sábado, 25 de abril de 2015

NÃO SE PODE PEDIR COICES A UM CAVALO DE CARROCEL

Um desabafo sobre Thomas Piketty e o seu Capital no Século XXI

O mundo à medida do Capital, que no tempo que ocorre estrangula, com desumana violência, o campo imenso do trabalho, tem vindo a mover-se e a envolver-se em uma vigorosa onda sistémica que a seu favor estorcega, sem clemência, não apenas a esfera do económico como também as jurisdições da política e da cultura, atroando impassível as sociabilidades que conformam a vida e o dia-a-dia dos trabalhadores e das suas famílias. A mancebia amorável, todavia dissoluta, do acasalamento neoliberal com o fundamento pós-modernista explica, e em muito, a escala e a sucessão dos fenómenos sociais que dessa intimidade desabrocham e que enchiqueiram hoje, como no passado, o mundo da grande maioria das pessoas que do trabalho vivem.

Perante tão dramática realidade, pergunto-me; e se, de uma vez por todas, deixássemos de encarar às avessas este mundo e definitivamente sepultássemos a peregrina ideia de que é o dinheiro que gera riqueza e nos convencêssemos que somos nós, os trabalhadores, quem afinal produz o Capital. E se desistíssemos de pensar o Capital como o dinheiro dos ricos, como nos aconselha Frédéric Lordon[1], e aprendêssemos com Marx que o Capital “é um modo de produção, isto é, uma relação social. Uma relação complexa que, à relação monetária das simples economias mercantis, acrescenta – é este o centro de toda a questão – a relação salarial, constituída em torno da propriedade privada dos meios de produção, da fantasmagoria jurídica do ´trabalhador livre`, esse indivíduo todavia privado de qualquer possibilidade de reproduzir por si próprio a sua existência material, e por isso atirado para o mercado de trabalho, forçado, para sobreviver, a empregar-se e a submeter-se ao controlo patronal, numa relação de subordinação hierárquica”? A mutilada epistemologia de Piketty, sobre estas questões, nada diz porque a raiz dessa mesma epistemologia não inscreve, de modo claro e consequente, o incontornável antagonismo Capital/Trabalho. Daí, o seu Capital do Século XXI ter merecido uma surpreendente (ou talvez não) unanimidade mediática.


[1] Do artigo no LE MONDE DIPLOMATIQUE, edição de ABRIL 2015, de FRÉDÉRIC LORDON, intitulado Com Thomas Piketty, não há perigo para o capital no século XXI.

NotaO título dado a este texto é uma expressão de FRÉDÉRIC LORDON usada no artigo acima referido.

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quarta-feira, 15 de abril de 2015

O BRUAÁ DO ASSANHO

 

De relance, creio identificar os porquês que (certamente) esclarecem a chinfrinada à volta da factível candidatura de Sampaio da Nóvoa a Presidente de todos os portugueses:

(1) – O candidato a candidato não provém do promíscuo mundo dos negócios, não foi desemprenhado pela comprometida indústria da comunicação massiva e desperta, aos olhos de muitos desesperançados, uma imagem responsável (não populista) de independência político-partidária pouco confortante ao statu quo sistémico e aparelhístico;

(2) – O candidato a candidato projeta, com coragem e clareza, uma tonificante e coerente mensagem cívica e política, informada e criticamente escorada em dinâmicas sociais e culturais emancipatórias de valorização humana e de qualificação existencial;

(3) – O candidato a candidato tem-se dado a conhecer como um homem de dimensão superior, de invulgar compreensão científico-filosófica e político-cultural da totalidade complexa deste agregado de mudanças e de situações significativas que constituem a dramática realidade desta ordem hoje mundializada.

Sampaio da Nóvoa parece ser, depois deste calamitoso mandato de Cavaco, um homem que saberá tornar a cidadania em uma categoria, diria epistémica, valorizadora do campo e da ação políticas, inscrevendo no exercício dessa mesma cidadania, renovadas referências, linguagens e padrões de racionalidade que as condições históricas atuais, do meu ponto de vista, não só reclamam como exigem. Por isso o bruaá à volta da sua candidatura percebe-se e, exatamente por que se percebe ao captar-se o seu sentido e significado, vale a pena enaltecer as qualidades pessoais, públicas e cívicas de Sampaio da Nóvoa.

