quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A VORAGEM DO NÃO-ACONTECIMENTO

 

A expectativa que algo aconteça faz-nos percorrer a calçada que nos leva da euforia ao desalento ou vice-versa. O sentido do percurso depende de onde nos encontramos e para onde queremos seguir. Acontecer é, porém, sempre qualquer coisa que acossa a rotina feita de nada acontecer. Se é bom ou mau acontecer, só o tempo o dirá. Uma coisa é certa; nada acontecer é apenas e tão-só estacar na calçada e bocejar na companhia da entorpecida rotineira.

Share:
Read More

terça-feira, 13 de outubro de 2015

E SE EXPERIENCIÁSSEMOS SER NOVAMENTE CRIANÇAS?

 

Tenho, para mim, que cedo demais desertamos daquele lugar onde o audaz “porquê?” de criança desafia a impenetrabilidade do mundo. Crescemos, temos de nos sentir crescidos e aos outros mostrar quanto crescidos estamos. É um tempo de afirmação onde o “porquê” nos transparece desvantagem e, quiçá, uma embaraçosa modéstia tocada pelos adversos e comprometedores subúrbios do delicado sentimento de ignorância. Abre-se, provavelmente assim, espaço ao orgulho embrutecido pela linguagem do convencimento, irrigando e adulterando esta através da cobardia que se mascara. Afirmar arrasta consigo uma consoladora fragrância de poder. Ao invés, perguntar prefigura o reconhecimento da possibilidade do poder do outro. Com alguma prudência direi que não fomos (nem somos) educados a questionar a prática e a obra imaginável do próprio questionar. Desistir de perguntar, abdicar de questionar, é renunciar entender como o mundo se exerce. Talvez por isso ele funciona como funciona sem um questionamento que verdadeiramente valha.

Share:
Read More

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O PS E A SAÍDA PARA O FUTURO

 

Enquanto não me apresentarem uma argumentação convincente e consolidada, capaz de reabilitar a minha ancilose epistémica, permanecerei seguramente conservador. O tópico contemporâneo das enraizadas e dissolutas desigualdades, aliás de iníquos e trágicos alcances, teima em exibir-me a relação capital-trabalho bem acomodada no miolo da desconfortável fórmula marxista da equação dos seus oponentes interesses e, assim sendo, a tornar-me incompassível aos hodiernos travestismos com que se entraja tal liame. Aqui repousa, nos dias de hoje, e do meu ponto de vista, a aporia (ideo)lógica do PS e da sua social-democracia e, sobretudo, do seu penoso tiquetaquear político de desejada, ou fingida, superação.

A questão não é, como creio, de ter ou não responsabilidade institucional, preceito eleito (como convém) pela governabilidade da dominante Ordem, mas de um inconfundível posicionamento face à verdade da iniquidade do real. Esta verdade pede clareza e não uma qualquer retórica que subjaz à evasiva do seu íntimo entendimento. A bipolarização política vai-se, assim, entregando aos extremos, não outorgando espaço às premeditadas vacilações e obscuridades. Aqui, afinal, reside para mim, a consequente positividade sarcástica das consequências históricas deste selvático e dogmático Conselho de Washington. Aprendi que ter esperança não se fica pela espera. Ter esperança incita a caminhar atrás do que não existe no interior da insatisfação pelo que existe. Este é o esperar da esperança do meu conservadorismo e do otimismo que o segue na vivificante SAÍDA para o FUTURO.

