domingo, 22 de novembro de 2015

O PRETO E BRANCO DO POVARÉU ABURGUESADO

 

O exibicionismo social, por si, seja de que natureza for, e tome a forma que tomar, não me abespinha de todo. Pelo contrário, higienicamente acarreia a diversão e o desafio críticos da minha curiosidade em ler e alcançar o social que, o tal suposto e estulto alarde, se esforça por mascarar e acobertar.

O que se apresenta por fremente cálculo e se deseja imediatamente atrativo e visível, acidenta (sim) o meu olhar. Não o escondo. Todavia, esse olhar, já calejado e prevenido pela experiência da trapaça, aliás sempre solícito, protege-me a alma das factíveis e insensatas comoções.

Vagabundear por muitas e diversas margens e baldios, sociológicas e culturais concretas, ajuda. Pode despertar ecos e rumores de vidas suspeitas e incomuns. Sim, pode disso ter tudo, alguma coisa, um pouco apenas ou nada mesmo. A ânsia de descobrir eiras, por vezes sem beiras, difere a melosa arrogância da lição que se tem pressa em dar, tal como refreia a ufania da urgente e impaciente censura que ousamos para nos convencer e confortar.

Todavia, a vantagem maior não é a lição apressada nem o soberbo julgamento a tempo evitadas. A utilidade superior é o arrebatamento pelas descobertas que se fazem ao adentrar nos submundos do silêncio, da ocultação e do ilusório desperdício, esgueirando-se ao iníquo convencionalismo que se fecha na sua linguagem e, humanamente, nos circunscreve e diminui.

A crítica paciente e argumentada, por que da vida ela é arrancada, toma assim o lugar do juízo ao alcance da mão, sempre cómodo e fácil. Ainda bem que assim é, pois há um senão, um impiedoso senão neste juízo ali pronto, enraizado nas difundidas fórmulas dos modelos reinantes; ele traz-nos, embora aconchegados, exilados em desterrados repousos onde a liberdade nos mente e o temor nos acomoda.

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domingo, 15 de novembro de 2015

O DECISIVO E O DISPONÍVEL, A SOCIEDADE E O CIRCO

 

Neste tempo higiénico de acareação política (e atipicamente argumentativo), os comissários múltiplos desta ordem marcada por um tempo carregado de quatro e vagarosos anos de radicalidade da direita, com a aquiescência da burocracia europeia e reforçada (esta) pelos seus artífices da finança mundial, não toleram a rejeição (esta ou outra) ou, mesmo, a simples e cândida divergência. As desafeições, as improvações, a blasfémia e as excomungações tornam-se a costumeira sentença desse credo (e crentes) que não autoriza (autorizam) que se coloque em causa o exclusivo da sua verdade, aliás, repisada e insistentemente escudada pelos paroquiais e mediáticos contratados de serviço, em esmerada solidariedade reflexa das vozes de controlo remoto que do exterior se fazem perceber.

O ideológico espetáculo confessional aqui e hoje exibido (2015), bem próprio de sociedades medievais, garantidas por uma forte e pespegada afeção religiosa, nem o disfarce de um qualquer operativo efeito descomprometedor é esgravatado. Se dúvidas houvesse, Passos Coelho, na sua histriónica erupção, feita no obsequioso abrigo laranja, apontou ao que vinha e, sobretudo, o que foça (e foca) trapacear. Arrisca na esperançosa invulnerabilidade das vigências coletivas das crenças, acalentadas pela suposta segurança ontológica assente no propósito da continuidade da insubstituível regência (e domínio) e no óbvio e natural convencimento daí resultante. Assim sendo, convencer, vencer e aprisionar é o jesuítico alvo perseguido. Mas, felizmente que a sociedade não se delimita a esse efúgio circense e aos seus entusiásticos circunstantes.

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sábado, 7 de novembro de 2015

PRIVANÇAS

 

Não tem temeridade para dizer o que pensa? Reserve para si o abrigo, sempre reconfortante daquela máscara, embora demasiado vulgar e banal, de uma pobre espécie de "iminência parda", aliás estupidamente inteligente, aviso, pois quem consigo convive percebe o seu suposto proveito, metamorfoseando-se num arlequim tarouco que acredita, pela sua suposta elegância e recato, nada pesar no que se recita. Num outro enredo, de cariz mais religioso, faça-se uma risível "múmia do presépio", pois com o seu ar angelical e silencioso, mais do que aos outros, sobretudo convence-se a si próprio. Não lhe será difícil, deste modo, viver iluso (mas "feliz") no seu engasgado e desabitado mundo.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A INDÚSTRIA DE FALSIFICAR A SIGNIFICAÇÃO

 

