domingo, 28 de fevereiro de 2016

O EU, UM EU APENAS GRAMATICAL

 

Eu cá sou assim, um significante que pouco ou nada afirma de substantivo. Faz parte de uma família de ditos que mais não são do que resistências ao que nos excede, ao que nos escapa, ao que não se (quer) reconhece(r). Mais desastroso ainda; ao que se esforça ignorar como uma parte de nós que nos desconforta. Perante tamanho asserto, desista. Não há espaço para qualquer tipo de questionamento. Em tempo algum será reconhecido ao argumento o seu valor de cidadania. Ou então, faça de conta que não percebe. Passa por ser um tipo porreiro e dialogante, mas corre o risco de que o outro sentencie; já enganei mais um…

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

VALE A PENA

 

Escrever não é, para mim, apenas retratar. Escrever é cuidar da vida e não tão-só descrevê-la. É o confronto fatal com o comum enquanto indivíduo, ser moral e sujeito indeclinável de valores. As palavras exigem, deste jeito, uma outra verdade e profundidade. Palavras capazes de desvelar futuro e igualmente talentosas para curar as dores do passado. Por isso, não renego o que já redigi e que não escreveria hoje. Os sujeitos fazem-se, aprendi também, através da escrita. Se bem que eu, tardiamente.

Ao sabor desta inquietação, feita de palavras, deita-se à leiva sementes que no devir do tempo, sem dúvida, germinarão. Com sofrimento e irritação e sem desenlace certo. Das palavras despontam mágoas mas delas, das palavras magoadas, amanhecerão seguramente alentos com futuro. Na esperança quimérica da deleção do que possa anular a Vida e a Liberdade. Vale a pena escrever.

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

UM EXÓRDIO AO OFÍCIO DA CIDADANIA

 

Todo o indivíduo tem a obrigação cívica de indagar o mundo e dessa perscrutação agir em conformidade ética. Porém, este dever que decorre da sua inerente condição racional de imediato contrai uma responsabilidade quando acrescida por via da divisão social do trabalho. Neste contexto, dever-se-á relevar a sua condição de produtores (e/ou reprodutores) sociais mais do que de recetores de enunciados.

Esta qualidade torna-se fatalmente um poder relativo que se materializa através da influência, sobretudo sobre aqueles que não integram o campo do pensar interventivo ou se encontram em posições desprovidas de poder formal institucionalizado. A função primeira deste exercício é capacitar os cidadãos, num determinado tempo histórico, em dilatar e radicalizar a sua capacidade de pensar-se a si mesmos.

Para tanto, importa levar o pensamento aos limites do pensável, assim como às suas raízes mais profundas. Como? Trabalhando incessantemente e sem concessões sobre o inconfessado, o pressuposto, o pré-conceito, o implícito, o nunca declarado, ou seja, de submeter à discussão precisamente esses conceitos que servem para discutir, mas nunca para serem discutidos, tendo como referências orientadoras as noções de justiça, de equidade e de liberdade, esse pão do espírito humano, por mais perdido que este pareça encontrar-se.

 

 

Nota – o curto escrito que se apresenta é da minha total responsabilidade tomando, todavia, de empréstimo duas ou três ideias de Rui Pereira[1], no artigo de sua autoria ínsito no LE MONDE DIPLOMATIQUE, de fevereiro de 2016, intitulado «Intelectual»: modos de usar.


[1] Investigador do Centro de Estudos Comunicação e sociedade da Universidade do Minho

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sábado, 20 de fevereiro de 2016

O ARDILOSO PIL(A)RETE

 

António Barreto (AB) faz parte daquele tipo de coro que melhor cantareja o refrão anticomunista. É o homem das sínteses fáceis que, com desembaraço, acaçapam contradições não resolvidas. As suas ideias aparecem sempre emparelhadas para que a falsidade de uma, que importa difundir, se desaperceba acostada a uma outra em geral estimada. Para AB, a liberdade nunca viaja só. Deve mostrar-se sempre bem acompanhada. Pela lei, pelo direito, pela ordem ou pelo consenso. E se aquela se porta mal, a explicação está na complacência crítica dos seus pares. Se os comunistas estão de um lado, ele está certamente na barricada oposta. Aliás sempre do lado dos que lutam contra a luta. Em síntese, a minha, o pigmeu é apenas um pilr(a)ete ardiloso ao serviço das metamorfoses do capital. Domingos Abrantes esclarece[1]:


[1] Entrevista no Diário de Notícias de hoje (20FEV2016)

 

 

“A natureza é por vezes demasiado cruel para algumas pessoas quando chegam a certa idade. António Barreto é uma personagem pouco séria intelectualmente. Barreto já foi tudo na vida. Esquerdista, comunista, socialista, social-democrata. Ultrarrevolucionário quando estava longe da política na Suíça, e contrarrevolucionário no Portugal de Abril. Ele faz parte de uma fauna que quando não sabe explica. Desliza a grande velocidade para posições fascizantes. Basta ver as suas posições sobre a revisão da Constituição e o que defende para a arquitetura do Estado. Nessa crónica expressa um argumento típico do fascismo, a defesa violenta contra os comunistas. Sofre da síndrome dos pigmeus. Acredita que bolçando lama sobre os grandes se torna gigante. É uma doença incurável. Precisamos que Eça ressuscitasse por algum tempo para se ocupar de certas abencerragens.”

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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A EROSÃO DA DECÊNCIA

 

Isabel Stilwell e Ferreira Fernandes falam ambos sobre um garoto de 12 anos traído e, este último, em artigo de opinião no DN, apoquenta-nos, e bem, alegando que o problema é nosso. O garoto é filho de Bárbara e Carrilho e foi a tribunal com a garantia de que seria protegido. Abrigado da morbidez daqueles miseráveis que vivem, deliberada ou impensadamente, do sangue dos outros, acrescento eu. Três pessoas estiveram presentes na sala de audiências mas nada impediu a profusão do relatado. A violação do proposto torna-se escândalo mas, porventura, mais escandaloso será a inconsequência da atroz indecência.

Leio alguns jornais com distância e vejo televisão com desconfiança. Aprendi, à custa de uma tola ingenuidade, que o devir radical dos indivíduos não dispensa a individualidade corajosa que se torna presente em todo ou qualquer terreno em que se tecem e tramam as sujeições. Os efeitos dos media estão suficientemente estudados, merecendo aqui sublinhar a construção de sentidos mais do que sobre conteúdos, com propósitos e interesses diversos. Esta traição nada mais é do que uma habitual cortina de fumo que aparentemente separa a miséria das pessoas e os interesses que trabalham a sua alienação. A falta de nobreza procurará a sua compensação no dinheiro fácil e, sobretudo, nas gratificações dos poderes agradecidos. Que razão é esta que se esclarece contra a mais humana das razões?

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sábado, 13 de fevereiro de 2016

PODER E VIOLÊNCIA SOCIAL

Há monstros que matam rápido e a sangue-frio. Outros fazem-no de um modo refinado, ao longo de toda uma vida. O assassinato destes perpetra-se através da humilhação, da desumanidade e da desesperança, quando não, segredam-me as vozes vindas dos cemitérios, de fome e de frio.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

ESTE MESMO TEMPO – AFINAL UM TEMPO SEMPRE DIFERENTE

 

Falar da vida com gente mais nova é sempre uma experiência deveras estimulante. Vivendo ambos o mesmo tempo, vivem-no respaldado sobre temporalidades diferentes. Os mais velhos, narrando sobremodo o passado, afiguram-se desejar suspender o tempo. Os mais novos, entrevendo futuridades a alcançar, apresentam-se em especial galanteadores do porvir.

O comum da inquietação é que a ambos o tempo lhes transcende. Na busca dessa sublimidade que lhes escapa, uns e outros se aventuram na façanha do seu gozo. Uns, trabalhando o sadio resgate das suas histórias de vida; os outros, salutarmente esforçando-se por as erguer. Aqueles, sentindo as traições de uma atribuída linearidade; estes, os mais novos, ainda sem memória dos restos que pelo caminho vão ficando.

Os mais velhos não têm pressa; os mais novos mostram-se ansiosos. Mas os dois, espiando a marcha do relógio, sabem que o tempo que importa está ligado aos insuprimíveis desejos. Afinal, esse tempo que significa e se significa é, acima de tudo, subjetivo. O garantido do tempo é que ele passa e não volta para trás, sendo o agora, o único tempo possível em que algo pode acontecer ou, nada sucedendo, sem remédio ele se perde.