Share:
Read More

sábado, 3 de outubro de 2015

PRAXATEAR AS CONSCIÊNCIAS

 

Definitivamente, não condescendo com as praxes arbitrárias e humilhantes. A dignidade humana e o sentido de Universidade que a ela se impõe associar, exigem vindicar algo bem diferente e bem mais escrupuloso no desígnio ético. Suspeito que uma liberdade perdida no vazio de referências, sem regras e estremas, prontamente encaminha a benignidade dessas tradicionais práticas de iniciação e de integração para o cavouco obsceno da indignidade e do escorchado espetáculo. Reconheço que se trata de um radical sentimento pessoal que se apura face a comportamentos que considero digressivos para quem busca coabitar um emérito lugar de elevada formação e de expectável responsabilidade social e cívica. Admito que aprecio a rebeldia (ou a insubmissão) quando esta sabe exercer o seu espírito crítico em fecundo e inteligente diálogo com os valores sociais e políticos da cidadania. Nesta medida, creio sensato que se estime este (ab)uso reprovável da praxe olhando para ele como uma espelhada e inquietante imagem de uma sociedade em que o valor do outro obedece à tirania de uma aviltada razão instrumental. Ainda é tempo de não comprometer insanavelmente o compromisso com o outro. Culpar os desregrados não desobriga as responsabilidades coletivas e, sobretudo, o instituto que destas deve cuidar, tutelando o tempo vindouro que a todos nós pertence.

Share:
Read More

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A ESTRANHEZA DO ÚTIL E DA UTILIDADE DO VOTO

O PAPEL DO JORNALISMO NA CONFISCAÇÃO DA DEMOCRACIA

Apercebo-me que a função social do jornalismo – verdade seja dita, qualificadora da legitimidade profissional do jornalista – vagabundeia hoje pelos becos de uma obscura “deontologia”. Descuidada da sua originária missão, a auspiciosa função social, o jornalismo vem-se acostando e, de uma forma extremada, amimando a ávida jurisdição dos conluiados poderes económicos e políticos.

Entre outros pastoreios, deste respaldo se efunde, como parece ser óbvio, uma disposição contrafeita pela incursão no jardim das delícias do dinheiro e do poder, com a incluída barganha dos senhores poderosos dos media. Aqui, neste lustroso covil, o consenso converte-se no propósito comum do ajuste; o folclorismo da conflitualidade, numa conveniente diversão prescrita; e a dissidência, numa mera periferia onde se desdenham as proezas da irresponsabilidade ou da utopia.

A política está infamada, diz-se. Tagarela-se sobre a crise de representação incriminando, talvez com razão suficiente, a partidocracia ocorrente; uma sequela provável do confisco perverso dos diretórios partidários. Deste modo, os pecados da democracia ficam nomeados e, para brandas consciências, apontados estão os incontritos pecadores.

O que dizer então, nesta embrulhada, da envoltura comprometida do poder mediático? Como pratica este o jogo da mediação? Se medeia é porque ocupa um determinado meio; supostamente, uma valiosa centralidade nessa prestadia jogatana da tradução e representação do palpitar concreto das inquietações das gentes. Assim sendo, se há crise de representação, a crise também os compromete.

O decente e isento entendimento das coisas, que eu saiba, pressupõe ideias e destas, exige-se rigor e clareza. Eis o encargo a que os media estão obrigados pelo seu mandato social. E sobre esta matéria, estamos conversados. O voto útil, tema fartamente propalado pelo comentário político (e não só), torna-se, nestas circunstâncias, um bom exemplo de manipulação. Uma ideia turva e acintosamente enganosa de afunilamento democrático a favor das alternâncias e em desfavor das alternativas.

Pois é. Ao contrário do se pensa, o jornalismo não se mostra hoje vinculado à obra da democracia. Não respeita o dever de informar com verdade e, nessa medida, anarquiza os preceitos do escrutínio democrático. Assim vai um jornalismo que, cada vez mais, dimana, não da sua primordial função social, mas da determinação e das cumplicidades do acumulado e concentrado poder, incluindo dos mediáticos patrões. O Trabalho que se cuide. O Capital e os seus afins, esses, já se apropriaram da democracia, com o propósito neoliberal de obter (para si) um estado de classe cada vez mais rendido ao capital financeiro.