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terça-feira, 14 de abril de 2015

EM TEMPOS DE ELEIÇÕES, AS CONCIÊNCIAS E AS VONTADES NÃO ESCAPAM À COBIÇA DOS MERCADOS

 

Neste clima eleitoral, em que o disfarce e a mentira animam a manipulação e se dão a reconhecer os mercenários que, partejados pela impetuosa indústria da comunicação, buscam pinchar poderes de novos palcos, aqui deixo o Elogio da Dialética, de Bertolt Brecht, como rumo sem fim à única Democracia em que creio.

 

A injustiça avança hoje a passo firme.

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

O poder apregoa: as coisas

continuarão a ser como são.

Nenhuma voz além da dos que mandam.

E em todos os mercados proclama a exploração:

Isto é apenas o meu começo.

 

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes, falarão os dominados.

Quem pois ousa dizer: nunca?

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.

De quem depende que ela acabe? De nós.

O que é esmagado, que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe e o que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.

 

Invoco cuidado e atenção para esta abjecta avidez de domínio de consciências e vergadura de vontades. Eis o além do exercício da violência de tão poderosa venalidade.

 

 

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sexta-feira, 20 de março de 2015

ONDE ARRUMO O QUE SUPONHO ESQUECER?

 

Um mês depois, volto ao GRITO mas desta vez com recônditos ARGUMENTOS…

Sem sossego, surrado pela normalidade da vida, sinto-me sendo o que ainda vou sonhando ser. A heteronímia que em mim se espreita, e me move afinal nesta agitação de ser, encalha numa insubmissa identidade que resiste ao enfadonho subterfúgio de ser apenas um outro incerto. Por isso, para além da fadiga que me cansa a alma, a escrita possível – e que dessa lassidão teima em sobreviver – nem sempre escapa à descrença desse sonho que advém de um estranho e arrebatador desejo, sempre forte e irresistível, que em mim desperta a ânsia ébria de tão-somente sentir ser. Dar vida e voz a tão forte avidez exige de mim a presença, desprendida e tranquila, de uma arguta cumplicidade que a tome e, com verdade e atenção, cuidadosamente a alente. Na ausência dessa reciprocidade, a ocupação da escrita submete-me sem fim ao trânsito inevitável de uma amarga desordem, de um ingrato tempo de entremeio que se afunda numa delicada e extenuante arte de engaste e que, de algum modo, me atormenta e até deprime.

Não tenho ilusões. Sei que as minhas memórias abrigam feridas que não me satisfaz avivar. Na inseguridade da permanência dessa certeza, e da violência do seu silêncio, experimento um singular tempo de fortes ventos incitados por temeridades cogitadas, assim creio, de írritas inquietações. Logo, não sei se o-que-vou-sendo tem as suas raízes no chão da memória que ressignifico, se na cripta do esquecimento que desafio ou – como saberei? – se no baldio da (des)lembrança que decididamente não encorajo. Em consciência, não me sinto encarcerado no interior conflituante dos aludidos povoados e dos seus dissimilares proveitos. O que sei, de um saber sentido, é que deste transcorrido mundo o que me aproveita não é certamente fixar o passado mas, a partir dele, saber esclarecer um porvir que me acalente o ânimo de desvendar renovados horizontes, escolhas e possibilidades, de ainda vir-a-ser. Deste jeito, a vivacidade do esquecimento assim arrumado reanima a ressignificação das memórias que me acompanha nesta penosa faina de escrever.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

UMA INTERROGAÇÃO ÉTICA – DO TRUNFO AO TRIUNFO DA BATOTICE

 

Não estou acostumado mas também não me sinto (per)seguido pela sombra da perplexidade. Dedicados cristãos e ateus resolvidos, apesar das suas avessas justezas – uns crendo que Deus criou o homem, outros acreditando que foi o Homem que concebeu deus – ambos espelham com agrado, entre o louvor e a conveniência, o revelado rosário das melodiosas e sociais prédicas do Papa Francisco, de acordo com a natureza religiosa ou laica das suas espiritualidades. Donde vem esta sensibilidade comum que convizinha estas contrastantes almas, admissivelmente sobrevindas, do Cristianismo os primeiros e, quiçá, do Ideal marxiano os segundos?