Podemos voltar a todos os lugares estimados mas esse retorno jamais fará reverter o tempo. E é o reconhecimento desta absoluta inviabilidade que anima a agitação de significar as nossas histórias de vida e nos concede a possibilidade de as ressignificar, na busca continuada de uma verdade que não sobrevive idêntica ao longo do tempo. Esse agora, esse único tempo possível, e do possível, esse presente sempre fugaz, que logo se torna passado e se faz futuro, é o instante de um presente onde tudo se condensa e converge. As memórias como o presente do passado, a realidade vivida e sentida como presente do presente e o futuro como o presente da espera que se espera com esperança ou mesmo sem ela. Por isso, mais novos ou menos novos encontram-se nesta inquietação comum assente, não na natureza do tempo em si, mas sim na relação do sujeito com o tempo do seu tempo.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

SOBRE A ADOÇÃO

 

João Miguel Tavares (JMT) confessa-se; teve um sonho. Mas vai mais longe e mitiga a opressão angustiosa da noite rabiscando-o no seu orespeinhonãoébonito, um espaço que o Público lhe concede para os seus devaneios e imaginários remexidos. Aqui, e desta feita, apresenta-se oportunamente pautado, inclinado a cooperar com os seus confirmados pergaminhos para o enobrecimento do debate público Sobre a adoção gay.

Acompanhado da integridade que o convence, e em obediência à sua tão exaltada liberalidade, propõe-se pular duas ou três linhas acima do nível da cavernícola, evitando que o outro simbólico se precipite no recôncavo do subterrâneo das cavernas. Seriamente incomodado, o que não deixa de ser um bom sinal, com as cegas reações igrejeiras (de rejeição ou acolhimento) ao veto do expirante Cavaco, JMT descortina no canto do esvaído Presidente dois bondosos timbres na melodia que fazem, da sua resinosa partitura, algo de aplaudível.

O primeiro timbre, revelador do seu profundo sentido musical, inscreve-se naquela composição cristianizada por pautas que, dispensando algumas notas musicais, inspiram a notação monódica do consagrado gregoriano do Arco da Governação. O segundo timbre, logicamente inscrito na raiz conservadora do gregoriano, passa pela letra da música, das suas dinâmicas e prossegue até ao entrosamento do grupo, para se fixar na qualidade do canto em nome do superior interesse da criança.

À parte da rixa birrenta com o mote do casamento homossexual, diz o crítico, nada de confundir esse legítimo ponto de partida com o direito dos miúdos a serem adotados por esses excêntricos casais. Existindo já laços afetivos estabelecidos, tudo bem. É um problema de coadoção, por acaso já resolvido. Até aqui, é certo, o homem está de acordo. Daqui para a frente, aconselha ele a empreender um amplo e esclarecedor debate público. Assim sendo, e face ao exposto,  qual passa afinal a ser o objeto preciso da dúvida? Se o problema é dos laços afetivos, ou seja, de uma não existência anterior desses laços, o que diferencia o casal homossexual do heterossexual? Eventualmente, digo eu, talvez o preconceito, tornando este, por fim, o essencial da Coisa do debate. Em conclusão; algo já há muito permanecente no recôncavo do subterrâneo das cavernas.

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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

OUSADIA E SENSATEZ – ESTEIOS DE UM CONTRIBUTO

 

ARTIGO DE OPINIÃO PUBLICADO NO ESCOLA INFORMAÇÃO  DO SPGL

O ENSINO PROFISSIONAL EM QUESTÃO

Um ponto que me merece ser introdutório: sugerir, desde logo, a ideia de que a educação tem uma história e, conjuntamente associada, uma historicidade que a examina e interpela na sua irrealizável completude. Afinal, uma ação dialógica, em definitivo dispersante, que se vai tecendo na caminhada própria do tempo, esboçando e desenhando forçosos e urgentes futuros. A história entusiasma a humana compreensão, sem dúvida, mas não conduz a um completo entendimento que satisfaça a sua humana paixão. Tendo presente esta convivência improvável, nem sempre virtuosa, entre a história que se estuda e a peregrinante historicidade que a acompanha, o trabalho educativo dá-se na dependência de um incessante e paradoxal movimento que, escapando-lhe, não deixa de ser inspirado por ele e pela sua desmedida pretensão. O modelo escolar há muito inventado, na ilusão de alcançar um todo e perfeito traçado, caracterizado pela sua homogeneidade, mostra-se, afinal, decrépito ante as necessidades multifacetadas do mundo de hoje.