Share:
Read More

domingo, 27 de setembro de 2015

AS FRAGÂCIAS DESTE PORTUGAL À FRENTE

 

Arremessam mais números. Quantos mais, mais ajuizado. É importante consumir o espaço público com números. Os da economia e uns outros que repincham da proficiência acurada das sondagens. Não permitam vazios disponíveis para questões menores. Mormente para a política e seus sucedâneos palpáveis. Pobreza, precariedade e desigualdades são minudências que atarantam o essencial. Como tal, escusem-se delas. Convém, isso sim, é cuidar do sentido de responsabilidade – sem deixar de porfiar o ámen continuado dos coligados mediáticos – ora atemorizando, ora socorrendo-nos dos poderes da fé. Apesar disso, ajuntem ainda distrações coloridas, para além dos jogos aritméticos da adivinhação, muitos outros acessíveis (no mercado) ao propósito das agenciadas sensatez e juízo. Rivalizar emoções dá uma espécie de tusa competitiva e de euforia clubística que nos abeira da superfície túrbida da contenda futebolística. Aí, sentimo-nos em casa, embora impacientados e (provavelmente) raivosos, mas, finalmente, hábeis e sabedores. A pós-política no seu melhor. O mexilhão que se feda. O lugar do mau cheiro é na sujeira da rua. Esse lugar não faz parte destas fragâncias. Deste jeito, viva Portugal À Frente sem estes pestilentos moluscos.

Share:
Read More

sábado, 26 de setembro de 2015

NÂO PERDOES, MAS ESQUECE

 

Há fórmulas convencionais que eu recuso. Confesso que elas já me acudiram perante outros que igualmente as consideravam. “Perdoar mas não esquecer” é uma delas. A coligação PaF não perdoa nem esquece, em 2015, o tempo de 2011. Esta época negativa, sobremaneira reavivada, torna apenas supletivo o tempo que as separa. Num outro plano (e escala), diria que, embora me encanzine com facilidade, a ideia vangloriosa do perdoar é-me repulsiva. A arrogância que procura a humilhação do outro não me merece apreço. Aprendi com o tempo que a arte do distanciamento fluidifica a emoção e irriga a lucidez. Desta destreza, assenta o salubre sedimento que não pode adormecer. Todavia, as inverosímeis sondagens parecem assentar num estranho mas inovador preceito; “não perdoem mas esqueçam”. Sobretudo, no dia 4 de outubro, não perdoem mas, por favor, esqueçam o mal que, por causa de outros, não pudemos evitar de vos fazer. Nestas circunstâncias, e ante tal trapaça que a inversão da fórmula mascara, o saudável sedimento que em mim desperta, em voz ironicamente serena, consente-me sussurrar; “é preciso ter muita, mas mesmo muita lata!”.

Share:
Read More

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A FATALIDADE DO DIA SEGUINTE

 

O valor do voto no SYRIZA, em janeiro de 2015, aparenta hoje não ter contado para nada ou, na melhor das probabilidades, para muito pouco. Notoriamente, em face da insolente aventurança do sufragista grego, o casto e atilado EUROGRUPO não podia, com soberana razão, ficar quedo. Com base nesta usurpada autoridade, sentenciou que os displicentes helénicos, mal acostumados às deleitosas perambulações pelas azinhagas da democracia, neste contexto pretextado como positivo, faziam jus a um proporcionado e merecido escaldão. De facto, marotear à fartazana augustas eleições, acrescidas logo de uma afrontosa celebração pública de safadice, a ingratidão para com os esmoladores tornou-se irremissível e, por conseguinte, não podia nem devia ter a menor absolvição.

Como corretivo, o dito EUROGRUPO, intimou os vitoriosos a auto notificarem-se pública e aplicadamente perdedores. Tudo em nome da excelsitude da ordem europeia da finança, da transparência, do cálculo e da rédea. Transparência que, a este respeito, pois então, significa a responsabilidade acordada segundo a lógica de uma caminhada atrás franqueada e dum presente disponibilizado e condizente com o transato. Aliás, concerto que, em absoluto, não autoriza a qualquer um repensar destinos nem urdir acontecimentos.