A minha exegética explicação – e aqui vai a sua premissa medular – é que uns e outros são sensíveis ao sofrimento dos homens e das mulheres desterrados do chão da sua dignidade e, por via disso, uns e outros sentem-se irmanados não só na queixa (e natureza) desse desditoso calvário como comungam no concerto das suas causas e, eis a suma notícia, no apontar condenatório dos factótuns cultores, obscuros e inumanos, dessa alienante atmosfera que acorrenta as gentes ao dinheiro mediante despudorados e desalmados encantamentos, preceituando e compulsando, deste jeito, a cruenta lógica de uma realidade social agoniada pela voracidade da renda e pelo ascoso cálculo dos que muito têm e mais querem ainda.

As teologias, cristã e laica, descobrem-se então naquele rizoma ético de germana humanidade enquanto uma outra gente, seguramente mais germânica, bem-apessoada, de jesuítico rosto e semblante altivo, taramela, em chorrilho, razões de mercado papeados em ruidosos e esgarçados números que, adormecente na sua presunção, espertam afinal a penúria e a plebe que dela amarga. Pedro Sampaio Nunes, no Prós e Contras desta segunda-feira[1], foi um indiscutível artista, histrião arquétipo dessa outra gente. Antecipou e regurgitou números sobre os números dos outros, arengou sobre eles empertigado e possuído por um sentido único e forcejou-se por catequizar os incautos chamando à encenação, com tocante contumácia, o uso simples mas espelhante de uma banal folha de Excel. Sempre improporcionado, os desfechos das suas oratórias económicas culminaram, através das suas mensagens epilogadoras, numa patética mas desmascarada exaltação política à lufa-lufa dos coveiros dos nossos cemitérios sociais e humanos. Em jeito de conclusão, configura-se-me, deste modo, como sempre atual a inconciliabilidade entre (os números do) Capital e (a verdade do) Trabalho, reconhecendo que a utilidade das categorizações, por si só, não consubstancia a engenharia reversa desta farsante e ignóbil batotice. Mas a batota, essa, transparece nua e obscena apesar de embrulhada no sorriso emproado e desdenhoso dos trapaceiros.


[1] 23 de Fevereiro de 2015

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domingo, 8 de fevereiro de 2015

APOSENTAÇÃO – UM AMPLO TERREIRO DE LUTA

Intervenção realizada no 5ª Congresso do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa (SPGL)

 

Nem sempre se pensa o tempo bastante para soltar o que nos vai na alma. O apontamento escrito que se segue não é mais do que um burilado desabafo ocasionado por outros ressaltados numa aproximação de pares, a que habitualmente se reclama o atributo de reunião de trabalho.

Permitam-me, assim, com alguma ironia, para me proteger de desnecessárias e ociosas nebulosidades, começar por esclarecer que pertenço àquela camada supostamente desqualificada de aposentados à qual, por ordem desse poderoso e calculado quadro binário mercatório onde a juventude irrompe exaltada, se fixa e cola uma outra atávica e paternalista categoria; a categoria social da velhice. Aclaro (todavia) que, para aconchego do meu ego e sossego dos meus pares igualmente enrugados, enquanto o rumor do fim não despontar no meu (e julgo que no vosso) corpo, os meus e os vossos olhos não deixarem de reconhecer criticamente o que observam, a doença não nos atraiçoar e o medo não nos aprisionar, o poder da insolência da norma instalada não sonegará (ou não nos deve sonegar) o pleno direito à vida e à liberdade de a coabitar.

Não obstante a historicidade diversa que a todos nós, aqui presentes, nos faz diferentes, a pluralidade das nossas díspares idades, das nossas experiências e dos nossos olhares, pensamentos e juízos sobre a realidade que nos atinge e o Real que socialmente nos arruma, estou certo da exigência comum que nos aproxima neste quadro atual – chocante e dramático, moldado de indignas desigualdades, trágicas exclusões e violências de toda a ordem – que, apesar das aparências civilizacionais, não consegue mascarar a manifesta e crescente esclerose desta combalida e capturada democracia. A promovida e decretada austeridade em que vivemos, dessubstanciada enquanto conceito económico, entulha-se – assim e por conveniência – de cínicos moralismos para valer e se legitimar na sua função instrumental de extorsão a caminho de uma ávida e vantajosa redefinição, autoritária e assimétrica, das relações essenciais de organização da nossa sociedade.

Evitando alongar-me em demasia, socorro-me à sinopse da minha perspetiva, atrevendo-me a identificar e a apresentar os três planos – que priorizo – de análise e ponderação que sobre esta compósita temática da aposentação que, sendo já de si compósita, se complexifica quando a urgência de hoje se tempera com um futuro por vir.