Tendo uma história, a educação torna-se, sobretudo, histórica ao ser confrontada com o inquietamento deste lado pungente do seu disputável curso. Deste jeito, a história vai-se empreendendo na incerta deslocação desse compósito movimento, sempre social, político e antropológico, singularmente marcado hoje, é bom lembrar, pela extensão e invasão do tecnológico. Com particular ressonância social e humana sobre o trabalho e o emprego, esta incursão exuberante do tecnológico interpela profunda e exigentemente a esfera da educação e da formação. Pelas múltiplas transformações que proporciona e suscita, assim como, é sensato assinalar, pelo culto egotista que assiste muitas dessas mudanças e conversões.

Para quem viveu os primórdios do Ensino Profissional com estranha energia e motivação, num tempo enlevado seguramente por uma não despicienda dose de credulidade avivada pelos excessos do entusiasmo, discorrer sobre o tema não é simples. Porventura, até um pouco doloroso perante as incertezas hoje reconhecidas, associadas a outras mais recentes. Estas, seguramente mais incontroversas, resultantes da apressada e desconcertada inclusão generalizada do Ensino Profissional na Escola Pública, em especial fruto dos seus impactos dinamicamente contraditórios. A organização pedagógica vital ao seu escoramento não foi acautelada e a (in)formação dos agentes escolares foi notoriamente menosprezada. Neste domínio, importa aqui focar em particular o que se relaciona com a reflexão impreterível dos currículos, da sua construção modular e, principalmente, sobre os modos de ensinar, de aprender e de avaliar a inovação proposta, num contexto tradicionalmente rígido, cativo de uma cultura pouco dada à flexibilidade e à formatividade das aprendizagens.

Relembre-se que, no final dos anos 80, as Escolas Profissionais surgiram impulsionadas pelo Estado, em concerto com parceiros locais ou setoriais, no sentido de corporizar um projeto de diversificação de educação/formação, inscrevendo em si modalidades de aproximação ao mundo do trabalho e comportando estas, de certo modo, dispositivos lógicos e coerentes de inserção social e profissional. O carácter privado assumido pelo subsistema do Ensino Profissional, associado ao universo restrito de jovens por ele abrangidos, a par da segmentação institucional que o acompanhou, originaram fundadas apreensões no domínio da gestão e reestruturação do Ensino Secundário público, designadamente no que concerne às formações escolares que lhe eram equivalentes. Ainda assim, seriamente crítico a um inábil modelo escolar pontuado pela espartana homogeneidade, firmei-me na crença – porventura ingénua - da possibilidade da multiplicidade, da mudança e do futuro reforço exequível de um espaço público de educação através de novos arranjos institucionais que o avigorassem. A inclusão do Ensino Profissional na Escola Pública regular obrigava a cinzelar a homogeneização do sistema que interditava, do meu ponto de vista, a abertura à diversidade (e que desta forma o tornava excludente), assim como se mostrava incapaz de se organizar diferentemente. Logo, condicionado, ou mesmo incapacitado de levar por diante a produção de projetos educativos harmonizados com as necessidades e os anseios mais imediatos dos jovens e das suas famílias.