Manusear o Correio da Manhã, que a sagacidade irónica de alguém designou (e bem) de “Correio da Manha”, é uma sindicância às evidências que naquele lugar moram. Com ostensiva e premeditada nudez, tais traços tornam-se corrosivos pilares de uma qualquer arquitetura da possibilidade, aliás sempre laboriosa e dura, de se alcançar o Real. Através desta abjeta destreza, de modo acintoso se aposta numa avivada (mas suja) diafaneidade que busca, tão-só, enturvar o inestimável Entendimento que, como se sabe, apenas ideias claras e sérias podem (e permitem) facultar. A colonização ideológica do “cenário de despolitização”, termo hoje referido (em entrevista ao Público) por Yanis Varoufakis, passa, na excelência, por este lastimável pasquim.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A VORAGEM DO NÃO-ACONTECIMENTO

 

A expectativa que algo aconteça faz-nos percorrer a calçada que nos leva da euforia ao desalento ou vice-versa. O sentido do percurso depende de onde nos encontramos e para onde queremos seguir. Acontecer é, porém, sempre qualquer coisa que acossa a rotina feita de nada acontecer. Se é bom ou mau acontecer, só o tempo o dirá. Uma coisa é certa; nada acontecer é apenas e tão-só estacar na calçada e bocejar na companhia da entorpecida rotineira.

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terça-feira, 13 de outubro de 2015

E SE EXPERIENCIÁSSEMOS SER NOVAMENTE CRIANÇAS?

 

Tenho, para mim, que cedo demais desertamos daquele lugar onde o audaz “porquê?” de criança desafia a impenetrabilidade do mundo. Crescemos, temos de nos sentir crescidos e aos outros mostrar quanto crescidos estamos. É um tempo de afirmação onde o “porquê” nos transparece desvantagem e, quiçá, uma embaraçosa modéstia tocada pelos adversos e comprometedores subúrbios do delicado sentimento de ignorância. Abre-se, provavelmente assim, espaço ao orgulho embrutecido pela linguagem do convencimento, irrigando e adulterando esta através da cobardia que se mascara. Afirmar arrasta consigo uma consoladora fragrância de poder. Ao invés, perguntar prefigura o reconhecimento da possibilidade do poder do outro. Com alguma prudência direi que não fomos (nem somos) educados a questionar a prática e a obra imaginável do próprio questionar. Desistir de perguntar, abdicar de questionar, é renunciar entender como o mundo se exerce. Talvez por isso ele funciona como funciona sem um questionamento que verdadeiramente valha.

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terça-feira, 6 de outubro de 2015

O PS E A SAÍDA PARA O FUTURO

 

Enquanto não me apresentarem uma argumentação convincente e consolidada, capaz de reabilitar a minha ancilose epistémica, permanecerei seguramente conservador. O tópico contemporâneo das enraizadas e dissolutas desigualdades, aliás de iníquos e trágicos alcances, teima em exibir-me a relação capital-trabalho bem acomodada no miolo da desconfortável fórmula marxista da equação dos seus oponentes interesses e, assim sendo, a tornar-me incompassível aos hodiernos travestismos com que se entraja tal liame. Aqui repousa, nos dias de hoje, e do meu ponto de vista, a aporia (ideo)lógica do PS e da sua social-democracia e, sobretudo, do seu penoso tiquetaquear político de desejada, ou fingida, superação.

A questão não é, como creio, de ter ou não responsabilidade institucional, preceito eleito (como convém) pela governabilidade da dominante Ordem, mas de um inconfundível posicionamento face à verdade da iniquidade do real. Esta verdade pede clareza e não uma qualquer retórica que subjaz à evasiva do seu íntimo entendimento. A bipolarização política vai-se, assim, entregando aos extremos, não outorgando espaço às premeditadas vacilações e obscuridades. Aqui, afinal, reside para mim, a consequente positividade sarcástica das consequências históricas deste selvático e dogmático Conselho de Washington. Aprendi que ter esperança não se fica pela espera. Ter esperança incita a caminhar atrás do que não existe no interior da insatisfação pelo que existe. Este é o esperar da esperança do meu conservadorismo e do otimismo que o segue na vivificante SAÍDA para o FUTURO.

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sábado, 3 de outubro de 2015

PRAXATEAR AS CONSCIÊNCIAS

 

Definitivamente, não condescendo com as praxes arbitrárias e humilhantes. A dignidade humana e o sentido de Universidade que a ela se impõe associar, exigem vindicar algo bem diferente e bem mais escrupuloso no desígnio ético. Suspeito que uma liberdade perdida no vazio de referências, sem regras e estremas, prontamente encaminha a benignidade dessas tradicionais práticas de iniciação e de integração para o cavouco obsceno da indignidade e do escorchado espetáculo. Reconheço que se trata de um radical sentimento pessoal que se apura face a comportamentos que considero digressivos para quem busca coabitar um emérito lugar de elevada formação e de expectável responsabilidade social e cívica. Admito que aprecio a rebeldia (ou a insubmissão) quando esta sabe exercer o seu espírito crítico em fecundo e inteligente diálogo com os valores sociais e políticos da cidadania. Nesta medida, creio sensato que se estime este (ab)uso reprovável da praxe olhando para ele como uma espelhada e inquietante imagem de uma sociedade em que o valor do outro obedece à tirania de uma aviltada razão instrumental. Ainda é tempo de não comprometer insanavelmente o compromisso com o outro. Culpar os desregrados não desobriga as responsabilidades coletivas e, sobretudo, o instituto que destas deve cuidar, tutelando o tempo vindouro que a todos nós pertence.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A ESTRANHEZA DO ÚTIL E DA UTILIDADE DO VOTO