1. O plano da luta imediata, tendo em atenção a centralidade do papel que importa atribuir à função social dos sistemas de pensões no que à formulação de políticas neste domínio diz respeito.

Em termos mais amplos e abrangentes, diria que neste campo importa, aliás como se tem sindicalmente empreendido, salvaguardar os níveis de vida no período de reforma e rejeitar, a pretexto do equilíbrio do sistema, a sarcástica e bondosa referência estrutural daquele despudorado limite ideológico da premunição e premonição da pobreza, assim como as tentativas de imposição, por analogia, de esquemas contributivos próximos dos mecanismos seguradores privados e combater o decréscimo dos rendimentos através de expedientes técnicos similares ao fator de sustentabilidade ou às novas fórmulas de cálculo, entre outros.

A moção aprovada na semana passada, no âmbito da Tribuna Pública realizada no dia 29 de Janeiro, em frente do Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, em defesa de uma aposentação digna, é (neste capítulo) esclarecedora. Nela, são enunciados algumas das medidas que têm agravado seriamente as condições de vida dos professores e dos educadores aposentados, como (naturalmente) são contrapostas as exigências daí resultantes, constituindo estas o fundamento da luta premente pelos nossos direitos e dignidade.

2. O plano da longevidade crescente e das suas implicações humanas, sociais e económicas, tendo em conta a definição de políticas que, de modo eficiente e notoriamente, se concentre na função social que o sistema público de pensões deve acolher.

No que respeita ao presente, e sobretudo ao futuro das pensões de reforma, importa que todo e qualquer ajustamento face à progressiva longevidade não se estabeleça pela redução dos rendimentos dos aposentados, colocando o encargo da suposta correção sobre estes, arquitetando cálculos que afetam negativamente a chamada taxa de substituição e/ou moldando trajetos de rendimento na reforma que se afastam da evolução geral de rendimentos na sociedade.

Se a questão dos rendimentos é determinante na qualidade de vida dos aposentados, para uma aposentação bem-sucedida não é, no entanto, bastante. Aposentei-me no dia 1 de Junho de 2008 e no dia seguinte, felizmente, não me senti mais velho. Concluí, então, para espanto meu, que a aposentação, por si, não me fez envelhecer. Este traço irónico, caros congressistas, tem apenas como propósito alertar para a necessidade de constituir a condição de aposentado como objeto de preocupação, estudo e reflexão sindicais e, sobretudo, para a necessidade de olhar, sem paternalismos doentios, para todos aqueles que se encontram nesta fase de vida adulta mais avançada.

A idade não tem, por si só, um estatuto explicativo no que respeita às capacidades psicológicas, sociais e cognitivas. Ela (a idade) é apenas uma variável bruta cujo significado, nesta complexa sociedade moderna, merece ser esclarecido em referência, não só à igual complexidade dos processos que constituem o desenvolvimento humano, como às condições que o modelam. A longevidade crescente alarga o universo dos aposentados e uma parte destes, é bom lembrar, conservam a sua autonomia (física, psicológica e social), mantêm a capacidade de decisão e controlo sobre a sua vida e mostram-se ativos (e de voz ativa) no exercício da sua cidadania. Inscrevem-se, neste campo, aspetos de trajetórias e projetos de vida, de sociabilidades e de identidade que fundam mudanças que convém acompanhar. Para bem de todos, estejam estes no ativo ou na aposentação.

3. O plano da organização sindical dos aposentados sindicalizados, tendo em vista a sua representatividade quantitativa (nº de associados) e qualitativa (natureza dos problemas que se suscitam no âmbito do direito a uma digna e bem-sucedida aposentação).

Neste campo, enuncio três tópicos que considero relevantes para o estudo, análise e deliberação no domínio da jurisdição sindical. São eles:

- A participação dos professores e educadores aposentados na vida sindical, seu âmbito e representatividade nas estruturas de formação e decisão sindicais.

- A exigência imanente de renovação de quadros na sua correlação com o significado e valor do relacionamento e comunicação intergeracional, designadamente com os aposentados sindicalistas que manifestem disponibilidade e interesse no domínio deste tipo de cooperação.

- Aprofundamento e descentralização das atividades formativas e culturais, tendo em linha de conta os contributos teóricos hoje apresentados no domínio da investigação acerca do desenvolvimento humano, nomeadamente no que respeita aos adultos de idade avançada enquanto seres em formação.