Acreditei que a defesa, que sempre adotei, de valorização da educação pública, poderia passar por processos desta natureza, promovendo a inovação e a experimentação, devidamente avaliadas e dignificadas de modo a não acentuar os fatores de discriminação e de desigualdade, promovendo, isso sim, dinâmicas renovadas de coesão social. A convincente perceção da inaptidão da Escola Pública regular para acolher o lado atribulado e duro do desafio profissionalizante era evidente, face à incomum dificuldade de tecer a familiaridade desejável com essa inadiável e urgente hospitalidade. A premência de colocar no centro das preocupações escolares o sucesso desse projeto/ação formativa e a reclamada responsabilidade política, social e pedagógica daí decorrente, tonificou a convicção pessoal da necessidade de repensar o espaço público da educação, aceitando e nele inscrevendo outras responsabilidades, atores e instâncias sociais. Sempre tive a expectativa que os bons auspícios das Escolas Profissionais - e do Ensino Profissional - entrassem na Escola Pública carreando para o seu interior a riqueza da experiência inovadora daquelas escolas, assim como a confiável autonomia e as necessárias condições, de recursos e liberdade, para o seu cabal e responsável exercício.

A incorporação do Ensino Profissional, no âmbito público da formação escolar, pressupõe um olhar diferente, acompanhado de uma vontade política e institucional, racionalmente arquitetada, que espelhe, reflita e se baseie na realidade concreta dos jovens e dos seus contextos próximos, de modo a trabalhar um sentido de (trans)formação explicitamente objetivado, tendo como referencial de aproximação um cenário socialmente claro, conhecido e reconhecido. Deste modo, é imperioso saber quem somos, onde estamos e o que podemos fazer e reclamar. Retrocedendo ao delicado tema da incorporação acima referido, importa aqui reiterar a minha convicção de que não é através de soluções englobantes, nem a outras a elas redutíveis, que a unidade da escola se constrói. Pelo contrário, ela desenha-se pelos traços de verdade, coerência e consistência do seu projeto de proximidade e integrador da diversidade.

Tenho perfeita consciência de que se vive um tempo em que o pensamento antes exposto, embora condensado e despretensioso, se mostra um tanto ou quanto paroquial, quando não genuinamente cândido. As atuais dinâmicas de globalização (ou das globalizações) trazem consigo os seus congénitos influxos e os Estados, e sobretudo os seus cidadãos, mais ou menos comodamente instalados, apercebem-se como meras instâncias mediadoras de orientações que, em maior ou menor grau, lhes escapam. A europeização, nosso braço próximo dessa ou dessas globalizações, vai assim fixando as nossas agendas e prioridades e, com clareza, estabelecendo as linhas políticas para a educação/formação com o propósito de animar, afinal de contas, a competitividade económica e de ampliar assim as oportunidades de acumulação capitalista, de acordo com engenharias ajustadas de regulação social e ideológica.

Assim sendo, o distanciamento, que o tempo vem alongando, sequestrou a inteireza da entrega e, daí, a consequente ressignificação contextualizada dos possíveis e das prioridades, por ora aqui exposta um tanto ou quanto remissa. Certo é que o vigorante e dogmático artifício da empregabilidade, ao liquefazer o direito à educação com a atual marcha do tempo político, hospedou em seu lugar uma suspeitosa necessidade de reação ao afazer profissional, decretando um caminho perverso de preceituada obrigação de se merecer um emprego. O valor da cidadania educativa não pode deixar de ser aqui invocado, e quiçá reinventado, como um rumo a observar neste quadro de análise ideologicamente concorrido e, por conseguinte, exposto a influências contrastantes por parte de diferentes e múltiplas perspetivas, grupos e sectores sociais. Nesta atmosfera progressiva de adesão imponderada à fragilização da cidadania a favor do jugo da empregabilidade, os futuros possíveis têm vindo a ser forçados a deslocarem-se para acessos duvidosos, estreitamente bitolados e selecionados. É onde nos encontramos. Lamentavelmente.

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A VIDA É ASSIM…

 

Sem se dar por isso, a vida costumeira torna-se leiva amanhada. Por ali, corre o dizer preguiçoso e repetitivo. Um curso sem encalhes. Um pensamento findo, um sentir amoldado e o palpite feito crer, em inteira harmonia. A consciência mansa germina assim nesta entorpecida concertação. O sentido para a vida acorda aí indolente, sem vitalidade. Deste jeito, o mundo parece o que se deseja, familiar. À míngua da razão, brilha o fulgor do mito. Ofuscado por esta luz, o desconhecido desvanece-se e a angústia perde o seu objeto. Afinal, é a vida. Aqui tendes o consolo dos que se bastam em vê-la passar. Acontece? Enfim, a vida é assim...!

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