O PAPEL DO JORNALISMO NA CONFISCAÇÃO DA DEMOCRACIA

Apercebo-me que a função social do jornalismo – verdade seja dita, qualificadora da legitimidade profissional do jornalista – vagabundeia hoje pelos becos de uma obscura “deontologia”. Descuidada da sua originária missão, a auspiciosa função social, o jornalismo vem-se acostando e, de uma forma extremada, amimando a ávida jurisdição dos conluiados poderes económicos e políticos.

Entre outros pastoreios, deste respaldo se efunde, como parece ser óbvio, uma disposição contrafeita pela incursão no jardim das delícias do dinheiro e do poder, com a incluída barganha dos senhores poderosos dos media. Aqui, neste lustroso covil, o consenso converte-se no propósito comum do ajuste; o folclorismo da conflitualidade, numa conveniente diversão prescrita; e a dissidência, numa mera periferia onde se desdenham as proezas da irresponsabilidade ou da utopia.

A política está infamada, diz-se. Tagarela-se sobre a crise de representação incriminando, talvez com razão suficiente, a partidocracia ocorrente; uma sequela provável do confisco perverso dos diretórios partidários. Deste modo, os pecados da democracia ficam nomeados e, para brandas consciências, apontados estão os incontritos pecadores.

O que dizer então, nesta embrulhada, da envoltura comprometida do poder mediático? Como pratica este o jogo da mediação? Se medeia é porque ocupa um determinado meio; supostamente, uma valiosa centralidade nessa prestadia jogatana da tradução e representação do palpitar concreto das inquietações das gentes. Assim sendo, se há crise de representação, a crise também os compromete.

O decente e isento entendimento das coisas, que eu saiba, pressupõe ideias e destas, exige-se rigor e clareza. Eis o encargo a que os media estão obrigados pelo seu mandato social. E sobre esta matéria, estamos conversados. O voto útil, tema fartamente propalado pelo comentário político (e não só), torna-se, nestas circunstâncias, um bom exemplo de manipulação. Uma ideia turva e acintosamente enganosa de afunilamento democrático a favor das alternâncias e em desfavor das alternativas.

Pois é. Ao contrário do se pensa, o jornalismo não se mostra hoje vinculado à obra da democracia. Não respeita o dever de informar com verdade e, nessa medida, anarquiza os preceitos do escrutínio democrático. Assim vai um jornalismo que, cada vez mais, dimana, não da sua primordial função social, mas da determinação e das cumplicidades do acumulado e concentrado poder, incluindo dos mediáticos patrões. O Trabalho que se cuide. O Capital e os seus afins, esses, já se apropriaram da democracia, com o propósito neoliberal de obter (para si) um estado de classe cada vez mais rendido ao capital financeiro.

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domingo, 27 de setembro de 2015

AS FRAGÂCIAS DESTE PORTUGAL À FRENTE

 

Arremessam mais números. Quantos mais, mais ajuizado. É importante consumir o espaço público com números. Os da economia e uns outros que repincham da proficiência acurada das sondagens. Não permitam vazios disponíveis para questões menores. Mormente para a política e seus sucedâneos palpáveis. Pobreza, precariedade e desigualdades são minudências que atarantam o essencial. Como tal, escusem-se delas. Convém, isso sim, é cuidar do sentido de responsabilidade – sem deixar de porfiar o ámen continuado dos coligados mediáticos – ora atemorizando, ora socorrendo-nos dos poderes da fé. Apesar disso, ajuntem ainda distrações coloridas, para além dos jogos aritméticos da adivinhação, muitos outros acessíveis (no mercado) ao propósito das agenciadas sensatez e juízo. Rivalizar emoções dá uma espécie de tusa competitiva e de euforia clubística que nos abeira da superfície túrbida da contenda futebolística. Aí, sentimo-nos em casa, embora impacientados e (provavelmente) raivosos, mas, finalmente, hábeis e sabedores. A pós-política no seu melhor. O mexilhão que se feda. O lugar do mau cheiro é na sujeira da rua. Esse lugar não faz parte destas fragâncias. Deste jeito, viva Portugal À Frente sem estes pestilentos moluscos.

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