A democracia já não é o que valia. Tem de se limitar à coibição funcional contraída com essa ordem inusitada de dita transparência. Assim sendo, não se admitem aventuras que desaceitem a compreensão e a concordância dessa obediência, aqui e ali discursivamente enroupada, como faz o nosso PS, de recatadas incompreensões e imprecisas divergências. Entulhado neste amontoado de escombros, o PS implora confiança ao mesmo tempo que a vacilante voz obsecrada o atraiçoa. Ganhe ou perca as eleições, a sua história futura definir-se-á no dia seguinte, ou seja, nos tempos imediatos que naturalmente se sucederão. Apesar de tudo, com algum recato, fico a fazer figas para que o povo não recidiva no delito abonatório da infame inclinação de 2011…

Share:
Read More

sábado, 19 de setembro de 2015

A LUTA PELO VOTO DA CONFRARIA DOS OTÁRIOS

 

Contrafazendo outrem, em favor do voto do arremedo apregoado, algumas cruzadas eleitorais mostram-se habilmente distorcidas face à realidade e aos dogmas que a escoram. Para tal, fazem equivaler a disputa política a um banal clássico desportivo e, em suposta concertação, do cidadão apenas buscam (e requerem) o seu costado lerdo de homem ludens.

A agiotagem cínica e petulante que se sacode pelos media, sabe bem, e em benefício próprio, aliás sempre mais funcional, cobiçosa e calculista nestes resolutivos cenários, explorar o emocional como matéria-prima. Empenha-se, para tanto, em subtrair à racionalidade o valor crítico da objetividade e, com o jeito industrioso que (afinal) a incrimina, colocar o velado a favor da circunstancial e volátil subjetividade.

Os poderes enredados no conluio deste profícuo paradigma, marcado pela talhada e desejada pré-reflexividade, pressupõem perfeitamente o que em comum lhes interessa, e sabem, melhor do que ninguém, como fazê-lo desaparecer em encarrilada forma de polémica, ganhosa para ambos. Procura-se, acima de tudo, que a substância se volatilize em emoção e que esta cumpra o seu dever de controlo ideológico sobre o cidadão desprevenido.

Como sou um indolente cismado – aliás próprio de um racional bem consciente do pecado da emotividade que, frequentemente, se lhe entorna – preciso de tempo para acompanhar a tartufice deste tipo de comunicação intencionalmente célere e invasor. Sobretudo, quando pressinto que, não sendo fácil policiar o pensamento, procuram torná-lo superficial e, como tal, presa dócil da inércia ideológica vigorante.

No entanto, jogam a favor da minha absoluta desconfiança, a vigilância atenta sobre o tempo passado, o reconhecimento da sucessão e permanência dos problemas e o escrutínio da isonomia cristalizadora dos comportamentos políticos de quem nos têm governado. Deste modo, para alinhar nessas cruzadas de apoio e reafirmação a esses poderes (sejam eles, nacionais ou europeus), teria de destruir memórias que me fizeram o que sou. Seriamente, não me vejo tão otário assim para me revogar tão imbecilmente.

Share:
Read More

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O ONDE E O AONDE DO FUTURO

 

Sinto-me bem neste lugar. Logo, experiencio agrado ONDE estou. Se não estou bem, sobra-me uma resposta certa que, por si e de imediato, arrasta consigo uma pergunta; mudo-me, seguramente é a resposta; para AONDE? a pergunta de igual modo certa para uma resposta, todavia, incerta.

ONDE e AONDE, ambas preanunciam lugares. Porém, é obrigatório atender às diferenças. ONDE nomeia o lugar onde estou e, provavelmente, me sinto bem. AONDE, ao comunicar uma noção de movimento, significa deslocamento, por consequência, mudança para um outro lugar.

Neste quadro eleitoral, onde se instala o ONDE e o AONDE das nossas opções? O ONDE acomoda-se, por certo, na resignação, tolhido pelo medo e pelo artifício da ausência de alternativa. O AONDE abraça o inconformismo, irrita a camorra europeia e faz, com toda a certeza, saracotear a história. Por mim, voto AONDE, voto FUTURO, dignificando, com total liberdade, o meu VOTO.

Share:
Read More