Relembrando Saramago, numa passagem do seu livro Evangelho Segundo Jesus Cristo, aquando da morte de Jesus onde diz que ele foi morrendo no meio de um sonho, contrastando diria que não aceito, não devemos aceitar, morrer num kafkiano estado de pesadelo. Não só por nós mas, igualmente, por todos aqueles que incontornavelmente passarão por este tempo grisalho da vida.

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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

E SE FALASSEMOS ANTES DE LIBERDADE DA (E NA) IMPRENSA?

Nestes dias de deus-nos-acuda, a militância jornalística e colunista acomodada nos media, na sua arte de agilizar a fazedura do prescrito senso comum, desvelou-se – aliás, como sempre – na entrega costumeira do cultivo orgânico do consenso, embora desta feita devotamente à volta de Charlie, encorpando nele a virtuosa reputação da liberdade de expressão. Os variados alardes formigaram, as sonegações agilmente e a preceito se esquivaram e as imprecisões, em aditamento conforme, exibiram-se acuradas. Com efeito, estas somadas e concertadas parcelas gizaram, de modo ardiloso, a profanação da função social que lhes cumpre, ocasionando momentos de infidelidade mediática no uso farisaico desse exercício, uso este prestado e maquilhado por rostos supostamente respeitáveis, quando não bondosos e angelicais.

Destes, quase todos, surfaram a gigantesca onda comunicacional do “je suis”, valendo-se da prancha simbólica da liberdade de expressão, quando não aparentam sequer saber (ou coragem de aprender a) nadar nas encrespadas e exigentes águas da ética do seu ofício. Sabemos que o treino é severo, a aprendizagem extremamente dura e a vigilância inclemente e ilacrimável. Por isso, muitos, assustadoramente muitos, podem querer mas falta-lhes coragem para entrar nessas águas e seguir em frente no tirocínio.

João Almeida Santos, no seu livro MEDIA E PODER, menciona (pág. 24) os princípios fundamentais que se inscrevem nesse aprendizado e que constam no silabário europeu, pomposamente designado por Resolução do Parlamento do Conselho Europeu, sobre as formas de proceder nas tais arriscadas águas da ética.

Em jeito abreviado, quais são esses mandamentos?

(1) – A responsabilidade moral dos media; (2) – A exigência de veracidade, de rigor, de imparcialidade e de independência na informação; (3) – A presunção de inocência e recusa de pronúncia de veredictos; (4) – A distinção entre notícias e opiniões; (5) – As opiniões honestas e com retidão moral; (6) – A recusa de pressões; (7) – A recusa de tratamento da informação como mercadoria; (8) – A consciência de que os media não representam a opinião pública e de que não são poderes nem contrapoderes, porque não estão sujeitos aos controlos democráticos; (9) – A limitação do estatuto económico das empresas de comunicação e das orientações ideológicas dos editores e dos proprietários pelo direito fundamental à informação e pelos princípios éticos.

Como tenho reiterado de modo axiomático, o homem sendo um ser de relação, o juízo ético do valor da liberdade não pode, por essa raiz indeclinável, diria mesmo ontológica, tolerar a inobservância exigente dessa relação. A função social dos media a tal não escapa e, em consequência, ela encontra-se institucionalmente regulada pelos diversos códigos éticos ou deontológicos que, naturalmente, fundam a sua legitimidade. É confortável surfar a onda comunicacional do “je suis charlie”. Será bem mais bicudo, cada um no seu ofício, exibir o dito silabário lembrando aos poderes e aos seus concidadãos a sua determinação pela liberdade de imprensa, exprimindo-se corajosa, responsável e livremente.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

E O ACINTE FUNDAMENTALISTA DO FIRMAMENTO CAPITALISTA?

