei o agourento relatório, não desenleei (como é óbvio) os dados proporcionados, apenas me acareei com os supostos – embora indecorosos – sintomas prefaciados. Advertem estes que se inflacionam as notas e se aumentam as retenções tudo em nome da busca divulgada (não necessariamente real) do “valor”, da “verdade” e da “qualidade” das organizações. Por mim, questiono-me, isso sim, como é possível tal sobressalto numa sociedade que, com entusiasmo untuoso, simboliza o rico[1] e que, com igual nitidez e nexo, se deixa enfastiar com a faina de sindicar as receitas de que esse rico se serve para, sem pudor, mais enricar? Pergunto-me, também, como é aceitável tal alarme mediático numa cultura que se inebria, com arrebatada saloiice, com toda a espécie de rankings, onde o digno não se diferencia do merdoso e (sobretudo) ignora, talvez deliberadamente e com uma assombrosa tranquilidade moral e intelectual, as mais que duvidosas, parciais e suspeitas fórmulas utilizadas na legitimação dos seus inconfessáveis pressupostos? Se a classe média se tem vindo socialmente a eclipsar, por que razão não acontecerá o mesmo a esse análogo estrato escolar. Em nome da excelência educativa proponho que a fatídica fronteira do 10 se mova, de uma vez por todas, para o excelso 16. Desentulhava-se a vida das (e nas) escolas e transparentava-se o contrabandismo que o sistema de ranking escolar cauciona, ratificando-se (sem artifícios sombrios) o campo escalar da batota ideológica, política e institucional.


[1] Entenda-se, sobretudo, por rico a jactância do capital social, aquele que se entretém a jogar no tabuleiro execrável da “destruição criativa”, no sentido que Frédéric Lordon lhe confere (LE MONDE DIPLOMATIQUE, de Setembro de 2014).

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O COMUM DA INDIVIDUALIDADE

 

Neste lugar tornado gritoeargumento, devo confidenciar que tenho um avinagrado vício libertário de transverter as solapadas razões que – num quadro aprontado de noções-feitas – malevolamente habitam o meu/nosso quotidiano, procurando assim, apesar das minhas manifestas e confirmadas limitações, desnudar as intransparências que, não por acaso, nelas se inscrevem e, dessa forma, teimosamente embaçam a minha/nossa compreensão. É, confesso, um reconhecido vício na medida em que me sinto amiúde tresmalhado na caprichosa busca desse porvindouro entusiasmo de compreender, compreensão essa supostamente firmada, assim presumo, nas leis naturais da matéria e da mente e sobre as quais a minha saúde – mental, emocional e de bem-estar – parece depender.

Porém, a dita e obstinada indagação não é mobilizada por um qualquer intento pessoal de extravagância ou originalidade mas, ao invés, move-se na ânsia de escapar à imediatez fenoménica das representações que alinhavam o imperante e expedito sentido do adotável e do socialmente acomodado à ordem cultural/ideológica prevalecente, fazendo-se esta, por ausência ou negação crítica, cúmplice entorpecente deste concerto capitalista, indesmentivelmente kafkiano e socialmente miserável[1]. Acompanho aqui Ernst Bloch quando ele afirma que pensar significa transgredir, ou seja, creio eu com a prudência devida, que tal aforismo sugere a ousadia de nos embrenharmos (para além do sancionado que se repete sem tino) no terreno exigente da materialidade das relações que escoram a compreensão enquanto necessidade epistemológica e que, nessa qualidade, esse saber não deixe de favorecer (e assim facultar) o exercício do seu lógico e coerente ofício, não só no plano da crítica como na arquitetura do fundamento preconizado, quer através da argumentação que se sustenta, quer no decurso da ação que o esclarece.

Pensar dá muito trabalho mas, do meu ponto de vista, aliás já implicitamente indiciado, não há outro jeito senão pensar com radicalidade (e determinação), capturando as coisas pela raiz, sob pena de empedernir a débil docilidade conformista das nossas existências. É preciso (assim) pensar, indagando e aproveitando os resultados da ciência que no terreno e para o terreno se faz. É preciso pensar, instilando as suas múltiplas e benéficas malvadezas, com pertinência e critério, na quietude certa dos roteiros martelados e recalcados e, en passant, com saber e inteligência, livrar-se da saloiice intelectual dos achadismos atoleimados ou dos sidéreos e ociosos diletantismos. Hoje, mais do que nunca, urge convocar o exercício de um pensar que se agite na demanda de um saber fundamentado (e grudado) nas (e às) realidades que interessam compreender, de modo a cimentar perspetivas, estabelecer estratégias e gizar comportamentos políticos (e outros de manifesta implicação prática nos revolucionamentos necessários ao incremento de uma sociedade mais justa e transparente e estruturalmente mais humanizante. A verdadeira obra da nossa individualidade passa por aqui, ou seja, ela arquiteta-se através da forma como nos posicionamos nesta paradoxal moldura entre a facticidade (o facto de não prescrevermos as nossas próprias especificações primordiais), a nossa natureza histórica (a inescapável historicidade que nos esculpe e inspira) e a liberdade indeclinável que a nossa autoconsciência e imaginação, faculdades intrinsecamente humanas, nos proporcionam. Eis o trágico desafio de uma obra tornada drama pela impossibilidade de, desse desafio, não nos podermos desobrigar.


[1] O que nos oferece este concerto? Uma miséria absoluta da maioria da população mundial que testemunha, estranhamente submissa, à ostentação da riqueza por parte de uma minoria vampírica que a esbulha; uma superprodução de mercadorias onde a maioria não acede aos bens básicos e essenciais; a marginalização, convertida em racismo social, de jovens, desempregados e velhos nos países ricos; o crescimento do emprego precário e da própria desqualificação profissional face à introdução das novas tecnologias e das suas aplicações afrontosas ao trabalho e ao desemprego; a expansão da violência e da criminalidade, designadamente nas grandes urbes, entre outras desventuras…

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