A despropósito? Talvez. Mas a liberdade de expressão tem destas coisas…

Não é a insistente indolência em redigir que basta para me desaproximar da escrita. Em particular, apesar dessa corrosiva moleza, é a banalidade que me intimida e atemoriza. Neste tempo revelado pela madureza, o sobressalto ante o exaurido tornou-se, para mim, uma fixação mítica, quase religiosa. A difusa e irritativa suficiência consolidada na superfície da mediocridade burguesa, só de me poder atraiçoar, enregela-me o espírito. É uma maneira de estar que, embora pautada pelo pungimento, sinto mover-se na infindável e contraditória façanha catártica de um ser que se busca eticamente autêntico, campeando aqueloutra autenticidade, que acredito não ilusória, onde, num mundo resgatado por um sentido inteiro da condição humana, a diversidade seja possível. Creio que ser-se autêntico, verdadeiro consigo mesmo, requer uma intrepidez moral que se cimenta na compreensão de si como um ser de relação consigo, com os outros e com o mundo. Por isso, convictamente creio que, com a escrupulosidade imposta por esta autenticidade, quando se preza o outro como um Outro-eu, a necessidade do uso utilitarista da racionalidade instrumental enfraquece-se – admiravelmente, diga-se – a favor da humanização da vida (individual e coletiva), da valorização do social e do exercício nobre e exigente da cidadania.

Experiencio o mundo sentindo-me arrastado por distintos e coexistentes fanatismos – dos bárbaros aos silenciados, dos abjetos aos institucionalizados – para a fronteira de escalas (e escaladas) diversas cujos horizontes se revelam enxaras desabitadas de razões de esperança. Educado e inspirado pela ideologia marxista, a desesperança assim justificável questiona-me ideologicamente e esta (a ideologia), por resistência e concordância, concita-me a colocar esta minha presumível crise no prato do otimismo dessa vital balança que abre ou não, desbrava ou não, uma possível vereda solidária e preciosa no caminho de uma futuridade humanamente digna. A expressão mais sincera e genuína de solidariedade é estar ao lado dos fracos nas suas multíplices condições de iniquidade e de amargura. Servirem-se destes e da sua fraqueza para galgarem o poder falsifica a democracia, desafia os deveres da honradez solidária e invoca o legítimo e adicional imperativo ético e moral de lutar contra tal e tamanha promiscuidade política e humana. A louca dinâmica de empilhar capital, a consequente sucção da riqueza e a convergência ilegítima de poderes não se mimetizam num equivalente islâmico bombista mas é, manifesto, um desregrado conjunto alicerçante de um outro tipo de estado global, circulante, terrorista e corruptor que também mata, e faz sofrer, através da imoralidade de desigualdades de toda a ordem que, por si, determinam e delas se alimentam. O islamismo radical é objetivamente criminoso mas o fanatismo capitalista, financeiro e neoliberal não deixa de ser miserável. A realidade assim o confirma.

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sábado, 27 de dezembro de 2014

AS ONDAS PANTANOSAS DA INDÚSTRIA DA CONSCIÊNCIA

 

O atual pântano ideológico (que nos sitia) proclama o princípio supremo da livre competição, no granjeio sempre diversamente materializado, como uma condição medular à realização do bem-fazer coletivo. Como consequência, admitir e encalçar o desígnio do interesse comum torna-se, nesta imaginativa lógica, num cogitar fossilizado face à demanda do bem-conceituado sucesso individual e dos valores que o ratificam. Por vezes, quando a circunstância se oferece e se enfrenta o tema, as críticas dos presentes a uma tal premissa logo se rateiam entre o vanguardismo acusativo da retrogressão e a vigilância sarcástica do radicalismo revolucionário.

Os situacionistas, gente bem instalada e uma outra aparvalhada que se julga aí hospedada, de imediato se esquivam a malbaratar o seu suposto e aburguesado valor social, sempre superficial e quase sempre contrafeito, e corporificado por trás da lídima ostentação ou da mimetização burlesca da sua arquitetada aparência carnavalesca. No quadro desta sucinta sinopse, estes situacionistas, sobretudo os aparvoados, encanzinam-me porque, perdidos nas veredas da moda e dos seus modismos, pela estreiteza ou lateralidade destas, não enxergam o que vale pensar e discutir e, como nos alerta Kurz Robert, alegremente gastam o seu tempo crítico a surfar as ondas pantanosas da indústria da consciência. Nestas águas, as da consciência, procuro não ser cândido e muito menos indiferente. Assim sendo, tal agastamento não abocanha a tenacidade do meu enraizado inconformismo.

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

REMEMORAR O PASSADO

 

Seriamente penso que as memórias transfiguram sempre o passado. O tempo e o momento dispõem a alma a uma ficção apropositada. Parafraseando Dupuy[1] diria que a causa é [nestes casos] posterior ao efeito, [pois] o motivo da viagem é uma das consequências da [própria] viagem.


[1] Citado por Slavoj Zizek, em “VIVER NO FIM DOS TEMPOS”.

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